nenhum poeta

nenhum poeta por mais perspícuo
conseguiu alguma vez responder
definitivamente às grandes questões do humano
basta comprová-lo pelo número de bibliotecas construídas
e livros publicados
e mesmo que cada poema seja um grito de alerta
cada vez mais alto
perde-se numa teia de ecos composta pelos gritos
que o precederam, concorrem e hão-de vir

aquilo que é cor de rosa ligeiramente purpúreo



Com a folha sobrecarregada de riscos, senti necessidade de sintetizar as cores. Sob uma paleta muito suave, a cor dominante teria de ser um magenta especialmente bem timbrado, aquele que recebe o nome das flores do quintal da minha avó. Os brincos de princesa são o "cabeça de cartaz" de um de três desenhos que já deveriam estar nas mãos dos três pirilampos que adoro como se fossem sobrinhos. A culpa foi do siso!


fotografia de Rodrigo Wesz , aqui

O headphónico é um novo espaço dedicado à divulgação e crítica musical. O header é da minha autoria (o Bruno foi um do clientes mais chatinhos com quem já trabalhei! uf ... ).

Vamos ficar atentos!
"Headrush
segundo os últimos estudos científicos, a par do sexo e da cocaína, o acto de escutar música é o que envia mais dopamina ao cérebro; a hormona da boa disposição. O headphónico nasce então com essa vontade de gratificar com intenso prazer quem o acompanha. Ao contrário do que o Adolfo dos Mão Morta, berrava desesperadamente, um dealer sónico não nos rouba nem leva a alma: leva-nos a ela.
Sejam então bem-vindos a esta esquina de dopamina para o menino e para a menina- onde nunca há rusgas policiais nem nenhum consumidor morreu alguma vez de overdose."

o sangue que se move nas vozes




 amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
Herberto Helder
poema de Última Ciência, 1998

não só de cal são feitas as fachadas ...


... de Óbidos.

ups...

Manuel Santos Maia , "Alheava"
(fotografia de Edgar Libório)
Depois de visitarmos o projecto de Manuel Santos Maia, inserido na 4ª Edição do Junho Das Artes, tirámos uma fotografia que, sem querer, saiu assim..


campo de batalha

Dentro de dias, farão 626 anos desde que se deu, no Campo de São Jorge, a Batalha de Aljubarrota. Hoje andámos por lá, em cenário de guerra.

Implantado num edifício contíguo ao planalto onde decorreu o histórico confronto, descobrimos o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA) que, desde 2008, pretende salvaguardar e valorizar o espólio relativo a este episódio e o local onde se travou a luta. O CIBA é composto por quatro núcleos expositivos, cuja informação está exemplarmente bem tratada e apresentada, recorrendo a tecnologias raras nos espaços museológicos nacionais.
Num pequeno anfiteatro assistimos a um excelente espectáculo multimédia – “A Batalha Real” – no qual pertence o documentário “Aljubarrota” de Margarida Cardoso, produzido pela Filmes do Tejo, que recria a situação política e social que conduziram ao conflito entre o exército português e o de Castela, o momento da batalha e as estratégias e tácticas militares utilizadas por D. Nuno Álvares Pereira.

No espaço destinado à exposição dos trabalhos arqueológicos realizados desde os anos 50 existem uns expositores que, muito à CSI, explicam as causas e as armas responsáveis pelas lesões em alguns ossos encontrados numa vala comum. Brilhante!

Cá fora, segundo um percurso pedonal, equipado com simuladores de fotografias 3D e pontos com áudio descrições, somos conduzidos pelo campo de batalha, do qual fiz um desvio para fotografar um conjunto de pequeninas casas saloias abandonadas.

Vale bem a pena visitar o Campo de São Jorge e vale bem ainda a pena almoçar pela cafetaria do CIBA, onde provámos um creme de castanhas m e m o r á v e l !

feijões em lata

Na feira de artesanato de Peniche, a banca dos Feijões em Lata distingue-se de todas as outras. Metemos conversa com o Ricardo que, ao explicar o conceito deste projecto, tirou de uma gavetinha vários conjuntos de crachás da Edição de Luxo, peças únicas que surgem de recortes em papel. Não resisti e trouxe dois conjuntos muito azul porcelana.


O Bruno foi convidado a fazer um crachá de raiz , escolheu uma frase misantropa e pôs mãos à obra.


