em laboratório

Porta tubos de ensaio, na Cavalo de Pau

Elisabete Pimentel

Desenho e cerâmica de Elisabete Pimentel, na Cavalo de Pau

território e carcaças

Seca, pancada viril.

Não tarda a inflamação; os vasos sanguíneos, agora mais permeáveis, facilitam a chegada das células de defesa ao local golpeado.

Lateja, febril, o agudo edema daquele que foi capturado.

Como na maré baixa, ou numa grande vaga, o sangue recua do coração alterando, impetuosamente, o nível do sangue nas veias devido ao aumento da pressão na zona golpeada. Desengano, inquietação causada por um corpo sobre o nosso centro gravítico.

Os felinos atacam as presas rasgando instintivamente o seu abdómen. Intestinos, estômago, pâncreas; o centro proteico da presa. Um ataque directo, instintivo, ao nosso centro vital.

Assim quedamos esventrados, surpresos, perpetuando, olhos nos olhos, a flagrante imagem da nossa própria existência.

este meu azul porcelana





Como as veias que percorrem a minha pele também eu serpenteio em várias direcções, sem mapa, sem rota, expandindo-me apenas para deixar fluir o sangue.
Como o sangue que percorre as veias da minha pele também eu procuro encontrar um percurso, um trajecto sólido, firme e profundamente vincado. Mas esse percurso teima em cortar a pele, e as cicatrizes dessa caminhada são agora de uma seda fina e quebradiça, sinais anémicos que ameaçam por vezes não conseguir estancar o sangue.
São testemunhos da minha matéria, o meu azul porcelana, ténue, frágil e hesitante.

Bakhtiari

O Bakhtiari é um dos mais antigos povos persa do Irão, ocupando as regiões montanhosas da Cordilheira de Zagros, a Sudoeste do país. A tribo possui cerca de 800 mil pessoas, sendo um terço da sua população composta por pastores nómadas. Estes permanecem, com os seus carneiros e bodes, nas planícies de Isfahán durante o Inverno, subindo à montanhas durante o Verão, a mais de três mil metros de altura.
Muçulmanos Chiitas, organizam-se em duas sub-tribos, a Chahar Lang (Quatro Pés) e a Half Lang (Sete Pés), cada uma chefiada por uma família poderosa.

"People of the wind", 1976

O documentário de Anthony Howarth retrata a migração dos pastores Bakhtiari.
Aqui é possível encontrar outro documentário acerca desde povo persa.

collegial girls

Extasiado. Olhos suados, mãos ritmadamente gulosas, ágeis, atentas ao pequeno ecrã do computador. Afastado de olhares terceiros, o homem adulto mostra-se um adolescente curioso. Sexualidade perplexa, assustada, mal esclarecida. Arrebatado vê desfilar, no seu tom grotesco, mulheres digitais, indiferentemente anónimas, no canto do seu pueril quarto.
Avidez fora de horas num sonho de uma noite de Verão.
Pousam as rapariguinhas marotas saídas do recreio da escola. Saias em xadrez, demasiado curtas, às pregas, lingerie rendada, ligas, carrapitos e óculos.
Fantasia evidente, o homem é letrado.


brisas


Enquanto eu escrevia que "Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias", encontro em "Brisas"(2008), Enrique Ramirez dizer que as cidades são como as pessoas, existindo algo na sua personalidade que as torna inesquecíveis. Acrescenta que, tal como as pessoas, também as cidades podem ser carregadas de memórias. Esta sua afirmação prende-se aos conceitos basilares da sua curta-metragem, a memória e a história. Aqui, acompanhamos o passeio de homem pelas ruas e praças de Santiago do Chile, entrando no palácio presidencial, onde se deu o golpe fascista que derrubou Salvador Allende, dando lugar a uma tumultuosa ditadura.

"A brisa que passa pelo meu rosto, que passa pelo seu rosto, a bala na cabeça, o sangue grudado no telhado. Como voltar para rever a história? Como voltar? "

"Brisas", fez parte de instalação que Enrique Ramirez expôs na Galeria em Santiago do Chile. É uma curta-metragem excepcional que conta, para além de uma magnífica fotografia, com uma banda sonora à altura. Em voz-off , um belíssimo texto tão abstracto como poético.

recantos

Procuro um táxi por entre lugares onde outrora habitaram alguns dos meus dias. Experimentando a sua intensidade, o seu deslumbramento e assombro, embato em ecos latentes da minha memória.

Espreito o Sacramento à Alcântara, distingo as árvores do Jardim da Armada. Naqueles bancos, pintados de verde, conversei, pela primeira vez, com um grande amigo da faculdade; fazíamos então, demasiado desengonçado, o nosso primeiro levantamento. Número do edifício; ano de construção; estado de conservação; cércea; número de fogos por piso e actividades inerentes a cada; cobertura; materiais de revestimento; elementos dissonantes. Desenhávamos os alçados.

O sol, na Infante Santo, vence, por instantes, o céu chuvoso. Recordo-me dos sábados de Feira da Ladra onde a luz da cidade, majestosa pela manhã, se refinava sobre as superfícies molhadas. As árvores, o asfalto e as pedras brancas de calcário fraccionam a trajectória dos raios solares. Reflexões. O brilho da cidade é adoçado.

