espanto

curiosidade,
encanto, surpresa, deslumbre,
descoberta!


Em EspantoAbril de 2011 | 
pintura a aguarela | 10x15cm

fiando para desfiar

John William Waterhouse, Penelope and the Suitors, 1912

Recordas Penélope a quem a dedicação por Ulisses fez com que as suas mãos tecessem durante o dia a colcha para o dossel funerário do seu sogro, desfazendo-a durante a noite, longe dos olhares da corte. Fiando e desfiando esperava ganhar ao tempo a espera do seu marido.

Tecer é fazer teia ou tecido, é urdir, tramar, compor entrelaçando.

Criando um complexo entrelaçado também tu esperas ganhar ao tempo enquanto este apenas passa por ti. Passas pelo tempo. Confias-lhe que esbata, com o seu vagar, a lembrança daquele rosto esquálido de pupilas desconfiadas cravadas nas entristecidas órbitas. Confias-lhe a compreensão daquele temperamento receoso, defensivo, daquela forma leviana de existência.

Interrogas-te, quando já te sentias liberta, porque retomas à revolta quando encontras o vazio de tão pouco interessante olhar. Como o pudeste amar? perguntas ao tempo a quem tanto tempo não parece impressionar.

E tal como Penélope dedicas-te ilimitadamente ao teu trabalho, fiando e desfiando fio por fio, na espera da serenidade.

“Um dia, perceberás.”

noite de sonhos voada


® Lorna Freytag

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...

Manuel da Fonseca, "Poemas Dispersos"

"Peace and blessings manifest with every lesson learn,
If your knowledge were your wealth then it will be well earn
If we were made in his image then call us by our names
Most intellects do not believe in god but they fear us just the same"

dressage

Suspenso, estende-se sobre nós um céu estival delicadamente pontilhado por estrelas. Uma agradável aragem sustém os ânimos daqueles que esperam o início do evento. Numa grande varanda, num dos primeiros andares do largo hotel, misturam-se o perfume das veraneantes e o cloro da piscina. Lá em baixo, os grandes holofotes, dispostos ordenadamente, iluminam os relvados com os seus focos quentes e amarelos, revelando os vários enxames de mosquitos que levam as senhoras a cobrir os ombros com as suas elegantes écharpes.

O espaço destinado ao espectáculo compreende o court de ténis, adaptado à recepção da orquestra sinfónica, e o picadeiro, onde surgem diversos cavaleiros júnior acompanhados pelos seus póneis de crinas resplandecentes.

Numa mescla de conversas, risos e de sons característicos da afinação dos instrumentos, uma cavaleira, pouco calma, reúne todas as atenções ao desafiar violentamente o pequeno animal que, demasiado assustado com o barulho circundante, insiste em manter-se parado na arena.

O spalla chama o maestro que não demora em aparecer exibindo um fato negro impecável. É recebido com aplausos clamorosos aos quais se seguem alguns segundos de silêncio dedicados à concentração do regente.

Inicia-se a peça com um descontraído pizzicato.

Os cavaleiros conduzem os animais numa dança celestial de destros piaffes e passages. O pónei assustado permanece nervosamente imóvel, hirsuto, manifestando no seu triste olhar uma profunda estranheza. A cavaleira e o seu vaidoso orgulho desencadeiam uma lastimável cena na pista, uma nota dissonante na música. Furiosa, voa da sela e, com o apoio de muitos espectadores, lança odiosos insultos e agressões ao pequeno pónei. Uma voz feminina afirma: “Minha querida, rédea curta senão ele faz-te passar vergonhas.”

Clara indigna-se e observa a multidão empoleirada sobre o picadeiro vociferando gritos de guerra, incentivando aquele lamentável comportamento. Olha o pónei, “Ele nunca poderá dedicar-se à música, dançando, enquanto conviver com a severa postura da sua cavaleira.”, pensa.

A orquestra, alheia à agitação, acelera o passo num intenso frenesim de sons que serve de banda sonora à batalha empertigada da cavaleira. Ninguém atenta a música.

De súbito, as vozes da multidão calam-se perante uma nuvem confusa de uivos e latidos. Os olhares dirigem para as sebes que delineiam o espaço hoteleiro. Por de traz do alinhamento dos arbustos impecavelmente podados irrompe uma matilha desordeira, exaltada com a música. Surgem mais de trinta cães que encerram diversas formas, feitios e cores. O espanto ouve-se por entre a multidão. Enquanto os canídeos avançavam em direcção à orquestra, invadindo o picadeiro, remexendo a piscina, os cavaleiros suspendem a demonstração de maneira a proteger os póneis da aparição inesperada.

