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a menina dos seus olhos


Em tempos, o avô-contador-de-histórias viveu com uma menina, morou com ela. Era sua neta, a menina dos seus olhos. Brincavam, riam às gargalhadas até doer a barriga, ensinava-lhe ditados, as letras, os números, a tabuada, contava-lhe anedotas, lengalengas, histórias cheias das mais incríveis aventuras, onde voava em balões de ar quente, combatia dragões, nadava no fundo do mar, à procura de tesouros afundados, viajava ao centro da terra, ao outro lado da lua e para lá da nossa galáxia.

Juntos, ele regressava às memórias da infância, momentos que achava perdidos. Um tempo em que nada lhe cansava a curiosidade. Quando o tempo não tinha tempo.

Os dias eram um agora para sempre, esticados desde a primeira luzinha da manhã ao último raio de luar. Piratas, gnomos, monstros, fadas, espelhos mágicos, sereias, bruxas, árvores tagarelas, todas as ideias cabiam na algibeira da imaginação.

Porém, um dia a netinha, mais crescida, mudou-se para uma casa maior, muito, muito longe da casa do avô. Este, por instantes, sentiu-se desanimado, mas depois lembrou-se de que para ver a menina dos seus olhos, apenas teria de os fechar.

Com ela, de mãos dadas, cansados de brincadeira e patetices, era criança outra vez.

Bruno Sousa Villar

curiosidade com corda


Certa manhã, um menino curioso, vestiu a camisola do tempo, deu corda ao relógio de ponteiros pontiagudos e saiu à rua à boleia do vento.
Atravessou praças e largos, desviou-se de becos escuros e procurou em todas as montras algo mais que medisse com precisão a passagem do tempo. Tempo que sentia passar por si como um sopro de ar, fugaz, esguio.
Encontrou uma ampulheta e com ela foi ao outro lado da cidade, aquele que fica para lá do rio e do castelo. Pairou sobre os quarteirões da zona antiga, espreitou as casas, os museus, os palácios, as estátuas.
Olhou a ampulheta e sentiu um calafrio. Verificou no relógio que as horas passavam a correr, sem dar tréguas à sua curiosidade em conhecer todos os recantos, sentir todas as cores e texturas da cidade. Deu-se conta, dolorosamente, do tempo à sua frente à medida que via a sua pequena sombra crescer lá em baixo na calçada. Desejava aproveitar todos os segundos da sua breve viagem. Temia não o conseguir.
Começou a flutuar delicadamente por cima dos telhados, afastando-se com cuidado das antenas de televisão, dos ninhos de pássaros, das chaminés fumegantes.
Percorreu de novo as ruas, atravessou praças e largos, desviou-se de becos agora ainda mais escuros.
Fez-se noite, uma noite fria.
Encantado, contemplou de saída, à velocidade do vento, a cidade iluminada. Sorrindo sentiu a geada cair sobre os espantalhos dos campos semeados, os pomares coloridos, os caminhos-de-ferro.
E, aceitando o tempo, realizado e feliz, o menino-bolha-de-sabão dissipa-se no ar, rumo às montanhas.

Cristina Ruivo

mundos de algibeira

Os meninos de bolso vivem resguardados num pequenino mundo paralelo em forma de algibeira, daquelas onde, prudentes, transportamos as coisas mais valiosas .
Estes meninos não querem crescer, como os adultos cheios de tiques e tremeliques, para não perderem a vontade de sonhar, imaginar, rir, criar, conhecer, espreitar, explorar, arriscar.
Então fugiram para um bolso de um camiseiro de um avô-contador-de-histórias, esquecido num guarda-fatos tão antigo cujas portas já chiavam.
Fundaram uma comunidade secreta de contos, gargalhadas e brincadeiras.
Com o passar do tempo foram aparecendo meninos de terras distantes, com malas, animais de estimação e frutas predilectas, tamanhos, feitios, cores e peculiares formas de olhar o mundo.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar