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"I´m a short-tempered son of a bitch!"

... disse Michael (John C. Reilly).

Eu também sou.
E tu, não o serás!? Escondes, ou desconheces sê-lo pois nunca alcançaste o teu limite?
  

Baseada na peça de "Le Dieu du carnage" de Yasmina Reza , "O Deus da Carnificina" de Polanski recorre à sala de estar da família Longstreet e a uma pretensa conversa civilizada acerca de um conflito entre o seu filho e o dos Cowan, para cada personagem cuspir, a nu, as suas verdadeiras fragilidades,  sofrimento e raiva.
O conflito entre os jovens, delicadamente abordado no início, faz resvalar as secretas dinâmicas em ebulição de cada personagem, e, consequentemente, de cada casal. A sala, bem decorada, meticulosamente arrumada e adornada com tulipas e livros de arte, torna-se um espelho da tensão existente em cada relação interpessoal.


Não existem indivíduos genuinamente ponderados, serenos e cordiais. Nunca houve. Existem sempre fantasmas, inseguranças, medos e vaidades que latejam nos seus comportamentos mudos e socialmente espartilhados.


Esqueçamos as doces princesas e os bravos cavaleiros. Já os viram? 
Não há amores de finais facilmente felizes. Há apenas amores. O tempo arrasta as promessas e as gargalhadas ingénuas para um redemoinho de tensões. Nada é perfeito, nem no amor: fraterno, familiar ou erótico. É conflituoso. Se nos alimenta, também nos magoa e destrói, ao contrário do que se cobre em largos sorrisos e projectos ídilicos. Aquilo por que mais ansiamos é também a faca que mais nos fere. Creio ser humilde olhar os dois gumes.

Se a falar a gente se entende, por vezes, há sentimentos engasgados que só são capazes de serem expressos através de um grito ou de um choro violento. Na sala nova-iorquina despem-se todas as dinâmicas que fingimos não ver pairar sobre nós. Gosto desse cair das aparências que tanto estimamos. Estimamos todos, sem excepção.

 


habemus papam, por pouco



Vejo “Habemus Papam” (2011) tal como numa das cenas iniciais do conclave em que se dá um corte de energia eléctrica. Sinto que faltou a Nanni Moretti energia para mergulhar as mãos nos conflitos internos de uma pessoa em crise existencial, um papa apavorado com a sua eleição. Sinto ainda que lhe escasseou as forças quando colocou o psicanalista, retido no Vaticano por razões de protocolo, frente a frente com os restantes cardeais, exposto aos seus medos e inseguranças.

Existe um psicanalista, mas não uma terapia; apenas a fuga do papa recém-eleito que se sucumbe a um momento de introspecção vagueando, anónimo, por Roma. Cidade onde conhece uma realidade que lhe fora privada, desde que desistiu do sonho de vir a ser actor. Esta fuga porém é demasiado esquiva, insuficientemente intensa e pouco traz à luz o conflito com que a personagem se depara.
Moretti faz também o filme deambular como o incógnito fumo branco da chaminé da Capela Sistina, orquestrando cenas fabulosas que são subitamente invadidas pelo mesmo apagão energético do conclave. Esta falha energética acontece não só no final do filme como, de forma mais gritante, na cena do teatro em que se encena A Gaivota, de Tchekhov. A brilhante actuação é abruptamente interrompida pela entrada na plateia de algumas figuras do clérigo e por uma injustificada ovação ao papa, anonimamente recolhido num camarote. Talvez aqui Moretti quisesse piscar o olho à “veneração pela veneração”; à veneração alucinada à qual a grandiosa manifestação de arte que habitava o palco passa despercebida.

Procurava neste filme encontrar a “tensão psicanalista” que a personagem de Moretti, um freudianno ateu, prometia. Procurava um conflito de crenças, de valores. O Criacionismo e o Evolucionismo foram timidamente abordados.

Nestas coisas da religião, gosto de fervorosos conflitos de fé e ali houve voleibol a mais para mim.

um filme sem mim

Há algum tempo que me tenho vindo a cruzar com este filme. Há dois anos, mudança-traz-mudança, vivi um intenso período onde senti perder o controlo de tudo aquilo que julgava constituir a minha identidade e tive necessariamente que me repensar (quem acredita diz que foi o meu Retorno de Saturno). Foi nesse contexto que vi, pela primeira vez, o trailer não oficial - a cena de abertura do filme - de "A Minha Vida Sem Mim" (2003), filme espanhol e canadiano, realizado por Isabel Coixet. Aquelas palavras não podiam ter feito mais sentido e tornei-o uma das mascote da minha mutação sem nunca ter chegado a ver o filme.


