Equinócio
O útero pulsa segundo o coração do peito, intuitivo como o farejar de um lobo em lua negra. Ecos de uma suave brisa na água. O ribombar de um tambor por perto.
O berço de amora e marfim veste-se para o Outono com o cheiro do chá de romã e espera.
Respira o tempo.
As sementes amadurecidas não se esqueceram jamais de esperar a Primavera e as longas raízes das árvores permanecerão demoradas no odor fértil da terra.
energia eólica
[a colourful day keeps the doctor away]
Exorcício
: rua afonso lopes vieira, nº 7 ( poeta)
ignorante do que o futuro me reservava,
sem pensar em poe, transpunha, para dentro
e para fora, os umbrais da minha morada,
que hoje tento cristalizar num verso
hipstamático, fazendo uso de uma mentira
inovadora para parecer velho e venerável,
subitamente passando exclusivamente a conjugar
a vida, no passado perfeito, imperfeito, simples e condicional.
até trocar de residência, o nome do poeta
todo o santo e ímpio dia, sobranceiro à minha mochila
da primária, como um farol, um conselho, uma esperança,
uma ameaça, uma sombra, uma cruz.
Donde, para ser-se poeta, basta uma saudade.
cheia de lágrimas. os olhos radicados no vermelho escuro
da memória, como, em versos de sophia, são aqueles
de quem os abre debaixo de água,
procurando vestígios de sangue ou
substâncias da mesma família nas
profunduras mais gratas
rua afonso lopes vieira, n.º 7 ( poeta)
Sou poeta?
Que acheis? Ter-me-ei cumprido
ou fugido a sete pés da sina como se esta
personificasse um perseguidor assassino?
aquele céu mesclado de nódoas

Setembro de 2011 | Aguarela e colagem
Numa tarde de nuvens altas e bem definidas, eu e o Bruno olhávamos o céu. Num comentário, trocou a palavra "nuvens" por "nódoas". Achei curioso e tive que registar.
isn't that why I love you so very much?
insónia
este poema diz muito a ele
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Mário Dionísio
este poema diz-me muito
Complicação
As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.
Mário Dionísio
troca de olhares
Desde a hora em que te vi
São as falas do meu peito
Que morre de amor por ti!
Quantos olhares são trocados
Em segredos envolvidos!
Sinais mudos, bem falados,
Por quem são compreendidos!
Não é preciso falar
Havendo combinações
Porque a troca do olhar
É a voz dos corações!
em tom ofegante
recantos
Procuro um táxi por entre lugares onde outrora habitaram alguns dos meus dias. Experimentando a sua intensidade, o seu deslumbramento e assombro, embato em ecos latentes da minha memória.
Espreito o Sacramento à Alcântara, distingo as árvores do Jardim da Armada. Naqueles bancos, pintados de verde, conversei, pela primeira vez, com um grande amigo da faculdade; fazíamos então, demasiado desengonçado, o nosso primeiro levantamento. Número do edifício; ano de construção; estado de conservação; cércea; número de fogos por piso e actividades inerentes a cada; cobertura; materiais de revestimento; elementos dissonantes. Desenhávamos os alçados.
O sol, na Infante Santo, vence, por instantes, o céu chuvoso. Recordo-me dos sábados de Feira da Ladra onde a luz da cidade, majestosa pela manhã, se refinava sobre as superfícies molhadas. As árvores, o asfalto e as pedras brancas de calcário fraccionam a trajectória dos raios solares. Reflexões. O brilho da cidade é adoçado.
Perto da casa que não aluguei encontro um táxi. Terá esta rua sentido, quando a percorri desvigorada, a mágoa bruta que eu teimava esconder de mim? Aquela mágoa bruta que escalda e se derrama por alguém quando este sente desistirem de si.
O motorista avança, “A menina prefere ir pelas Janelas Verdes ou voltar ao Rato?”. “Pelas Janelas Verdes, o Rato vejo-o todos os dias.”