Os músicos, absortos, continuaram inabalavelmente a tocar a peça.

Na varanda, a multidão inquieta critica a organização do evento pela interrupção abrupta. Gesticula, grita, empurra. Algumas pessoas escapam-se para o interior do hotel, receando um tumulto. Muitas solicitam, junto à recepção, a devolução do dinheiro do bilhete.

O pónei assustado tem agora a rédea solta. Com o susto do assalto libertou-se da companheira e galopa feliz, desenhando círculos pelo picadeiro na companhia de um pequeno grupo de cães. Após várias fintas àqueles que o pretendem demover da sua intenção de fuga, salta a vedação de madeira e corre velozmente para a praia. Clara sorri assistindo à sua bravura.

Os músicos, sem nunca suspenderem a peça, riem-se entre si em tom de cumplicidade.

Clara ouve o desagrado de uma idosa: “Fui bailarina em nova. Entre tantos espectáculos em que participei nunca nenhum foi tão desastroso como este onde estamos. Preciso de sair daqui!” À conversa juntam-se mais uns quantos indignados que desaprovam o destino do evento. As vozes estridentes e a forma atropelada como conversavam fazem Clara afastar-se, encostando-se à guarda da varanda. Espantada, observa a matilha que segue, à beira-mar, uma enérgica corrida comandada pelo pónei.

– Que confusão que isto me faz! – confessa a bailarina.

– Foi dinheiro atirado à rua! É raro ouvir esta peça ao vivo e com esta pouca-vergonha mal consegui escutar um acorde!

– Senhores, senhores, aproximem-se. Vejam na praia a felicidade daqueles animais. Reparem como se movimentam ao som da orquestra numa dança tão genuína.

De rostos desconfiados, chegam-se junto de Clara, reclinando-se na balaustrada. Atentos, não falam por minutos. A rapariga vê despertar nos olhos da bailarina um brilho jovial e encontra os restantes imersos na música, entregando os corpos à sua fruição.

– Uma dança sem coreografia é a dança da liberdade. – exprime a bailarina emocionada.

Lá em baixo uma voz insolente interrompeu a contemplação. A cavaleira pendurada num poste da vedação chama pelo pónei.

– Valquíria! Valquíria!

até já!

É delicado o fio que mantém o seu corpo presente aos nossos olhos. A sua extrema magreza, os ombros desnudos na bata do hospital, o emaranhado de cabelo mal arranjado, a pele, os olhos, a ausência do seu perfume. Tudo me coloca à prova na pequena sala dos cuidados intensivos de cardiologia.

Há vinte e oito anos nasci naquele mesmo austero edifício, num qualquer bloco vizinho. Talvez me tenha vindo visitar, chegando pela manhã da vila dos meus verões. Talvez me tenha conhecido nessa mesma tarde, desconhecendo que ali, num qualquer bloco vizinho, anos mais tarde, me iria oferecer uma exigente prova de esforço.

Sei que tudo aquilo que ela é atravessa a complexa rede de tubos, aparelhos e silvos electrónicos. Ela é memória, é a tia a quem devo estar ali.

Entro na sala sustendo uma encorajadora respiração. Não me permito acossar diante do seu hostil vislumbre e tento manter a sua mão firmemente fechada dentro da minha, sem denunciar o meu tiritar ou uma gota de suor. Procuro rapidamente qualquer palavra, não a certa, mas a oportuna. Ela reage e as máquinas comprovam o sobressalto do seu coração. Escapa-me a voz e apercebo-me dos amargos silêncios que interrompem o tremor da minha fala.

E à despedida, depois das heróicas lágrimas sustidas, escapa-me um imprevisto “Até já!” que não consigo resolver. Saio da sala.

Atormenta-me ainda essa expressão.

o encontro com Mário Botas

Para contrariar o lamentável esquecimento em que a obra de Mário Botas teima em cair no panorama da pintura portuguesa e no nosso ensino de história de arte, foram apresentados alguns desenhos seus na exposição "O Jogo e o Caos", integrada no evento dedicado ao Dia da Poesia no CCB e em colaboração com a Fundação Mário Botas.