"Esta eres tú. Los ojos cerrados, bajo la lluvia. Nunca imaginaste que harías algo así. Nunca te habías visto como... no sé cómo describirlo... como una de esas personas a las que les gusta la Luna, o que pasan horas contemplando el mar, o una puesta de Sol. Seguro que sabes de qué gente estoy hablando. O tal vez no. Da igual, a ti te gusta estar así. Desafiando el frío, sintiendo cómo el agua empapa tu camiseta y te moja la piel, y notar cómo la tierra se vuelve mullida bajo tus pies, y el olor, y el sonido de la lluvia al golpear las hojas... Todas esas cosas que dicen los libros que no has leído. Esta eres tú. ¿Quién lo iba a decir? Tú..."

Vi-o finalmente esta semana. As premissas prometiam: uma jovem confrontada com a sua morte anunciada revê a sua forma de estar no mundo. Depois desse trailer esperava uma história bem mais estruturada com momentos de maior reflexão sobre a condição humana e a omnipresença da morte na vida de alguém, mas o filme caiu na sua própria armadilha e todas as premissas prometedoras lançadas tornaram-se insuportavelmente desagregadas. Diante da sua morte, Ann (Sarah Polley) escreve uma pequena lista que sintetiza todos os sonhos e fantasias adiados por uma maternidade prematura. Foi aqui que senti que o que me foi "prometido" não tem qualquer intensidade e a narrativa cai num desfile de chavões adolescentes. Os desejos constantes na lista deixam de ser criveis face à leviandade e celeridade com que se realizam e pouco vemos da auto-reflexão que o trailer parecia querer sugerir.
À parte das minhas expectativas frustradas ficam os excelentes diálogos com o médico tímido (Julian Richings), a banda sonora e a fotografia de Jean-Claude Larrieu.

Depois do que significou, a cena inicial para mim será o filme. Vou fingir que "A Minha Vida Sem Mim" é uma curta metragem de 1 minuto e 40 segundos, em que uma rapariga de pés descalços se redescobre à chuva.


"Try your wings" de Blossom Dearie é um dos maravilhoso temas da banda sonora.

(Por entre várias incongruências há uma que não entendo definitivamente e que considero um erro colossal no filme: Ann e Don são canadianos e, pela sua história, percebemos que viajar para a Europa em 1994 seria impraticável. Como terá sido então possível os dois conhecerem-se no último concerto dos Nirvana quando este se realizou em Munique, na Alemanha? )

¿cómo se hace para vivir una vida llena de nada?

Desde os regalos asiáticos (este e este) que sentia saudades de um filme assim.
Numa sessão integrada na Feira do Livro de Peniche, que quis prestar homenagem ao escritor argentino Eduardo Sacheri, encontrámos, numa sala pequenina e muito fria, "O Segredo dos Seus Olhos", baseado na sua obra "La pregunta de sus ojos".

Premiado com o Óscar de "Melhor Filme Estrangeiro" na edição de 2009, recorda-nos tanto o suspense de Hitchcock, como o imaginário noir, cinema influenciado por uma nova corrente na literatura policial onde era concedido um novo papel ao detective que aparecia ainda formando uma dupla amorosa com uma maravilhosa femme fatale. Como neste período, também no filme o crime serve de alçapão a diversas peripécias e reflexões das personagens. Reflexões que, aqui, trazem à luz não só o clima político da Argentina dos anos 70, a corrupção e a justiça, como o sentido da amizade, do amor e da paixão, bem como do arrependimento e da vingança.

Benjamin Esposito, um agente judicial recém-reformado, interpretado brilhantemente por Ricardo Darín, sente viver uma vida perdida e decide finalmente dar o nó às pontas soltas do seu passado. Inicia a escrita de um romance que o faz regressar cerca de trinta anos atrás, a um caso criminal que ainda o perturba. À medida que mergulha nos contornos nebulosos desse assassinato, Esposito investiga igualmente o seu passado, sobretudo o amor que deixou escapar por Irene (Soledad Villamil). Se neste regresso encontra portas abertas que alterarão o seu futuro, toca em outras que se preferiram fechar e que lhe relembram que o passado é agora imutável: "Não pense mais, senão terá mil passados e nenhum futuro. Terá só lembranças." .

