o meu gineceu


Vivi uma infância matriarcal, acalentada não só pelas minhas avós, como por outras mulheres da família cuja ternura e dedicação eram, sem qualquer distinção, igualmente de segundas-mães. Tornei-me mulher. Uma (ainda pequenina) mulher amadurecida ao sol de cada personalidade, de cada vontade e credo, por cada uma daquelas cinco vidas.


A primeira a falecer não me surpreendeu dada a condição de saúde. Despedi-me dela, semanas antes, com fortes apertos nas já muito frágeis mãos. Lembro-me de, ao sair da salinha, voltar-me para fixar o seu rosto. Um rosto que não o dela. Fui de férias. Morreu-me a 600 Km.
Há uns meses voltei a perder uma dessas mulheres. Dessa vez, sussurrou-me um aviso que fingi não ter percebido bem. Apesar de tudo, despedi-me, no hospital, com um soluçado "Até já!" que golpeou-me o peito semanas a fio. As manhãs na praia, as suas amigas na esplanadas, o corneto de chocolate, o cheiro da praça, o Senhor das Chagas, o pão do , a sopa de peixe, "a minha menina". Faz-me falta aquela Sesimbra.
O primeiro dia de 2012 chegou marcado por mais uma perda no meu gineceu. Depois de uma noite pouco dormida e com uma dor de estômago herdada do excesso de comida e álcool, deparei-me com a morte daquela a quem não me cheguei a despedir. Confesso, era uma mulher de uma bravura tão peculiar que sempre a julguei imortal. Vê-la imóvel e transparente numa enregelada capelinha, afligiu-me bastante.
Só ontem entrei no seu luto e percebi que poderei não ter oportunidade para me despedir das velhinhas que me restam. Por que razão sentirei tamanha necessidade em fixar um último momento e dizer-lhes um derradeiro adeus? 
Temo bastante que estas mortes tenham sido um estágio, um alerta, para a possibilidade da perda das minhas avós biológicas.


Passo frequentemente por este painel de Almada Negreiros na estação de metro do Saldanha. Hoje, depois de escrever este texto, lembrei-me destas mulheres e da sua intimidade. Como a imagem persistia em cada pestanejar, apesar das horas avançadas, desviei caminho para as ver e fotografar. Não posso deixar de referir que, apesar de por toda a estação os mais atentos conseguirem identificar sinais do Almada, lamento não ser referido junto ao painel o autor, o ano e o título da obra.


Já na gare, pronta para retomar viagem, tropecei noutra de Negreiros: "As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca se acabam". Talvez esta frase apazigúe o meu medo em deixar por dizer um último adeus a alguém.


As filhas de Antígona



PÚBLICO - Ípsilon | 30 de Dezembro de 2011 | pgs. 16-18

Na passada sexta-feira, dia 30 de Dezembro, no suplemento cultural Ípsilon do jornal PÚBLICO, o artigo de Raquel Ribeiro, dedicado ao livro "Antigone's Daughters?" , contou com uma ilustração da minha autoria. 

Depois de atravessar diversos períodos em que a minha cabeça teimava em impugnar as minhas escolhas profissionais, este foi o desafio que eu precisava. Chegou no momento exacto. Perfeito! Quando pairavam mil abutres sobre a minha extrema insegurança ...puf! ... Um reconhecimento!

Apesar do medo de falhar me paralisar constantemente, os escassos dias que tive para terminar a ilustração foram bastante produtivos e criativos. Dado o pouco tempo que dispunha, fui obrigada a experimentar técnicas que tinha apenas em agenda e vi-me forçada a tomar decisões rápidas e assertivas,  o que para alguém inseguro e perfeccionista constitui, por si, uma provocação não só intelectual como, sobretudo, emocional. 

Trabalho terminado e orgulhosa de jornal na mão, jurei não largar o meu projecto. Neste final de ano foi-me provado que o meu azul.porcelana veio para ficar.  



a Antígona em curso



os ciúmes do papel...


...e finalmente, na capa, pronta a entregar.

esse jovial em cor de rosa




Em frente ao Chafariz da Esperança mora o meu prédio favorito desta avenida. Ali, (sobre)vive uma loja de malhas encantadora, fundada em 1967, que teima em "voltar já" sempre que passo. Como temo que não voltem há já algum tempo, terei de visitar a loja Juvenil num outro horário.


