[a colourful day keeps the doctor away]
"Cá vamos andado!"
vitamina c
a cada instante um ribombar de um trovão
dressage
Suspenso, estende-se sobre nós um céu estival delicadamente pontilhado por estrelas. Uma agradável aragem sustém os ânimos daqueles que esperam o início do evento. Numa grande varanda, num dos primeiros andares do largo hotel, misturam-se o perfume das veraneantes e o cloro da piscina. Lá em baixo, os grandes holofotes, dispostos ordenadamente, iluminam os relvados com os seus focos quentes e amarelos, revelando os vários enxames de mosquitos que levam as senhoras a cobrir os ombros com as suas elegantes écharpes.
O espaço destinado ao espectáculo compreende o court de ténis, adaptado à recepção da orquestra sinfónica, e o picadeiro, onde surgem diversos cavaleiros júnior acompanhados pelos seus póneis de crinas resplandecentes.
Numa mescla de conversas, risos e de sons característicos da afinação dos instrumentos, uma cavaleira, pouco calma, reúne todas as atenções ao desafiar violentamente o pequeno animal que, demasiado assustado com o barulho circundante, insiste em manter-se parado na arena.
O spalla chama o maestro que não demora em aparecer exibindo um fato negro impecável. É recebido com aplausos clamorosos aos quais se seguem alguns segundos de silêncio dedicados à concentração do regente.
Inicia-se a peça com um descontraído pizzicato.
Os cavaleiros conduzem os animais numa dança celestial de destros piaffes e passages. O pónei assustado permanece nervosamente imóvel, hirsuto, manifestando no seu triste olhar uma profunda estranheza. A cavaleira e o seu vaidoso orgulho desencadeiam uma lastimável cena na pista, uma nota dissonante na música. Furiosa, voa da sela e, com o apoio de muitos espectadores, lança odiosos insultos e agressões ao pequeno pónei. Uma voz feminina afirma: “Minha querida, rédea curta senão ele faz-te passar vergonhas.”
Clara indigna-se e observa a multidão empoleirada sobre o picadeiro vociferando gritos de guerra, incentivando aquele lamentável comportamento. Olha o pónei, “Ele nunca poderá dedicar-se à música, dançando, enquanto conviver com a severa postura da sua cavaleira.”, pensa.
A orquestra, alheia à agitação, acelera o passo num intenso frenesim de sons que serve de banda sonora à batalha empertigada da cavaleira. Ninguém atenta a música.
De súbito, as vozes da multidão calam-se perante uma nuvem confusa de uivos e latidos. Os olhares dirigem para as sebes que delineiam o espaço hoteleiro. Por de traz do alinhamento dos arbustos impecavelmente podados irrompe uma matilha desordeira, exaltada com a música. Surgem mais de trinta cães que encerram diversas formas, feitios e cores. O espanto ouve-se por entre a multidão. Enquanto os canídeos avançavam em direcção à orquestra, invadindo o picadeiro, remexendo a piscina, os cavaleiros suspendem a demonstração de maneira a proteger os póneis da aparição inesperada.
Os músicos, absortos, continuaram inabalavelmente a tocar a peça.
Na varanda, a multidão inquieta critica a organização do evento pela interrupção abrupta. Gesticula, grita, empurra. Algumas pessoas escapam-se para o interior do hotel, receando um tumulto. Muitas solicitam, junto à recepção, a devolução do dinheiro do bilhete.
O pónei assustado tem agora a rédea solta. Com o susto do assalto libertou-se da companheira e galopa feliz, desenhando círculos pelo picadeiro na companhia de um pequeno grupo de cães. Após várias fintas àqueles que o pretendem demover da sua intenção de fuga, salta a vedação de madeira e corre velozmente para a praia. Clara sorri assistindo à sua bravura.
Os músicos, sem nunca suspenderem a peça, riem-se entre si em tom de cumplicidade.
Clara ouve o desagrado de uma idosa: “Fui bailarina em nova. Entre tantos espectáculos em que participei nunca nenhum foi tão desastroso como este onde estamos. Preciso de sair daqui!” À conversa juntam-se mais uns quantos indignados que desaprovam o destino do evento. As vozes estridentes e a forma atropelada como conversavam fazem Clara afastar-se, encostando-se à guarda da varanda. Espantada, observa a matilha que segue, à beira-mar, uma enérgica corrida comandada pelo pónei.
