ocidente de roupa branca

Fotografia de jonatha_m no Flickr

Ao longo da história a cultura mongol entrou em contacto com diversos povos. Talvez por não possuírem uma religião fundada num pensamento filosófico sólido, os mongóis acabaram por receber influências de diferentes religiões - o Xamanismo, o Budismo Tibetano, o Islamismo e o Cristianismo -, mantendo porém um conjunto de crenças antigas em entidades da Natureza, o que resulta num tremendo respeito pelos seus elementos e num estilo de vida ambientalmente harmoniosa e sustentável. No documentário da National Geographic “A Vida nos Confins da Terra” o antropólogo Wade Davis dá-nos a conhecer, pelas longas estepes mongóis, a vida de uma tribo nómada que partilha dessa comunhão com a Natureza. A título de exemplo, este povo indígena respeita profundamente a água dos rios ao ponto de não a contaminar sequer com sabão. Por cá, para além das descargas de resíduos industriais e das pecuárias, cantarolamos inconscientemente há 70 anos :

Ai rio não te queixes,
ai o sabão não mata!
Ai até lava os peixes,
ai põe-os cor de prata!

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar

As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar

Em que eu tantas vezes passei,

Haverá longos poentes sobre o mar,

Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,

Será o mesmo jardim à minha porta...


Sophia de Mello Breyner Andresen

insónia

Casa Azul, 23 de Janeiro de 2011 pelas 5:00 horas, aproximadamente.

Lá fora eram esperados 3ºC de mínima e 11ºC de máxima assim como um vento moderado (25 a 35 km/h) de Leste, soprando forte (35 a 45 km/h) com rajadas na ordem dos 80 km/h nas terras altas. Existia ainda a possibilidade de se assistir à formação de geada.
No mar, as ondas de Sueste alcançariam os 2 a 3 metros de altura e a temperatura da água atingiria os 16ºC.

Alheio às condições atmosféricas dormias pausadamente. Aproximei-me e senti o teu corpo aquecer-me.
Sem querer acordei-te e atordoado balbuciaste: "Está frio!". Escondemo-nos dele num enroscado abraço onde me abriguei junto ao teu rosto.
Mais protegida, sob o toque da barba e o cheiro doce da tua respiração, voltei a adormecer.

Imagem Satelite
copyright©2008 EUMETSAT/IM

este poema diz muito a ele

Arte Poética

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


Mário Dionísio

este poema diz-me muito

Complicação

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

Mário Dionísio

troca de olhares

Os olhares que te deito
Desde a hora em que te vi
São as falas do meu peito
Que morre de amor por ti!

Quantos olhares são trocados
Em segredos envolvidos!
Sinais mudos, bem falados,
Por quem são compreendidos!

Não é preciso falar
Havendo combinações
Porque a troca do olhar
É a voz dos corações!


Se tivesse de escolher um poema para ele talvez optasse por aquele cantado por Amália Rodrigues, aqui parcialmente interpretado por Lula Pena.
No início desta música encontramos ainda alguns versos de "Namoro" de Viriato da Cruz, poeta angolano.

assalto à mão armada

O frio gume da faca assustada contrai a pele. Imagino os pulmões engasgados e o tremor que provocará o inevitável golpe.

Oiço o coração, apreensivo, imerso em dor, vociferar o seu incómodo. Um zumbido surdo lateja, pungente, abafando o som ambiente.

ídolo Quietude

Absorvida no alvoroço matinal, inquieta hora de ponta, automóveis, transportes públicos, massas aceleradas de multidões, encontra-se, com ar de estranheza, uma gaivota pousada na cabeça da estátua de Marquês de Pombal. Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado do Reino no reinado de D.José I, herói da reconstrução da cidade, Lisboa reedificada.
A pequena ave, pasmada, analisa os singulares movimentos dos seres vivos lá de baixo, vultos humanos consumidos pelo nervoso cansaço, noites mal-dormidas, pela ansiedade do atraso.

"Não tarda, muitos cairão devido a este esforço" pensa a ave incrédula na paisagem. "Então, para tudo há remédio, enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos" conclui.

Corpo de suporte formado por uma base e uma coluna que sustém uma estátua: zócalo, dado e cornija. Pedestal. Os quarenta metros de altura concedem-lhe uma sólida visão.
A ave marinha, de lúcida plumagem branca e cinzenta, sóbria consciência, reinventa o monumento inaugurado em 1934. Antes do seu voo, na praça que determina simbolicamente o centro da cidade, presta-se homenagem à quietação.