No final percebemos, o segredo encerrado em cada olhar é a paixão que cada homem esconde.

dois murros no estômago em português

Na passada semana assisti a dois documentários nacionais aterradoramente sensíveis e que merecem toda a distinção. “Quem Vai à Guerra”, o novo documentário de Marta Pessoa - que se estreia em 2009 com o brilhante "Lisboa Domiciliária" - e “48” de Susana de Sousa Dias.

Numa sessão especial do Indie Lisboa deu-se a antestreia de “Quem Vai à Guerra”. Antes do início da sessão, num momento de emoções à flor da pele, sobe ao palco Marta Pessoa a quem se juntaram as mulheres que fizeram o filme. Passados minutos, apagam-se as luzes e num extraordinário teatro de guerra trabalhado pelo cenógrafo Rui Francisco, ouvimos os testemunhos das duras batalhas que a guerra raramente mostra.

Passado meio século, a realizadora leva-nos aos treze anos em que milhares de homens foram mobilizados para as ex-colónias a fim de travar uma guerra “mal-explicada”. Este capítulo da história nacional, que teima em se fazer esquecer sendo continuamente falado em surdina, pedia, há muito, este olhar destemido.

Apesar de a guerra ser tradicionalmente um tema masculino (sobretudo quando vivida no Estado Novo onde as mulheres menor espaço para expressão detinham), da tela apenas figuras femininas testemunham esses tempos: o medo, a violência, a saudade, a inconsciência e as sequelas. Vozes de uma guerra que não molestou apenas os combatentes.

O documentário terá estreia comercial a 16 de Junho no Cinema Classic City Alvalade.

Desejo-lhe o sucesso merecido!

*



Em criança, por várias vezes os meus pais descreveram-me o ambiente social e político que se vivia no Estado Novo. Falavam-me não só da PIDE, da Guerra do Ultramar, da censura na imprensa e em todas manifestações culturais, mas também das rígidas restrições e opressões sociais que colocaram a população a viver cenários regidos pelo medo. Faltavam-me as vozes, os rostos e os suspiros daqueles que estiveram na linha da frente, batalhando pela mudança.

Susana de Sousa Dias entrou há uns anos nos arquivos do Estado Novo e desde então que se dedica a trabalhar sobre esta documentação em busca da verdade escondida. Em "48", a realizadora desenvolve a narrativa a partir de um conjunto de fotografias de cadastro tiradas a dezasseis prisioneiros políticos, muitas vezes após sessões de tortura. Sobre estes retratos, que se movem hipnoticamente, surgem as vozes, os lamentos e os silêncios daqueles que sobreviveram, às mãos da PIDE, a episódios de extremo sadismo, humilhação e terror.

*

Em ambos os casos, não conseguimos sair do cinema não só atormentados, como bem mais conscientes dos abusos avassaladores daquele regime. Acima de tudo, pelo seu conteúdo histórico, “Quem Vai à Guerra” e “48” constituem documentos preciosíssimos, obrigatórios!!


Ao cinema documental português um sincero: Bravo!

essencialmente, a sobrevivência


Perdidos na imensidão extrema de uma floresta, expostos a condições climatéricas demasiado hostis, perseguidos e famintos, o que seríamos capazes de fazer pela nossa sobrevivência?

Em Essencial Killing (2010) assistimos à difícil luta de um talibã fugitivo pela vida. Da personagem, brilhantemente interpretada por Vincent Gallo, só conseguimos ouvir a voz, como num animal, nas torturas levadas a cabo pelo exército dos EUA e em dolorosos gritos e choros no silêncio da floesta . A batalha de Mohammed e o apego à sua sobrevivência leva-nos a reflectir não sobre o fanatismo à causa islâmica, mas acerca do instinto humano e dos seus actos mais primitivos.

a linguagem das emoções

Em “As Quatro Voltas” (2010), o milanês Michelangelo Frammartino conduz-nos a uma experiência ausente de discurso.
Há dias, entre conversas, eu e uma amiga focámo-nos na impossibilidade da transmissão pura de uma experiência sensorial ou emotiva. Uma vez que a linguagem implica a racionalização das emoções, este processo deixa aquém a essência de cada sensação experimentada. No fundo, entre a impressão e a comunicação existe uma impossibilidade infinita do extravio da mensagem!
No filme, entre os ciclos da vida e ritmo da natureza, não há lugar para a linguagem, apenas à contemplação.
Palavras para quê?

poesia

Ela gosta de flores e diz coisas estranhas, o que para a sua filha são condições daqueles que têm veia poética.