A luz reflectida nas poças da calçada, água espelhada que dissipa o céu, invade cada canto, cada recanto da minha cidade. Em cada um dos seus cantos, dos seus mil recantos, resistem, triunfais, incontáveis, inarráveis, recordações de quem por ali passou. Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias, vultos errantes que emergem despidos ao calor do nosso toque.
Calçada da Pampulha. Rua Presidente Arriaga. O sol aquece o assento do táxi, sinto-me em casa nesta minha Lisboa.
Uma carrinha parada, em segunda fila, sustém o trânsito barulhento. Aqui, suspensa sobre o Jardim das Janelas Verdes, revisito o dia da visita de estudo ao museu. Recordo o cheiro de uma límpida manhã estival do meu Verão adolescente. Aconchego os óculos de sol dissimulando as lágrimas que me tentam embaraçar. Lembro-me dele, da sua mania, insistente, em enrolar a barba com os dedos. Fazes-me falta, amigo.
Olho o edifício do Museu de Arte Antiga. Flash! À minha frente é disparado um clarão demasiado branco, demasiado violento. Dói-me a vista. A garganta aperta-se desconsolada, não resisto e choro. No largo, entre a Rua do Conde e a Rua do Olival, aquele que acolhe a saída do museu, chorei, uma tarde, desapontada por mais um desencontro daquele amor. O percurso da exposição, levou-o indiferente, revelou-me a divergência que encerrávamos. Desinteresse, desamparo, constante desacordo. Reencontrámo-nos na calçada, em passos distintos. Somou-se uma ferida à pele fragilizada.
Mais à frente cai o pano e desfilam as memórias mais doces, abraçando-me como só tu o fazes. Lembras-te, amor, quando, apesar do cansaço do final de um dia, caminhámos e caminhámos para aquela inauguração, tarumbando e tarumbando, hesitando os bilhetes que escondiam, não os nossos, mas os nomes de outros? O rosé, o Queijo da Serra, Shakespeare em marionetas de fios e a ânsia da tua companhia para o jantar, para adormecer. Ao meu lado, a
O semáforo vagaroso permite ao motorista irromper conversa. Lisboeta nascido e criado, surpreende-se com a história que conto sobre o Palácio de São Bento, antigo mosteiro Benedito, São Bento da Saúde, destruído pelo terramoto e pela Revolução Liberal, torna-se Parlamento às mãos do arquitecto Possidónio da Silva, que o adapta às novas exigências. Todavia, um incêndio nos finais do século XIX leva o arquitecto Ventura Terra desenhar o actual edifício neoclássico, este meu novo vizinho.
“É arquitecta, a menina?”. “ Por vezes!”.
O edifício amarelo das janelas azul-turquesa olha-me espantado com as suas voltas e reviravoltas em ferro forjado. “Hoje vens de táxi?!” .
4euros. Saio sozinha, contigo do táxi. No assento vazio do carro, partilhaste comigo toda a viagem. Conto, sussurrando na frequência que apenas nós captamos, tudo aquilo que por ali vivi. Dou-te a mão, abro a porta, entramos na loja.
Já te telefono, amor.
ao cair da vigília
Inspiras, expiras.
Orquestras a mais apurada das peças e, ao seu sereno compasso, adormeço.
crime passional
memória
{azul- laranja}
A Terra é Azul
A terra é azul como uma laranja
Jamais um erro as palavras não mentem
Elas não lhe dão mais para cantar
Na volta dos beijos para se entender
Os loucos e os amores
Ela sua boca de aliança
Todos os segredos todos os sorrisos
E que roupagens de indulgência
Para acreditá-la inteiramente nua
As vespas florescem verde
A aurora se enrola no pescoço
Um colar de janelas
Asas cobrem as folhas
Você tem todas as alegrias solares
Todo o sol sobre a terra
Sobre os caminhos da sua beleza
Paul Éluard