A Fundação Casa-Museu Mário Botas, criada pelo pintor em 1983 pouco antes de vir falecer vítima de leucemia, poderá vir a ser inaugurada ainda este ano (passados mais de vinte anos!), na Nazaré, sua cidade natal.

"Le Horla"
"Don Giovanni"

"As moradas Filosofais"

Os Passeios do Sonhador Solitário


Mais obras suas aqui.

Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

Hermann Hesse
Música da Solidão, 1915


Bom dia, Primavera!
Bom dia, Poesia!

Mike James, In the Garden 14

discreta calidez


Em largos movimentos indagou o espaço em silêncio. O seu vulto ilustrava uma severa disciplina, o cabelo aprumava-se meticulosamente numa popa grisalha sobre a testa e os gestos acompanhavam o fato claro, muito bem cuidado, numa magistral coreografia.
A sua voz, empertigada, deteve-se a um canto da sala, diante de uma peça demasiado discreta. Estranhei a escolha.
- É uma escalfeta de mãos?
Durante uns longos e detalhados minutos contemplou a caixinha em ferro fundido, alegrando-se com o cheiro das brasas de carvão.
- Faço hoje cinquenta anos de casado. Com o peito cheio de amor a minha mulher terá, certamente, as mãos frias.

"Agora é a vossa vez!"

... disse Pedro Barroso emocionado depois de o Bruno lhe ter dito: "Estamos a continuar o seu legado de luta."

Nesse dia cometi uma falha lamentável, a necessidade de levar uma mala pequena e leve acabou por deixar esquecida a câmara fotográfica, levando-me a captar a manifestação com a medíocre câmara do telemóvel. Conclusão, poucas imagens resultaram com a qualidade suficiente para não as apagar da memória. Guardarei contudo outras imagens deste dia que as câmaras não conseguiriam captar.


Dias antes, numa conversa ao jantar, concluímos que o rótulo “Geração à Rasca” é demasiadas vezes apropriado pelos media de forma insultuosa, reunindo-nos num conjunto homogéneo de molengões, demasiado mimado para não procurar trabalho noutras áreas que não a da nossa formação.

Os dois exemplos cá de casa contradizem este estigma e tornam-me demasiado irritável perante as frequentes reportagens televisivas, deturpadoras, onde aparecem jovens depressivos que se dizem cansados de enviar CV´s sem efeito para empresas que laboram apenas na sua área de actividade. Esses não deverão estar tão enrascados quanto aqueles que, face a esta situação e tendo necessariamente que pagar a casa, umas outras tantas facturas mensais, alimentação e em alguns casos a cresce do pequenote, têm que, sem apego, sem preconceitos e sem vergonhas, procurar desenrascar-se num outro caminho. Há ainda aqueles que lutam diariamente com rendimentos semelhantes ao ordenado mínimo nacional. Estes são os exemplos que conheço, aqueles que estão verdadeiramente à rasca. Nesta onda idiota de exemplos mal dados, esta geração é encarada à partida com desdém segundo os Pachecos Pereiras que levitam num mundo paralelo sem contacto com esta realidade. Para eles só pretendemos um “emprego para a vida” (!), chegando a afirmar que “mais vale um trabalho precário do que nada” (!!).

Eu só procuro estabilidade, mais emocional do que económica, procuro saber com o que contar amanhã, procuro ser tratada com respeito e dignidade quer nas relações pessoais como nas laborais.

A vida trocou-me os passos e optei por não continuar a exercer arquitectura com as condições que me eram oferecidas. Felizmente encontrei um óptimo trabalho, não muito distante da minha área de formação, bem remunerado e onde sou exemplarmente bem estimada. Manifestei-me no passado sábado contra a penosa realidade que vivi quando trabalhei nos ateliers de arquitectura. A falta de respeito e a precariedade - sob forma de recibos verdes, péssimas remunerações, entre outros - estão plenamente instaladas na nossa sociedade e são encaradas com normalidade. Manifestei-me sobretudo contra esta nova forma de ver o trabalho e o trabalhador. Manifestei-me pelas condições sociais que nos são oferecidas, pelo país que nos deixam de herança e pelo futuro pouco auspicioso.


No dia 12 de Março finalmente viram que este protesto não se trata de uma luta intergeracional como muitos o fizeram querer, mas sim um grito de desespero de filhos, país e avós. Um grito de um povo à rasca.