As flores acompanham a sua história. Num consultório em Seul observa as camélias dispostas no parapeito, são vermelhas, cor da dor, e quando a médica a informa que está com Alzheimer revela ainda que as camélias vermelhas são de plástico.

A poesia torna-se na sua Crista-de-galo, flor estival originária da Índia que possui a capacidade de protecção. Yun Jeong-hie refugia-se nessa “arte de ver” que a ampara da imoralidade que tem necessariamente que abraçar.

Nos momentos mais tensos ela, no seu refúgio, alheia-se contemplando flores, árvores, alperces, os pássaros e as colheitas. Yun Jeong-hie vive, através da contemplação, um mundo paralelo distante da dor.

Lembro-me de Lola onde outras duas avós lutavam dignamente pelos seus netos. Foram estes os melhores filmes que vi ultimamente no cinema e que se fossem flores teriam a cor amarela, cor da glória.

Poesia (2010), de Lee Chang-dong.

Aqui a crítica de Bruno Sousa Villar.

tempos modernos

Depois de uma extraordinária consulta de homeopatia e uma sessão de acupuntura chego a casa e passo um serão em Londres, presa num mundo paralelo onde a emigração ilegal coabita tranquilamente com o tráfico de órgãos e com a prostituição. Em "Estranhos de Passagem"(2002), de Stephen Frears, vive-se uma Londres subterrânea, de caves e sub-caves. Espaços perigosamente assombrados por pessoas anónimas, invisíveis, que baixam os olhos diante da sua clandestinidade.

"(..) We are the people you do not see. We are the ones who drive your cabs. We clean your rooms. And suck your cocks."

Num frenesim pela sobrevivência, o filme corre, como correm as suas personagens, constantemente em transição.
Serve o argumento e a brilhante interpretação de Chiwetel Ejiofor para fechar bem o dia.

a rainha vermelha

O figurino de Rainha de Copas de Tim Burton, interpretada por Helena Bonham Carter, inspirado na Rainha Isabel I.

É curioso ter-me deparado com este figurino dias antes de ser premiado com um Óscar. No rescaldo da 83ª gala de entrega dos Óscares, evento que em nada me consegue entusiasmar, aplaudo o trabalho de Colleen Atwood criadora dos figurino da adaptação do clássico de Lewis Carol, "Alice no País das Maravilhas", por Tim Burton, galardoado com um Óscar nesta categoria. Para além da sua fabulosa participação na maioria dos filmes de Tim Burton e em Silêncio dos Inocentes; Collen Atwood conta com mais duas estatuetas pela sua participação em "Chicago" (2002) e em "Memórias de Uma Gueixa" (2006).
Ainda sobre a "Alice no País das Maravilhas" tiro o chapéu também a Robert Stromberg (design de produção) e a Karen O´Hara (design de cenários), premiados na categoria de melhor direcção artística.

high lace collars

A high standing pleated collar popular in the renaissance period made of starched linen or lace, or a similar fashion popular late seventeenth century and again in the early nineteenth century. They were also known as "millstone collars" or "ruff collar".

Vencedor, em 2008, do Oscar de Melhor Figurino (de Alexandra Byrne), foi em "Elizabeth - A Idade de Ouro" onde encontrei os mais deslumbrantes vestidos isabelinos. A Rainha Elisabeth I ficou na história da moda não apenas pela coloração vermelha do cabelo como ainda pela alteração da gola em rufo, separando-a junto do rosto de forma a possibilitar a abertura de um decote.

parabéns!

A SOUNDZONE online magazine inaugura agora uma secção dedicada à 7ª Arte. Pedro Oliveira e Bruno Sousa Villar são as duas novas caras da equipa.

O rapaz encontra finalmente o merecido reconhecimento e a sua extraordinária cultura musical e cinematográfica torna-o num ser extremamente requisitado !

"Ver, ouvir e não calar"

Apesar da sua visão de humanidade, não tão pessimista como verdadeira no pior dos nossos defeitos, Saramago afirma que se todos os amantes da beleza pudessem juntar esforços para combater as barbaridades do ser humano talvez se conseguisse dignificar o Homem. “Espero morrer lúcido e de olhos abertos”. Saramago fala-nos, sempre nos falou, sobre a Lucidez.

No fabuloso documentário de Miguel Gonçalves Mendes o casal Saramago e Pilar abre-nos a porta de sua casa.