Perto da casa que não aluguei encontro um táxi. Terá esta rua sentido, quando a percorri desvigorada, a mágoa bruta que eu teimava esconder de mim? Aquela mágoa bruta que escalda e se derrama por alguém quando este sente desistirem de si.

O motorista avança, “A menina prefere ir pelas Janelas Verdes ou voltar ao Rato?”. “Pelas Janelas Verdes, o Rato vejo-o todos os dias.”

A luz reflectida nas poças da calçada, água espelhada que dissipa o céu, invade cada canto, cada recanto da minha cidade. Em cada um dos seus cantos, dos seus mil recantos, resistem, triunfais, incontáveis, inarráveis, recordações de quem por ali passou. Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias, vultos errantes que emergem despidos ao calor do nosso toque.

Calçada da Pampulha. Rua Presidente Arriaga. O sol aquece o assento do táxi, sinto-me em casa nesta minha Lisboa.

Uma carrinha parada, em segunda fila, sustém o trânsito barulhento. Aqui, suspensa sobre o Jardim das Janelas Verdes, revisito o dia da visita de estudo ao museu. Recordo o cheiro de uma límpida manhã estival do meu Verão adolescente. Aconchego os óculos de sol dissimulando as lágrimas que me tentam embaraçar. Lembro-me dele, da sua mania, insistente, em enrolar a barba com os dedos. Fazes-me falta, amigo.

Olho o edifício do Museu de Arte Antiga. Flash! À minha frente é disparado um clarão demasiado branco, demasiado violento. Dói-me a vista. A garganta aperta-se desconsolada, não resisto e choro. No largo, entre a Rua do Conde e a Rua do Olival, aquele que acolhe a saída do museu, chorei, uma tarde, desapontada por mais um desencontro daquele amor. O percurso da exposição, levou-o indiferente, revelou-me a divergência que encerrávamos. Desinteresse, desamparo, constante desacordo. Reencontrámo-nos na calçada, em passos distintos. Somou-se uma ferida à pele fragilizada.

Mais à frente cai o pano e desfilam as memórias mais doces, abraçando-me como só tu o fazes. Lembras-te, amor, quando, apesar do cansaço do final de um dia, caminhámos e caminhámos para aquela inauguração, tarumbando e tarumbando, hesitando os bilhetes que escondiam, não os nossos, mas os nomes de outros? O rosé, o Queijo da Serra, Shakespeare em marionetas de fios e a ânsia da tua companhia para o jantar, para adormecer. Ao meu lado, a 10 km a Nordeste, sorris.

O semáforo vagaroso permite ao motorista irromper conversa. Lisboeta nascido e criado, surpreende-se com a história que conto sobre o Palácio de São Bento, antigo mosteiro Benedito, São Bento da Saúde, destruído pelo terramoto e pela Revolução Liberal, torna-se Parlamento às mãos do arquitecto Possidónio da Silva, que o adapta às novas exigências. Todavia, um incêndio nos finais do século XIX leva o arquitecto Ventura Terra desenhar o actual edifício neoclássico, este meu novo vizinho.

“É arquitecta, a menina?”. “ Por vezes!”.

O edifício amarelo das janelas azul-turquesa olha-me espantado com as suas voltas e reviravoltas em ferro forjado. “Hoje vens de táxi?!” .

4euros. Saio sozinha, contigo do táxi. No assento vazio do carro, partilhaste comigo toda a viagem. Conto, sussurrando na frequência que apenas nós captamos, tudo aquilo que por ali vivi. Dou-te a mão, abro a porta, entramos na loja.

Já te telefono, amor.

amores de companhia

Estirpe atónita da insensatez, aquela que faz dar a mão a quem se julga amar, amando invés, entusiasticamente, a fuga à solidão. Mão frígida e carente não deixa de ser uma mão, lívida, mas presente. Estendem-se as mãos sôfregas, celebrando a ânsia de "Ter" alguém.
Passos no corredor, contas partilhadas, aceitação social.
A solidão encapuçada ocorre em vidas mal-partilhadas, levianas, desinteressadas. Leves, são elas, compinchas de estimação, mornas uniões por conveniência solidária.

mendiga

Morou, em tempos, nas mais ermas ruas desta cidade. Intempéries, fome, doenças. Trémula, a sem-abrigo permanecia obediente à intensidade da chuva, ao ribombar indiferente das noite ao frio. Dócil fragilidade desprotegida, demorou-se, grosseiramente, sob o extremo rigor das tempestades invernais.

Agarra-se agora à garganta inflamada, arranhada pelos contínuos gritos desse seu desamparo. Sentir-se-á refém do turbilhão que remoinha pela sua cabeça à força do vento bruto, outrora parede da sua casa na rua, ou antes cativa daqueles que, por desprezo, a sua pele golpearam até sangrar?

O sangue, expulso, mal coagulado, tem-lhe vindo a marcar, por vezes, a expressão dos olhos, fazendo-a cambalear quando se ergue pela manhã. Testemunhas dos maus-tratos, os hematomas da sua desprotecção brotam frequentemente sob o fino algodão da sua roupa. Despontam vivos, em tons púrpura, perante a recordação do seu mais brando abandono.

Memória recente, hipersensível. Acredito que retém ainda desses dias a mágoa de ter pedido, como por esmola, alguma atenção.