brisas


Enquanto eu escrevia que "Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias", encontro em "Brisas"(2008), Enrique Ramirez dizer que as cidades são como as pessoas, existindo algo na sua personalidade que as torna inesquecíveis. Acrescenta que, tal como as pessoas, também as cidades podem ser carregadas de memórias. Esta sua afirmação prende-se aos conceitos basilares da sua curta-metragem, a memória e a história. Aqui, acompanhamos o passeio de homem pelas ruas e praças de Santiago do Chile, entrando no palácio presidencial, onde se deu o golpe fascista que derrubou Salvador Allende, dando lugar a uma tumultuosa ditadura.

"A brisa que passa pelo meu rosto, que passa pelo seu rosto, a bala na cabeça, o sangue grudado no telhado. Como voltar para rever a história? Como voltar? "

"Brisas", fez parte de instalação que Enrique Ramirez expôs na Galeria em Santiago do Chile. É uma curta-metragem excepcional que conta, para além de uma magnífica fotografia, com uma banda sonora à altura. Em voz-off , um belíssimo texto tão abstracto como poético.

recantos

Procuro um táxi por entre lugares onde outrora habitaram alguns dos meus dias. Experimentando a sua intensidade, o seu deslumbramento e assombro, embato em ecos latentes da minha memória.

Espreito o Sacramento à Alcântara, distingo as árvores do Jardim da Armada. Naqueles bancos, pintados de verde, conversei, pela primeira vez, com um grande amigo da faculdade; fazíamos então, demasiado desengonçado, o nosso primeiro levantamento. Número do edifício; ano de construção; estado de conservação; cércea; número de fogos por piso e actividades inerentes a cada; cobertura; materiais de revestimento; elementos dissonantes. Desenhávamos os alçados.

O sol, na Infante Santo, vence, por instantes, o céu chuvoso. Recordo-me dos sábados de Feira da Ladra onde a luz da cidade, majestosa pela manhã, se refinava sobre as superfícies molhadas. As árvores, o asfalto e as pedras brancas de calcário fraccionam a trajectória dos raios solares. Reflexões. O brilho da cidade é adoçado.

Perto da casa que não aluguei encontro um táxi. Terá esta rua sentido, quando a percorri desvigorada, a mágoa bruta que eu teimava esconder de mim? Aquela mágoa bruta que escalda e se derrama por alguém quando este sente desistirem de si.

O motorista avança, “A menina prefere ir pelas Janelas Verdes ou voltar ao Rato?”. “Pelas Janelas Verdes, o Rato vejo-o todos os dias.”

A luz reflectida nas poças da calçada, água espelhada que dissipa o céu, invade cada canto, cada recanto da minha cidade. Em cada um dos seus cantos, dos seus mil recantos, resistem, triunfais, incontáveis, inarráveis, recordações de quem por ali passou. Sobre esta cidade adormece, todas as noites, a cidade espectral, morada das memórias, vultos errantes que emergem despidos ao calor do nosso toque.

Calçada da Pampulha. Rua Presidente Arriaga. O sol aquece o assento do táxi, sinto-me em casa nesta minha Lisboa.

Uma carrinha parada, em segunda fila, sustém o trânsito barulhento. Aqui, suspensa sobre o Jardim das Janelas Verdes, revisito o dia da visita de estudo ao museu. Recordo o cheiro de uma límpida manhã estival do meu Verão adolescente. Aconchego os óculos de sol dissimulando as lágrimas que me tentam embaraçar. Lembro-me dele, da sua mania, insistente, em enrolar a barba com os dedos. Fazes-me falta, amigo.

Olho o edifício do Museu de Arte Antiga. Flash! À minha frente é disparado um clarão demasiado branco, demasiado violento. Dói-me a vista. A garganta aperta-se desconsolada, não resisto e choro. No largo, entre a Rua do Conde e a Rua do Olival, aquele que acolhe a saída do museu, chorei, uma tarde, desapontada por mais um desencontro daquele amor. O percurso da exposição, levou-o indiferente, revelou-me a divergência que encerrávamos. Desinteresse, desamparo, constante desacordo. Reencontrámo-nos na calçada, em passos distintos. Somou-se uma ferida à pele fragilizada.

