Wanda Kujacz, "when you leave each morning"
"O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você."

Mario Quintana

Girls give away by Cara Carmina atelier

Apenas para meninas, a Cara Carmina organizou um giveaway desta peça. Para a receberem basta dizerem aqui quem é a vossa mulher favorita e porquê. A minha resposta é dedicada a uma mulher fenomenal, responsável por inúmeras mudanças na minha vida.
Boa sorte!

tutti frutti



"Delicioso!" (no mínimo!) é o que posso dizer do trabalho da fotógrafa alemã Sarah Illenberger.


a linguagem das emoções

Em “As Quatro Voltas” (2010), o milanês Michelangelo Frammartino conduz-nos a uma experiência ausente de discurso.
Há dias, entre conversas, eu e uma amiga focámo-nos na impossibilidade da transmissão pura de uma experiência sensorial ou emotiva. Uma vez que a linguagem implica a racionalização das emoções, este processo deixa aquém a essência de cada sensação experimentada. No fundo, entre a impressão e a comunicação existe uma impossibilidade infinita do extravio da mensagem!
No filme, entre os ciclos da vida e ritmo da natureza, não há lugar para a linguagem, apenas à contemplação.
Palavras para quê?

espanto

curiosidade,
encanto, surpresa, deslumbre,
descoberta!


Em EspantoAbril de 2011 | 
pintura a aguarela | 10x15cm

fiando para desfiar

John William Waterhouse, Penelope and the Suitors, 1912

Recordas Penélope a quem a dedicação por Ulisses fez com que as suas mãos tecessem durante o dia a colcha para o dossel funerário do seu sogro, desfazendo-a durante a noite, longe dos olhares da corte. Fiando e desfiando esperava ganhar ao tempo a espera do seu marido.

Tecer é fazer teia ou tecido, é urdir, tramar, compor entrelaçando.

Criando um complexo entrelaçado também tu esperas ganhar ao tempo enquanto este apenas passa por ti. Passas pelo tempo. Confias-lhe que esbata, com o seu vagar, a lembrança daquele rosto esquálido de pupilas desconfiadas cravadas nas entristecidas órbitas. Confias-lhe a compreensão daquele temperamento receoso, defensivo, daquela forma leviana de existência.

Interrogas-te, quando já te sentias liberta, porque retomas à revolta quando encontras o vazio de tão pouco interessante olhar. Como o pudeste amar? perguntas ao tempo a quem tanto tempo não parece impressionar.

E tal como Penélope dedicas-te ilimitadamente ao teu trabalho, fiando e desfiando fio por fio, na espera da serenidade.

“Um dia, perceberás.”

noite de sonhos voada


® Lorna Freytag

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...

Manuel da Fonseca, "Poemas Dispersos"

"Peace and blessings manifest with every lesson learn,
If your knowledge were your wealth then it will be well earn
If we were made in his image then call us by our names
Most intellects do not believe in god but they fear us just the same"

dressage

Suspenso, estende-se sobre nós um céu estival delicadamente pontilhado por estrelas. Uma agradável aragem sustém os ânimos daqueles que esperam o início do evento. Numa grande varanda, num dos primeiros andares do largo hotel, misturam-se o perfume das veraneantes e o cloro da piscina. Lá em baixo, os grandes holofotes, dispostos ordenadamente, iluminam os relvados com os seus focos quentes e amarelos, revelando os vários enxames de mosquitos que levam as senhoras a cobrir os ombros com as suas elegantes écharpes.

O espaço destinado ao espectáculo compreende o court de ténis, adaptado à recepção da orquestra sinfónica, e o picadeiro, onde surgem diversos cavaleiros júnior acompanhados pelos seus póneis de crinas resplandecentes.

Numa mescla de conversas, risos e de sons característicos da afinação dos instrumentos, uma cavaleira, pouco calma, reúne todas as atenções ao desafiar violentamente o pequeno animal que, demasiado assustado com o barulho circundante, insiste em manter-se parado na arena.

