este poema diz-me muito

Complicação

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.
Ah mas antes isso!
Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.
Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

Mário Dionísio

troca de olhares

Os olhares que te deito
Desde a hora em que te vi
São as falas do meu peito
Que morre de amor por ti!

Quantos olhares são trocados
Em segredos envolvidos!
Sinais mudos, bem falados,
Por quem são compreendidos!

Não é preciso falar
Havendo combinações
Porque a troca do olhar
É a voz dos corações!


Se tivesse de escolher um poema para ele talvez optasse por aquele cantado por Amália Rodrigues, aqui parcialmente interpretado por Lula Pena.
No início desta música encontramos ainda alguns versos de "Namoro" de Viriato da Cruz, poeta angolano.

assalto à mão armada

O frio gume da faca assustada contrai a pele. Imagino os pulmões engasgados e o tremor que provocará o inevitável golpe.

Oiço o coração, apreensivo, imerso em dor, vociferar o seu incómodo. Um zumbido surdo lateja, pungente, abafando o som ambiente.

ídolo Quietude

Absorvida no alvoroço matinal, inquieta hora de ponta, automóveis, transportes públicos, massas aceleradas de multidões, encontra-se, com ar de estranheza, uma gaivota pousada na cabeça da estátua de Marquês de Pombal. Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado do Reino no reinado de D.José I, herói da reconstrução da cidade, Lisboa reedificada.
A pequena ave, pasmada, analisa os singulares movimentos dos seres vivos lá de baixo, vultos humanos consumidos pelo nervoso cansaço, noites mal-dormidas, pela ansiedade do atraso.

"Não tarda, muitos cairão devido a este esforço" pensa a ave incrédula na paisagem. "Então, para tudo há remédio, enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos" conclui.

Corpo de suporte formado por uma base e uma coluna que sustém uma estátua: zócalo, dado e cornija. Pedestal. Os quarenta metros de altura concedem-lhe uma sólida visão.
A ave marinha, de lúcida plumagem branca e cinzenta, sóbria consciência, reinventa o monumento inaugurado em 1934. Antes do seu voo, na praça que determina simbolicamente o centro da cidade, presta-se homenagem à quietação.

printing

carimbos em madeira para tecidos, Índia, na Cavalo de Pau

em tom ofegante

Se tal me fosse permitido, se a minha vida não corresse perigo, eu susteria a respiração para te dizer, ininterruptamente, "amo-te", "amo-te", "amo-te"...

festividade

Colares da Papua-Nova Guiné, na Cavalo de Pau
Guerreiros, Papua-Nova Guiné

"Ver, ouvir e não calar"

Apesar da sua visão de humanidade, não tão pessimista como verdadeira no pior dos nossos defeitos, Saramago afirma que se todos os amantes da beleza pudessem juntar esforços para combater as barbaridades do ser humano talvez se conseguisse dignificar o Homem. “Espero morrer lúcido e de olhos abertos”. Saramago fala-nos, sempre nos falou, sobre a Lucidez.

No fabuloso documentário de Miguel Gonçalves Mendes o casal Saramago e Pilar abre-nos a porta de sua casa.

"A vida de cada um de nós vai sendo contada em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como andamos e olhamos, na maneira como viramos a cabeça ou apanhamos um objecto do chão". É assim que, com o decorrer do documentário, Saramago e Pilar se dão a conhecer.

Saramago é, mais do que um homem humilde, mais do que o brilhante escritor, um sábio a quem apetece não parar de ouvir. A sua clareza e consciência fazem-me acreditar que a sua missão foi, mais do que literária, a intervenção na sociedade.

Em "José e Pilar" fala-se da morte, de deus, do sentido da vida e do Homem. Assistimos às viagens, às cansativas conferências de impressa, às infindáveis sessões de autógrafo, às refeições, aos serões, à doença e à recuperação do escritor; a vida de um casal, o sereno, tímido e provocador José Saramago e a enérgica e poderosa Pilar del Río. “Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer Pilar, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”.

Em "José e Pilar" fala-se sobretudo de amor, através do inseparável percurso do casal, através das duas mãos que se procuram e se entrelaçam constantemente. Segundo o realizador, os dois completavam-se. “Ela lhe deu uma segunda vida”.


Cerâmica de Samburu


Brinquedos Samburu em terracota, na Cavalo de Pau

A tribo Samburu habita uma pequena área natural protegia com cerca de 165 km2 na zona central do Quénia.

Samburu warriors, Samburu, Kenya
Samburu women, Samburu, Kenya.