– Que confusão que isto me faz! – confessa a bailarina.
– Foi dinheiro atirado à rua! É raro ouvir esta peça ao vivo e com esta pouca-vergonha mal consegui escutar um acorde!
– Senhores, senhores, aproximem-se. Vejam na praia a felicidade daqueles animais. Reparem como se movimentam ao som da orquestra numa dança tão genuína.
De rostos desconfiados, chegam-se junto de Clara, reclinando-se na balaustrada. Atentos, não falam por minutos. A rapariga vê despertar nos olhos da bailarina um brilho jovial e encontra os restantes imersos na música, entregando os corpos à sua fruição.
– Uma dança sem coreografia é a dança da liberdade. – exprime a bailarina emocionada.
Lá em baixo uma voz insolente interrompeu a contemplação. A cavaleira pendurada num poste da vedação chama pelo pónei.
– Valquíria! Valquíria!
até já!
É delicado o fio que mantém o seu corpo presente aos nossos olhos. A sua extrema magreza, os ombros desnudos na bata do hospital, o emaranhado de cabelo mal arranjado, a pele, os olhos, a ausência do seu perfume. Tudo me coloca à prova na pequena sala dos cuidados intensivos de cardiologia.
Há vinte e oito anos nasci naquele mesmo austero edifício, num qualquer bloco vizinho. Talvez me tenha vindo visitar, chegando pela manhã da vila dos meus verões. Talvez me tenha conhecido nessa mesma tarde, desconhecendo que ali, num qualquer bloco vizinho, anos mais tarde, me iria oferecer uma exigente prova de esforço.
Sei que tudo aquilo que ela é atravessa a complexa rede de tubos, aparelhos e silvos electrónicos. Ela é memória, é a tia a quem devo estar ali.
Entro na sala sustendo uma encorajadora respiração. Não me permito acossar diante do seu hostil vislumbre e tento manter a sua mão firmemente fechada dentro da minha, sem denunciar o meu tiritar ou uma gota de suor. Procuro rapidamente qualquer palavra, não a certa, mas a oportuna. Ela reage e as máquinas comprovam o sobressalto do seu coração. Escapa-me a voz e apercebo-me dos amargos silêncios que interrompem o tremor da minha fala.
E à despedida, depois das heróicas lágrimas sustidas, escapa-me um imprevisto “Até já!” que não consigo resolver. Saio da sala.
Atormenta-me ainda essa expressão.
discreta calidez
assalto à mão armada
O frio gume da faca assustada contrai a pele. Imagino os pulmões engasgados e o tremor que provocará o inevitável golpe.
Oiço o coração, apreensivo, imerso em dor, vociferar o seu incómodo. Um zumbido surdo lateja, pungente, abafando o som ambiente.
ídolo Quietude
em tom ofegante
território e carcaças
Seca, pancada viril.
Não tarda a inflamação; os vasos sanguíneos, agora mais permeáveis, facilitam a chegada das células de defesa ao local golpeado.
Lateja, febril, o agudo edema daquele que foi capturado.
Como na maré baixa, ou numa grande vaga, o sangue recua do coração alterando, impetuosamente, o nível do sangue nas veias devido ao aumento da pressão na zona golpeada. Desengano, inquietação causada por um corpo sobre o nosso centro gravítico.
Os felinos atacam as presas rasgando instintivamente o seu abdómen. Intestinos, estômago, pâncreas; o centro proteico da presa. Um ataque directo, instintivo, ao nosso centro vital.
Assim quedamos esventrados, surpresos, perpetuando, olhos nos olhos, a flagrante imagem da nossa própria existência.
este meu azul porcelana
collegial girls
recantos
Procuro um táxi por entre lugares onde outrora habitaram alguns dos meus dias. Experimentando a sua intensidade, o seu deslumbramento e assombro, embato em ecos latentes da minha memória.
Espreito o Sacramento à Alcântara, distingo as árvores do Jardim da Armada. Naqueles bancos, pintados de verde, conversei, pela primeira vez, com um grande amigo da faculdade; fazíamos então, demasiado desengonçado, o nosso primeiro levantamento. Número do edifício; ano de construção; estado de conservação; cércea; número de fogos por piso e actividades inerentes a cada; cobertura; materiais de revestimento; elementos dissonantes. Desenhávamos os alçados.
