dance-makers

Depois de umas férias enubladas pelo mau tempo e pelas atrocidades que um dente do siso consegue realizar, rumámos ao Alentejo.
Ainda arrebatados pela singularidade da casa e da paisagem, somos conduzidos pelo anfitrião para uma noite de dança contemporânea. Conhecemos Bill T. Jones. Depois Akram Khan e Sidi Larbi na sublime "Zero degrees" (2005), peça que marca o encontro dos dois bailarinos como Nitin Sawhney e Antony Gormley. Pela noite dentro, segue-se o surrealismo do coreógrafo sueco Mats Ek - o Magritte da dança - com a divina Ana Laguna em "Carmen", de Bizet, (1992).


Para nos deixar a sonhar, a sessão terminou com Sylvie Guillem e Niklas Ek (irmão do Mats) em "Smoke" (1995). Podem ver aqui a peça completa.


>> repeat >>

Durante as férias dei por mim a cantarolar (e a gesticular) um refrão dos Amor Electro. Confesso, fui eu que procurei esta minha má sorte: vi o videoclip inteiro na tentativa de perceber o fenómeno. "A Máquina" promocional das grandes editoras é feroz e apanha-nos desprevenidos! Com tamanha vacuidade como poderá a música portuguesa não se detestar a ela própria?

Felizmente temos Tiago Pereira! Não podia gostar mais do seu projecto "A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria". Esta noite ouvi em repeat várias músicas, entre tantas, a divertida paródia dos Penicos de Prata, em redor de poemas de Adília Lopes, e os poderosíssimos Atma.


firmamento



Podia ser a abóbada celeste pontilhada pelas estrelas. É uma peça de cerâmica persa, bem antiga, que chegou à Cavalo de Pau. 

o som dos antepassados

Mbira, Zimbábue, na Cavalo de Pau

O mbira, também conhecido por sansa, é um idiofone tradicional africano em particular da cultura Shona, povo que habita no Zimbábue e em Moçambique. É frequentemente utilizado em rituais religiosos, recepções reais e em várias eventos sociais.

"É feito a partir de um bloco de madeira dura (Pterocarpus angolensis) onde se fixam lamelas metálicas forjadas à mão, dispostas em três teclados distintos, abrangendo três oitavas. A afinação varia; a mais comum, chamada nyamaropa aproxima-se da escala maior diatónica. A técnica de execução envolve ambos os polegares e um dedo indicador para beliscar as lamelas de metal. Para amplificar o som, o instrumento é colocado no interior de uma cabaça de grandes dimensões, equipada com soalhas que vibram por simpatia." Nuno Cristo
Na música "Mbira do Norte" dos Gaiteiros de Lisboa, escutamos o fabuloso som deste instrumento.

nenhum poeta

nenhum poeta por mais perspícuo
conseguiu alguma vez responder
definitivamente às grandes questões do humano
basta comprová-lo pelo número de bibliotecas construídas
e livros publicados
e mesmo que cada poema seja um grito de alerta
cada vez mais alto
perde-se numa teia de ecos composta pelos gritos
que o precederam, concorrem e hão-de vir

aquilo que é cor de rosa ligeiramente purpúreo



Com a folha sobrecarregada de riscos, senti necessidade de sintetizar as cores. Sob uma paleta muito suave, a cor dominante teria de ser um magenta especialmente bem timbrado, aquele que recebe o nome das flores do quintal da minha avó. Os brincos de princesa são o "cabeça de cartaz" de um de três desenhos que já deveriam estar nas mãos dos três pirilampos que adoro como se fossem sobrinhos. A culpa foi do siso!


fotografia de Rodrigo Wesz , aqui

O headphónico é um novo espaço dedicado à divulgação e crítica musical. O header é da minha autoria (o Bruno foi um do clientes mais chatinhos com quem já trabalhei! uf ... ).

Vamos ficar atentos!
"Headrush
segundo os últimos estudos científicos, a par do sexo e da cocaína, o acto de escutar música é o que envia mais dopamina ao cérebro; a hormona da boa disposição. O headphónico nasce então com essa vontade de gratificar com intenso prazer quem o acompanha. Ao contrário do que o Adolfo dos Mão Morta, berrava desesperadamente, um dealer sónico não nos rouba nem leva a alma: leva-nos a ela.
Sejam então bem-vindos a esta esquina de dopamina para o menino e para a menina- onde nunca há rusgas policiais nem nenhum consumidor morreu alguma vez de overdose."

o sangue que se move nas vozes




 amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
Herberto Helder
poema de Última Ciência, 1998