Dêem uma espreitadela ao trabalho deles , aqui.

um filme sem mim

Há algum tempo que me tenho vindo a cruzar com este filme. Há dois anos, mudança-traz-mudança, vivi um intenso período onde senti perder o controlo de tudo aquilo que julgava constituir a minha identidade e tive necessariamente que me repensar (quem acredita diz que foi o meu Retorno de Saturno). Foi nesse contexto que vi, pela primeira vez, o trailer não oficial - a cena de abertura do filme - de "A Minha Vida Sem Mim" (2003), filme espanhol e canadiano, realizado por Isabel Coixet. Aquelas palavras não podiam ter feito mais sentido e tornei-o uma das mascote da minha mutação sem nunca ter chegado a ver o filme.


"Esta eres tú. Los ojos cerrados, bajo la lluvia. Nunca imaginaste que harías algo así. Nunca te habías visto como... no sé cómo describirlo... como una de esas personas a las que les gusta la Luna, o que pasan horas contemplando el mar, o una puesta de Sol. Seguro que sabes de qué gente estoy hablando. O tal vez no. Da igual, a ti te gusta estar así. Desafiando el frío, sintiendo cómo el agua empapa tu camiseta y te moja la piel, y notar cómo la tierra se vuelve mullida bajo tus pies, y el olor, y el sonido de la lluvia al golpear las hojas... Todas esas cosas que dicen los libros que no has leído. Esta eres tú. ¿Quién lo iba a decir? Tú..."

Vi-o finalmente esta semana. As premissas prometiam: uma jovem confrontada com a sua morte anunciada revê a sua forma de estar no mundo. Depois desse trailer esperava uma história bem mais estruturada com momentos de maior reflexão sobre a condição humana e a omnipresença da morte na vida de alguém, mas o filme caiu na sua própria armadilha e todas as premissas prometedoras lançadas tornaram-se insuportavelmente desagregadas. Diante da sua morte, Ann (Sarah Polley) escreve uma pequena lista que sintetiza todos os sonhos e fantasias adiados por uma maternidade prematura. Foi aqui que senti que o que me foi "prometido" não tem qualquer intensidade e a narrativa cai num desfile de chavões adolescentes. Os desejos constantes na lista deixam de ser criveis face à leviandade e celeridade com que se realizam e pouco vemos da auto-reflexão que o trailer parecia querer sugerir.
À parte das minhas expectativas frustradas ficam os excelentes diálogos com o médico tímido (Julian Richings), a banda sonora e a fotografia de Jean-Claude Larrieu.

Depois do que significou, a cena inicial para mim será o filme. Vou fingir que "A Minha Vida Sem Mim" é uma curta metragem de 1 minuto e 40 segundos, em que uma rapariga de pés descalços se redescobre à chuva.


"Try your wings" de Blossom Dearie é um dos maravilhoso temas da banda sonora.

(Por entre várias incongruências há uma que não entendo definitivamente e que considero um erro colossal no filme: Ann e Don são canadianos e, pela sua história, percebemos que viajar para a Europa em 1994 seria impraticável. Como terá sido então possível os dois conhecerem-se no último concerto dos Nirvana quando este se realizou em Munique, na Alemanha? )

¿cómo se hace para vivir una vida llena de nada?

Desde os regalos asiáticos (este e este) que sentia saudades de um filme assim.
Numa sessão integrada na Feira do Livro de Peniche, que quis prestar homenagem ao escritor argentino Eduardo Sacheri, encontrámos, numa sala pequenina e muito fria, "O Segredo dos Seus Olhos", baseado na sua obra "La pregunta de sus ojos".

Premiado com o Óscar de "Melhor Filme Estrangeiro" na edição de 2009, recorda-nos tanto o suspense de Hitchcock, como o imaginário noir, cinema influenciado por uma nova corrente na literatura policial onde era concedido um novo papel ao detective que aparecia ainda formando uma dupla amorosa com uma maravilhosa femme fatale. Como neste período, também no filme o crime serve de alçapão a diversas peripécias e reflexões das personagens. Reflexões que, aqui, trazem à luz não só o clima político da Argentina dos anos 70, a corrupção e a justiça, como o sentido da amizade, do amor e da paixão, bem como do arrependimento e da vingança.

Benjamin Esposito, um agente judicial recém-reformado, interpretado brilhantemente por Ricardo Darín, sente viver uma vida perdida e decide finalmente dar o nó às pontas soltas do seu passado. Inicia a escrita de um romance que o faz regressar cerca de trinta anos atrás, a um caso criminal que ainda o perturba. À medida que mergulha nos contornos nebulosos desse assassinato, Esposito investiga igualmente o seu passado, sobretudo o amor que deixou escapar por Irene (Soledad Villamil). Se neste regresso encontra portas abertas que alterarão o seu futuro, toca em outras que se preferiram fechar e que lhe relembram que o passado é agora imutável: "Não pense mais, senão terá mil passados e nenhum futuro. Terá só lembranças." .

No final percebemos, o segredo encerrado em cada olhar é a paixão que cada homem esconde.