Havia um Menino





Há um meses foi-me encomendada a ilustração do poema "Havia um Menino", de Fernando Pessoa (que podem lê-lo aqui), para o quarto de um pequenote cujo apelido é Caracol.

O poema conta-nos a história de um menino que, cheio de cócegas na cabeça, julgava ter um caracol dentro do seu chapéu. Incomodado, correu para casa cheio de vontade de se livrar do bicho intrometido ..contudo o caracol era apenas caracol do seu cabelo.

"Havia um Menino" sempre a correr




A correr, escolheram-se molduras.
A correr, quatro desenhos terminados numa noite. 
A correr, emoldurados de manhã na loja. 
A correr, seguiram viagem para Estremoz!

O desafio

O projecto azul.porcelana atelier tem vindo a conquistar valentes batalhas e, há cerca de uma semana, recebeu o seu maior desafio.

Nesta próxima sexta-feira (dia 30 de Dezembro), no suplemento cultural Ípsilon do jornal PÚBLICO, aparecerá um artigo dedicado ao livro "Antigone's Daughters? Gender, genealogy and the politics of authorship in 20th century portuguese women's writing" que contará com uma ilustração da minha autoria. Adoraria que a vissem e revissem, e que me enviassem as vossas reacções. 
Mais tarde, partilharei o processo de produção e o resultado final.

Então, não esquecer: PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, COMPRAR O PÚBLICO!! 



"Havia um Menino" por fazer


Bem-vindas encomendas! Este ano o azul.porcelana recebeu as suas primeiras encomendas de Natal. Ainda tenho todas em esquisso e acabei de receber outra...receio pela minha sobrevivência, este fim de semana.
Esta é bem especial! Vai direitinha para o quarto de um pequenino Afonso de apelido Caracol. Foi-me pedido para ilustrar o poema "Havia um Menino", de Fernando Pessoa, que nos conta a história de um menino e de um caracol... 



Havia um menino

Havia um menino,

que tinha um chapéu

para pôr na cabeça

por causa do sol.



Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
p’ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.

a colourful day keeps the doctor away



1. beija-flor via we heart it 2Meknes, Marrocos por Mike Mellinger 


A partir de hoje farei o possível para ter a rubrica "a colourful day keeps the doctor away" em dia. A recorrente procura (e colecção) por imagens que me impressionam pela cor servirá como ponto de partida a exercícios cromáticos: rítmicos, vibrantes, calmos, harmónicos, dissonantes...

Pretendo apenas brincar com as cores, como fazía em criança com as mãos esborratadas de tinta.



"Ouro sobre magenta" por azul.porcelana 

habemus papam, por pouco



Vejo “Habemus Papam” (2011) tal como numa das cenas iniciais do conclave em que se dá um corte de energia eléctrica. Sinto que faltou a Nanni Moretti energia para mergulhar as mãos nos conflitos internos de uma pessoa em crise existencial, um papa apavorado com a sua eleição. Sinto ainda que lhe escasseou as forças quando colocou o psicanalista, retido no Vaticano por razões de protocolo, frente a frente com os restantes cardeais, exposto aos seus medos e inseguranças.

Existe um psicanalista, mas não uma terapia; apenas a fuga do papa recém-eleito que se sucumbe a um momento de introspecção vagueando, anónimo, por Roma. Cidade onde conhece uma realidade que lhe fora privada, desde que desistiu do sonho de vir a ser actor. Esta fuga porém é demasiado esquiva, insuficientemente intensa e pouco traz à luz o conflito com que a personagem se depara.
Moretti faz também o filme deambular como o incógnito fumo branco da chaminé da Capela Sistina, orquestrando cenas fabulosas que são subitamente invadidas pelo mesmo apagão energético do conclave. Esta falha energética acontece não só no final do filme como, de forma mais gritante, na cena do teatro em que se encena A Gaivota, de Tchekhov. A brilhante actuação é abruptamente interrompida pela entrada na plateia de algumas figuras do clérigo e por uma injustificada ovação ao papa, anonimamente recolhido num camarote. Talvez aqui Moretti quisesse piscar o olho à “veneração pela veneração”; à veneração alucinada à qual a grandiosa manifestação de arte que habitava o palco passa despercebida.

Procurava neste filme encontrar a “tensão psicanalista” que a personagem de Moretti, um freudianno ateu, prometia. Procurava um conflito de crenças, de valores. O Criacionismo e o Evolucionismo foram timidamente abordados.

Nestas coisas da religião, gosto de fervorosos conflitos de fé e ali houve voleibol a mais para mim.