"A vida de cada um de nós vai sendo contada em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como andamos e olhamos, na maneira como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão". É assim que, com o decorrer do documentário, Saramago e Pilar se dão a conhecer.

Saramago é, mais do que um homem humilde, mais do que o brilhante escritor, um sábio a quem apetece não parar de ouvir. A sua clareza e consciência fazem-me acreditar que a sua missão foi, mais do que literária, a intervenção na sociedade.

Em "José e Pilar" fala-se da morte, de deus, do sentido da vida e do Homem. Assistimos às viagens, às cansativas conferências de impressa, às infindáveis sessões de autógrafo, às refeições, aos serões, à doença e à recuperação do escritor; a vida de um casal, o sereno, tímido e provocador José Saramago e a enérgica e poderosa Pilar del Río. “Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”.

Em "José e Pilar" fala-se sobretudo de amor, através do inseparável percurso do casal, através das duas mãos que se procuram e se entrelaçam constantemente. Segundo o realizador, os dois completavam-se. “Ela lhe deu uma segunda vida”.


Bakhtiari

O Bakhtiari é um dos mais antigos povos persa do Irão, ocupando as regiões montanhosas da Cordilheira de Zagros, a Sudoeste do país. A tribo possui cerca de 800 mil pessoas, sendo um terço da sua população composta por pastores nómadas. Estes permanecem, com os seus carneiros e bodes, nas planícies de Isfahán durante o Inverno, subindo à montanhas durante o Verão, a mais de três mil metros de altura.
Muçulmanos Chiitas, organizam-se em duas sub-tribos, a Chahar Lang (Quatro Pés) e a Half Lang (Sete Pés), cada uma chefiada por uma família poderosa.

"People of the wind", 1976

O documentário de Anthony Howarth retrata a migração dos pastores Bakhtiari.
Aqui é possível encontrar outro documentário acerca desde povo persa.

brisas


Enquanto eu escrevia que "Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias", encontro em "Brisas"(2008), Enrique Ramirez dizer que as cidades são como as pessoas, existindo algo na sua personalidade que as torna inesquecíveis. Acrescenta que, tal como as pessoas, também as cidades podem ser carregadas de memórias. Esta sua afirmação prende-se aos conceitos basilares da sua curta-metragem, a memória e a história. Aqui, acompanhamos o passeio de homem pelas ruas e praças de Santiago do Chile, entrando no palácio presidencial, onde se deu o golpe fascista que derrubou Salvador Allende, dando lugar a uma tumultuosa ditadura.

"A brisa que passa pelo meu rosto, que passa pelo seu rosto, a bala na cabeça, o sangue grudado no telhado. Como voltar para rever a história? Como voltar? "

"Brisas", fez parte de instalação que Enrique Ramirez expôs na Galeria em Santiago do Chile. É uma curta-metragem excepcional que conta, para além de uma magnífica fotografia, com uma banda sonora à altura. Em voz-off , um belíssimo texto tão abstracto como poético.

vidas firmadas no ódio



Heydrich: Yes, he told me a story about a man he had known all his life, a boyhood friend. This man hated his father. Loved his mother fiercely. His mother was devoted to him, but his father used to beat him, demeaned him, disenherited him. Anyway, this friend grew to manhood and was still in his thirties when the mother died. The mother, who had nurtured and protected him, died. The man stood at her grave as they lowered the coffin, and tried to cry, but no tears came. The man's father lived to a very extended old age, and withered away and died when the son was in his fifties. At the father's funeral, much to the son's surprise, he could not control his tears. Wailing, sobbing... he was apparently inconsolable. Lost. That was the story Kritzinger told me.
(fonte: Wikiquote)

O telefilme "Conspiracy", de 2001, produzido pela BBC e pela HBO, recria a Conferência de Wannsee onde foi declarada a solução final acerca do Holocausto.

Skinhead Attitude

Skinhead Attitude (2003), excelente documentário do suíço Daniel Scweizer, apresenta a história do movimento skinhead desde a sua origem na Jamaica, passando pela cena pós-punk em Inglaterra, pelo movimento dos mods (modernists), amantes da música negra norte americana (soul, r&b) e jamaicana (ska) – e pela divisão política que gerou, nos anos 80, duas facções: uma racista – os boneheads da extrema-direita neo-nazi; outra anti-racista – os Sharp e os Rash (skins anarquistas ou comunistas).