O sol, na Infante Santo, vence, por instantes, o céu chuvoso. Recordo-me dos sábados de Feira da Ladra onde a luz da cidade, majestosa pela manhã, se refinava sobre as superfícies molhadas. As árvores, o asfalto e as pedras brancas de calcário fraccionam a trajectória dos raios solares. Reflexões. O brilho da cidade é adoçado.
Perto da casa que não aluguei encontro um táxi. Terá esta rua sentido, quando a percorri desvigorada, a mágoa bruta que eu teimava esconder de mim? Aquela mágoa bruta que escalda e se derrama por alguém quando este sente desistirem de si.
O motorista avança, “A menina prefere ir pelas Janelas Verdes ou voltar ao Rato?”. “Pelas Janelas Verdes, o Rato vejo-o todos os dias.”
A luz reflectida nas poças da calçada, água espelhada que dissipa o céu, invade cada canto, cada recanto da minha cidade. Em cada um dos seus cantos, dos seus mil recantos, resistem, triunfais, incontáveis, inarráveis, recordações de quem por ali passou. Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias, vultos errantes que emergem despidos ao calor do nosso toque.
Calçada da Pampulha. Rua Presidente Arriaga. O sol aquece o assento do táxi, sinto-me em casa nesta minha Lisboa.
Uma carrinha parada, em segunda fila, sustém o trânsito barulhento. Aqui, suspensa sobre o Jardim das Janelas Verdes, revisito o dia da visita de estudo ao museu. Recordo o cheiro de uma límpida manhã estival do meu Verão adolescente. Aconchego os óculos de sol dissimulando as lágrimas que me tentam embaraçar. Lembro-me dele, da sua mania, insistente, em enrolar a barba com os dedos. Fazes-me falta, amigo.
Olho o edifício do Museu de Arte Antiga. Flash! À minha frente é disparado um clarão demasiado branco, demasiado violento. Dói-me a vista. A garganta aperta-se desconsolada, não resisto e choro. No largo, entre a Rua do Conde e a Rua do Olival, aquele que acolhe a saída do museu, chorei, uma tarde, desapontada por mais um desencontro daquele amor. O percurso da exposição, levou-o indiferente, revelou-me a divergência que encerrávamos. Desinteresse, desamparo, constante desacordo. Reencontrámo-nos na calçada, em passos distintos. Somou-se uma ferida à pele fragilizada.
Mais à frente cai o pano e desfilam as memórias mais doces, abraçando-me como só tu o fazes. Lembras-te, amor, quando, apesar do cansaço do final de um dia, caminhámos e caminhámos para aquela inauguração, tarumbando e tarumbando, hesitando os bilhetes que escondiam, não os nossos, mas os nomes de outros? O rosé, o Queijo da Serra, Shakespeare em marionetas de fios e a ânsia da tua companhia para o jantar, para adormecer. Ao meu lado, a
O semáforo vagaroso permite ao motorista irromper conversa. Lisboeta nascido e criado, surpreende-se com a história que conto sobre o Palácio de São Bento, antigo mosteiro Benedito, São Bento da Saúde, destruído pelo terramoto e pela Revolução Liberal, torna-se Parlamento às mãos do arquitecto Possidónio da Silva, que o adapta às novas exigências. Todavia, um incêndio nos finais do século XIX leva o arquitecto Ventura Terra desenhar o actual edifício neoclássico, este meu novo vizinho.
“É arquitecta, a menina?”. “ Por vezes!”.
O edifício amarelo das janelas azul-turquesa olha-me espantado com as suas voltas e reviravoltas em ferro forjado. “Hoje vens de táxi?!” .
4euros. Saio sozinha, contigo do táxi. No assento vazio do carro, partilhaste comigo toda a viagem. Conto, sussurrando na frequência que apenas nós captamos, tudo aquilo que por ali vivi. Dou-te a mão, abro a porta, entramos na loja.
Já te telefono, amor.
amores de companhia
mendiga
Morou, em tempos, nas mais ermas ruas desta cidade. Intempéries, fome, doenças. Trémula, a sem-abrigo permanecia obediente à intensidade da chuva, ao ribombar indiferente das noite ao frio. Dócil fragilidade desprotegida, demorou-se, grosseiramente, sob o extremo rigor das tempestades invernais.
