Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

Hermann Hesse
Música da Solidão, 1915


Bom dia, Primavera!
Bom dia, Poesia!

Mike James, In the Garden 14

discreta calidez


Em largos movimentos indagou o espaço em silêncio. O seu vulto ilustrava uma severa disciplina, o cabelo aprumava-se meticulosamente numa popa grisalha sobre a testa e os gestos acompanhavam o fato claro, muito bem cuidado, numa magistral coreografia.
A sua voz, empertigada, deteve-se a um canto da sala, diante de uma peça demasiado discreta. Estranhei a escolha.
- É uma escalfeta de mãos?
Durante uns longos e detalhados minutos contemplou a caixinha em ferro fundido, alegrando-se com o cheiro das brasas de carvão.
- Faço hoje cinquenta anos de casado. Com o peito cheio de amor a minha mulher terá, certamente, as mãos frias.

"Agora é a vossa vez!"

... disse Pedro Barroso emocionado depois de o Bruno lhe ter dito: "Estamos a continuar o seu legado de luta."

Nesse dia cometi uma falha lamentável, a necessidade de levar uma mala pequena e leve acabou por deixar esquecida a câmara fotográfica, levando-me a captar a manifestação com a medíocre câmara do telemóvel. Conclusão, poucas imagens resultaram com a qualidade suficiente para não as apagar da memória. Guardarei contudo outras imagens deste dia que as câmaras não conseguiriam captar.


Dias antes, numa conversa ao jantar, concluímos que o rótulo “Geração à Rasca” é demasiadas vezes apropriado pelos media de forma insultuosa, reunindo-nos num conjunto homogéneo de molengões, demasiado mimado para não procurar trabalho noutras áreas que não a da nossa formação.

Os dois exemplos cá de casa contradizem este estigma e tornam-me demasiado irritável perante as frequentes reportagens televisivas, deturpadoras, onde aparecem jovens depressivos que se dizem cansados de enviar CV´s sem efeito para empresas que laboram apenas na sua área de actividade. Esses não deverão estar tão enrascados quanto aqueles que, face a esta situação e tendo necessariamente que pagar a casa, umas outras tantas facturas mensais, alimentação e em alguns casos a cresce do pequenote, têm que, sem apego, sem preconceitos e sem vergonhas, procurar desenrascar-se num outro caminho. Há ainda aqueles que lutam diariamente com rendimentos semelhantes ao ordenado mínimo nacional. Estes são os exemplos que conheço, aqueles que estão verdadeiramente à rasca. Nesta onda idiota de exemplos mal dados, esta geração é encarada à partida com desdém segundo os Pachecos Pereiras que levitam num mundo paralelo sem contacto com esta realidade. Para eles só pretendemos um “emprego para a vida” (!), chegando a afirmar que “mais vale um trabalho precário do que nada” (!!).

Eu só procuro estabilidade, mais emocional do que económica, procuro saber com o que contar amanhã, procuro ser tratada com respeito e dignidade quer nas relações pessoais como nas laborais.

A vida trocou-me os passos e optei por não continuar a exercer arquitectura com as condições que me eram oferecidas. Felizmente encontrei um óptimo trabalho, não muito distante da minha área de formação, bem remunerado e onde sou exemplarmente bem estimada. Manifestei-me no passado sábado contra a penosa realidade que vivi quando trabalhei nos ateliers de arquitectura. A falta de respeito e a precariedade - sob forma de recibos verdes, péssimas remunerações, entre outros - estão plenamente instaladas na nossa sociedade e são encaradas com normalidade. Manifestei-me sobretudo contra esta nova forma de ver o trabalho e o trabalhador. Manifestei-me pelas condições sociais que nos são oferecidas, pelo país que nos deixam de herança e pelo futuro pouco auspicioso.


No dia 12 de Março finalmente viram que este protesto não se trata de uma luta intergeracional como muitos o fizeram querer, mas sim um grito de desespero de filhos, país e avós. Um grito de um povo à rasca.

múltipla exposição

técnica fotográfica que consiste em expor um negativo ou diapositivo múltiplas vezes.


Estará patente até dia 3 de Abril no Palácio das Galveias a exposição “Eu sou Fotografia – Fernando Lemos” onde se podem encontrar cerca de 130 fotografias que nos remetem para a estética surrealista.