O documentário inclui testemunhos de músicos e de elementos da cena skin da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá, abordando os confrontos violentos entre as duas facções, responsável por algumas mortes, e a ligação a uma violenta organização neo-nazi de origem britânica, a Combat 18 (C18), associada ao movimento de propaganda neo-nazi Blood & Honour.

O documentário consegue esclarecer as origens de um movimento que, progressivamente, foi sendo relacionado com cena neo-nazi, mostrando-nos o quão incorrecta é essa associação, uma vez que na sua génese imperava o espírito de tolerância e união, princípios que os skinheads tradicionais ainda defendem).

odisseia nocturna

"A Morte do Senhor Lazarescu" (2005), filme romeno realizado por Cristi Puiu, possui um argumento fortíssimo baseado num episódio ocorrido, uns anos antes em Bucareste, em que um doente fora abandonado na rua pela ambulância que o transportava por ter sida recusada a sua entrada em inúmeras urgências hospitalares da cidade.
O filme fala-nos não só do abandono dos idosos pelas suas famílias, da sua solidão e dor, como ainda da falta de sensibilidade e indiferença no seu tratamento por aqueles que os rodeiam e pelo pessoal médico.
O senhor Dante Lazarescu, um viúvo reformado, apesar de morar num grande edifício em Bucareste bastante habitado, vive sozinho num apartamento, menosprezado pelos vizinhos por beber uns copos a mais. A história que nos conta poderia chegar a nós através de um vizinho nosso, perdido, desprezado nas urgências de vários hospitais, onde, devido à sua situação social, é atendido pelos profissionais de saúde com bastante relutância.

Durante uma longa e cansativa noite vemos o seu caso clínico a ser examinado sem qualquer tipo de seriedade e profissionalismo: seguem-se os diagnósticos díspares, são recusados tratamentos e análises e Lazarescu vê-se constantemente ultrapassado por casos aparentemente mais urgentes. Assistimos assim a um conjunto de actos médicos levianos e ao um leque de discussões entre os técnicos de saúde que teimam mais em afirmar hierarquias profissionais e autoridade de cada, do que prestar um bom serviço médico.
Entretanto, minuto após minuto, observamos a saúde do senhor Lazarescu a deteriorar- se profundamente...

“Esse sentimento de verdade do cinema”

Em Lola, tudo para mim é cinema.
Lola (2009), de Brillante Mendoza, é filme de uma crua pureza que retrata a história da vida de duas famílias, aproximando-se do cinema documental na denúncia que, através de um duro realismo, faz da sociedade, da (in) justiça e da extrema pobreza filipina.

Saí da sala de cinema devastada, perdida ainda pelas ruas labirínticas da chuvosa Manila, sustendo a respiração à chuva, de mãos dadas com as daquelas avós cuja dignidade se revela em cada passo, na luta que travam pelas suas famílias. Uma história de compaixão e perdão que torna as duas avós, aparentemente frágeis, em verdadeiros exemplos de uma heróica força interior.

Sem truques cinematográficos, diálogos desnecessários, teatrais e jogos de luzes artificiais, sentimo-nos arrancados para aquela cidade, molhados pela tumultuosa tempestade. Os planos próximos – que revelam os seus rostos, os seus olhos lacrimosos – e a calma com que são filmadas, tornam as personagens demasiado reais. Caracterizadas por pequenos e deliciosos detalhes, lembram-nos as nossas avós: a forma como caminham, como se comportam e a sua mímica: a maneira como amparam o chapéu-de-chuva, a mão que arranja o cabelo ao vento e a precisão com que são dobrados os lenços que transportam o dinheiro.

A respeito desse realismo, dessa naturalidade no cinema, Brillante Mendoza diz à Ípsilon: “Os planos com cenas de chuva e de vento misturam artifício e realidade, sim", confirma o realizador. "Não estou a perder o que desenvolvi antes, ou seja, esse sentimento de verdade do cinema. Estou a trazer algo de novo ao meu cinema. E alguns efeitos existem para tornar as coisas mais eficazes. Mas, tal como nos outros meus filmes, também aqui não ensaiei com os actores, a não ser questões técnicas. Digo-lhes para fazer o que têm a fazer e filmo-os.

Um autêntico hino ao cinema. Adorei.

"As yellow as the sun, as red as love"

Gabbeh, um filme de 1996 de Mohammad Ahmadi e Mohsen Makhmalbaf, documenta a vida de uma tribo nómada quase extinta do Sudeste iraniano. Tribo que, há séculos, produz os tapetes Gabbeh como expressão artística e como documento autobiográfico de cada família.