O spalla chama o maestro que não demora em aparecer exibindo um fato negro impecável. É recebido com aplausos clamorosos aos quais se seguem alguns segundos de silêncio dedicados à concentração do regente.

Inicia-se a peça com um descontraído pizzicato.

Os cavaleiros conduzem os animais numa dança celestial de destros piaffes e passages. O pónei assustado permanece nervosamente imóvel, hirsuto, manifestando no seu triste olhar uma profunda estranheza. A cavaleira e o seu vaidoso orgulho desencadeiam uma lastimável cena na pista, uma nota dissonante na música. Furiosa, voa da sela e, com o apoio de muitos espectadores, lança odiosos insultos e agressões ao pequeno pónei. Uma voz feminina afirma: “Minha querida, rédea curta senão ele faz-te passar vergonhas.”

Clara indigna-se e observa a multidão empoleirada sobre o picadeiro vociferando gritos de guerra, incentivando aquele lamentável comportamento. Olha o pónei, “Ele nunca poderá dedicar-se à música, dançando, enquanto conviver com a severa postura da sua cavaleira.”, pensa.

A orquestra, alheia à agitação, acelera o passo num intenso frenesim de sons que serve de banda sonora à batalha empertigada da cavaleira. Ninguém atenta a música.

De súbito, as vozes da multidão calam-se perante uma nuvem confusa de uivos e latidos. Os olhares dirigem para as sebes que delineiam o espaço hoteleiro. Por de traz do alinhamento dos arbustos impecavelmente podados irrompe uma matilha desordeira, exaltada com a música. Surgem mais de trinta cães que encerram diversas formas, feitios e cores. O espanto ouve-se por entre a multidão. Enquanto os canídeos avançavam em direcção à orquestra, invadindo o picadeiro, remexendo a piscina, os cavaleiros suspendem a demonstração de maneira a proteger os póneis da aparição inesperada.

Os músicos, absortos, continuaram inabalavelmente a tocar a peça.

Na varanda, a multidão inquieta critica a organização do evento pela interrupção abrupta. Gesticula, grita, empurra. Algumas pessoas escapam-se para o interior do hotel, receando um tumulto. Muitas solicitam, junto à recepção, a devolução do dinheiro do bilhete.

O pónei assustado tem agora a rédea solta. Com o susto do assalto libertou-se da companheira e galopa feliz, desenhando círculos pelo picadeiro na companhia de um pequeno grupo de cães. Após várias fintas àqueles que o pretendem demover da sua intenção de fuga, salta a vedação de madeira e corre velozmente para a praia. Clara sorri assistindo à sua bravura.

Os músicos, sem nunca suspenderem a peça, riem-se entre si em tom de cumplicidade.

Clara ouve o desagrado de uma idosa: “Fui bailarina em nova. Entre tantos espectáculos em que participei nunca nenhum foi tão desastroso como este onde estamos. Preciso de sair daqui!” À conversa juntam-se mais uns quantos indignados que desaprovam o destino do evento. As vozes estridentes e a forma atropelada como conversavam fazem Clara afastar-se, encostando-se à guarda da varanda. Espantada, observa a matilha que segue, à beira-mar, uma enérgica corrida comandada pelo pónei.

– Que confusão que isto me faz! – confessa a bailarina.

– Foi dinheiro atirado à rua! É raro ouvir esta peça ao vivo e com esta pouca-vergonha mal consegui escutar um acorde!

– Senhores, senhores, aproximem-se. Vejam na praia a felicidade daqueles animais. Reparem como se movimentam ao som da orquestra numa dança tão genuína.

De rostos desconfiados, chegam-se junto de Clara, reclinando-se na balaustrada. Atentos, não falam por minutos. A rapariga vê despertar nos olhos da bailarina um brilho jovial e encontra os restantes imersos na música, entregando os corpos à sua fruição.

– Uma dança sem coreografia é a dança da liberdade. – exprime a bailarina emocionada.

Lá em baixo uma voz insolente interrompeu a contemplação. A cavaleira pendurada num poste da vedação chama pelo pónei.

– Valquíria! Valquíria!