Agarra-se agora à garganta inflamada, arranhada pelos contínuos gritos desse seu desamparo. Sentir-se-á refém do turbilhão que remoinha pela sua cabeça à força do vento bruto, outrora parede da sua casa na rua, ou antes cativa daqueles que, por desprezo, a sua pele golpearam até sangrar?
O sangue, expulso, mal coagulado, tem-lhe vindo a marcar, por vezes, a expressão dos olhos, fazendo-a cambalear quando se ergue pela manhã. Testemunhas dos maus-tratos, os hematomas da sua desprotecção brotam frequentemente sob o fino algodão da sua roupa. Despontam vivos, em tons púrpura, perante a recordação do seu mais brando abandono.
Memória recente, hipersensível. Acredito que retém ainda desses dias a mágoa de ter pedido, como por esmola, alguma atenção.
ao cair da vigília
Inspiras, expiras.
Orquestras a mais apurada das peças e, ao seu sereno compasso, adormeço.
o homem que perdeu a Palavra
Conheci um homem que perdeu a Palavra, privei com ele em demorados serões e animados jantares. Na verdade, este homem é um tipo singular, não pelas melhores razões que a singularidade encerra, mas porque a sua insana incoerência assim o tornam, num homem singular.
Determinado dia, ao percorrer uma vereda sinuosa e acidentada, desequilibrou-se e estendeu o braço para se apoiar. Subitamente, ao abrir a mão, perdeu a sua Palavra. Na verdade, o Homem Sem Palavra sempre fora descuidado, não cerrando as mãos com a força necessária para a abrigar. Já a tinha perdido, inclusivamente, em diversas ocasiões, mas desta a perda fora irreparável.
Outrora dormira com a Palavra junto ao peito, segredava-lhe doces ternuras, estimava-a olhos nos olhos, acarinhando-a com promessas de amor e lealdade.
O Homem que perdeu a Palavra tornou-se, nesse dia, um corpo desagregado, tremendo, como se fora de frio, do receio de se comprometer, de emitir juízos, de exprimir opiniões. Viu, nas mais bem intencionadas promessas e valores que anteriormente defendia cair a mais espessa das nódoas. Mas nada pôde fazer, faltava-lhe a Palavra.
Frequentemente observamo-lo em alerta, tenso, de pé atrás do outro caso urja fugir. Para contornar a sua falta, este homem, recorre constantemente a actos levianos e imponderados. É cobarde e dúbio por não defender com garra a Palavra que perdeu.
Lamento.
o que senti em ti é agora certeza
O tempo ensaia, por vezes inseguro, incrédulo, de mãos cerradas cobre os olhos, sente o que sente ser delírio, um engano.
O presente somente pressente o que o vagar do tempo trará. Descerra desmedidamente um olhar milimétrico, evidente e confirma o presságio.
a menina dos seus olhos
Em tempos, o avô-contador-de-histórias viveu com uma menina, morou com ela. Era sua neta, a menina dos seus olhos. Brincavam, riam às gargalhadas até doer a barriga, ensinava-lhe ditados, as letras, os números, a tabuada, contava-lhe anedotas, lengalengas, histórias cheias das mais incríveis aventuras, onde voava em balões de ar quente, combatia dragões, nadava no fundo do mar, à procura de tesouros afundados, viajava ao centro da terra, ao outro lado da lua e para lá da nossa galáxia.
Juntos, ele regressava às memórias da infância, momentos que achava perdidos. Um tempo em que nada lhe cansava a curiosidade. Quando o tempo não tinha tempo.
Os dias eram um agora para sempre, esticados desde a primeira luzinha da manhã ao último raio de luar. Piratas, gnomos, monstros, fadas, espelhos mágicos, sereias, bruxas, árvores tagarelas, todas as ideias cabiam na algibeira da imaginação.
Porém, um dia a netinha, mais crescida, mudou-se para uma casa maior, muito, muito longe da casa do avô. Este, por instantes, sentiu-se desanimado, mas depois lembrou-se de que para ver a menina dos seus olhos, apenas teria de os fechar.
Com ela, de mãos dadas, cansados de brincadeira e patetices, era criança outra vez.