A actividade de José Fernandes Lemos estende-se desde a pintura, gravura, poesia, fotografia e artes gráficas. Desde cedo, inserido no meio artístico português definiu-se como “surrealista, pintando, desenhando, escrevendo poesia”.

Foi numas férias nas ilhas das Berlengas com Marcelino Vespeira, enquanto desenvolvia uma série de pinturas sobre água, que se iniciou na fotografia ao concluir que esta técnica faria mais sentido no desenvolvimento desse trabalho uma vez que surge de um elemento líquido.

Luís Pilar. O Mito da Caverna.
Gesto Emoldurado
Sofia de Mello Breyner
Jorge de Sena
Alexandre O´Neill - Lavagem Cerebral
Luz Teimosa
(a minha favorita da exposição)

á, bê, cê ..

Objectos adaptados a brincadeiras de felinos, desde as mais surpreendente às mais comuns, são já convidados íntimos da casa.
Presenciamos serenamente os assaltos diários à despensa; expedições com mais olhos que barriga cujo objectivo se centra, particularmente, na exploração do canto das farinhas, farelos e sementes; a zona dos ingredientes para a produção caseira de pão. Sem o nosso espanto, todos os dias rodopiam pela casa gatos de cores diversas com embalagens de plástico e cartão pela boca.
Desta vez, enquanto assistíamos a um filme enrolados num molengão cobertor, um ataque fulminante às prateleiras causou inúmeras baixas no pacote que aguardava por uma sopa de Miso. O ralhete ficou suspenso pelo entusiasmo causado pelo inaudito efeito letrado no chão que puxou antes pela criatividade de todos.

abafador

100 ideias para o futuro na revista LER, n.º 100

"Iremos parar durante um minuto todos os dias, interromper o que estivermos a fazer, de repente, a meio de uma palavra, de uma passada, de uma garfada. E, perfeitamente imóveis, veremos que o mundo é uma cruz para quem o carrega e um berlinde para quem o empurra. Depois é só escolher."


poesia

Ela gosta de flores e diz coisas estranhas, o que para a sua filha são condições daqueles que têm veia poética.

As flores acompanham a sua história. Num consultório em Seul observa as camélias dispostas no parapeito, são vermelhas, cor da dor, e quando a médica a informa que está com Alzheimer revela ainda que as camélias vermelhas são de plástico.

A poesia torna-se na sua Crista-de-galo, flor estival originária da Índia que possui a capacidade de protecção. Yun Jeong-hie refugia-se nessa “arte de ver” que a ampara da imoralidade que tem necessariamente que abraçar.

Nos momentos mais tensos ela, no seu refúgio, alheia-se contemplando flores, árvores, alperces, os pássaros e as colheitas. Yun Jeong-hie vive, através da contemplação, um mundo paralelo distante da dor.

Lembro-me de Lola onde outras duas avós lutavam dignamente pelos seus netos. Foram estes os melhores filmes que vi ultimamente no cinema e que se fossem flores teriam a cor amarela, cor da glória.

Poesia (2010), de Lee Chang-dong.

Aqui a crítica de Bruno Sousa Villar.

tempos modernos

Depois de uma extraordinária consulta de homeopatia e uma sessão de acupuntura chego a casa e passo um serão em Londres, presa num mundo paralelo onde a emigração ilegal coabita tranquilamente com o tráfico de órgãos e com a prostituição. Em "Estranhos de Passagem"(2002), de Stephen Frears, vive-se uma Londres subterrânea, de caves e sub-caves. Espaços perigosamente assombrados por pessoas anónimas, invisíveis, que baixam os olhos diante da sua clandestinidade.

"(..) We are the people you do not see. We are the ones who drive your cabs. We clean your rooms. And suck your cocks."

Num frenesim pela sobrevivência, o filme corre, como correm as suas personagens, constantemente em transição.
Serve o argumento e a brilhante interpretação de Chiwetel Ejiofor para fechar bem o dia.

isn't that why I love you so very much?

Por vezes gosto de fechar os olhos enquanto conduzo e de sentir as tuas mãos guiarem o volante.

um lugar ao sol

Há demasiadas coisas que me fazem estar plenamente grata por tudo o que tenho vindo a conquistar nos últimos dois anos. O meu fabuloso horário de trabalho faz, inevitavelmente, parte dessa lista. Posso dormir até horas decentes, demorar-me no pequeno-almoço, evitar as multidões no metro e no supermercado e ... posso contemplar, todas as manhãs, o deleite dela ao sol.