Mais à frente cai o pano e desfilam as memórias mais doces, abraçando-me como só tu o fazes. Lembras-te, amor, quando, apesar do cansaço do final de um dia, caminhámos e caminhámos para aquela inauguração, tarumbando e tarumbando, hesitando os bilhetes que escondiam, não os nossos, mas os nomes de outros? O rosé, o Queijo da Serra, Shakespeare em marionetas de fios e a ânsia da tua companhia para o jantar, para adormecer. Ao meu lado, a 10 km a Nordeste, sorris.

O semáforo vagaroso permite ao motorista irromper conversa. Lisboeta nascido e criado, surpreende-se com a história que conto sobre o Palácio de São Bento, antigo mosteiro Benedito, São Bento da Saúde, destruído pelo terramoto e pela Revolução Liberal, torna-se Parlamento às mãos do arquitecto Possidónio da Silva, que o adapta às novas exigências. Todavia, um incêndio nos finais do século XIX leva o arquitecto Ventura Terra desenhar o actual edifício neoclássico, este meu novo vizinho.

“É arquitecta, a menina?”. “ Por vezes!”.

O edifício amarelo das janelas azul-turquesa olha-me espantado com as suas voltas e reviravoltas em ferro forjado. “Hoje vens de táxi?!” .

4euros. Saio sozinha, contigo do táxi. No assento vazio do carro, partilhaste comigo toda a viagem. Conto, sussurrando na frequência que apenas nós captamos, tudo aquilo que por ali vivi. Dou-te a mão, abro a porta, entramos na loja.

Já te telefono, amor.

amores de companhia

Estirpe atónita da insensatez, aquela que faz dar a mão a quem se julga amar, amando invés, entusiasticamente, a fuga à solidão. Mão frígida e carente não deixa de ser uma mão, lívida, mas presente. Estendem-se as mãos sôfregas, celebrando a ânsia de "Ter" alguém.
Passos no corredor, contas partilhadas, aceitação social.
A solidão encapuçada ocorre em vidas mal-partilhadas, levianas, desinteressadas. Leves, são elas, compinchas de estimação, mornas uniões por conveniência solidária.

mendiga

Morou, em tempos, nas mais ermas ruas desta cidade. Intempéries, fome, doenças. Trémula, a sem-abrigo permanecia obediente à intensidade da chuva, ao ribombar indiferente das noite ao frio. Dócil fragilidade desprotegida, demorou-se, grosseiramente, sob o extremo rigor das tempestades invernais.

Agarra-se agora à garganta inflamada, arranhada pelos contínuos gritos desse seu desamparo. Sentir-se-á refém do turbilhão que remoinha pela sua cabeça à força do vento bruto, outrora parede da sua casa na rua, ou antes cativa daqueles que, por desprezo, a sua pele golpearam até sangrar?

O sangue, expulso, mal coagulado, tem-lhe vindo a marcar, por vezes, a expressão dos olhos, fazendo-a cambalear quando se ergue pela manhã. Testemunhas dos maus-tratos, os hematomas da sua desprotecção brotam frequentemente sob o fino algodão da sua roupa. Despontam vivos, em tons púrpura, perante a recordação do seu mais brando abandono.

Memória recente, hipersensível. Acredito que retém ainda desses dias a mágoa de ter pedido, como por esmola, alguma atenção.


vidas firmadas no ódio



Heydrich: Yes, he told me a story about a man he had known all his life, a boyhood friend. This man hated his father. Loved his mother fiercely. His mother was devoted to him, but his father used to beat him, demeaned him, disenherited him. Anyway, this friend grew to manhood and was still in his thirties when the mother died. The mother, who had nurtured and protected him, died. The man stood at her grave as they lowered the coffin, and tried to cry, but no tears came. The man's father lived to a very extended old age, and withered away and died when the son was in his fifties. At the father's funeral, much to the son's surprise, he could not control his tears. Wailing, sobbing... he was apparently inconsolable. Lost. That was the story Kritzinger told me.
(fonte: Wikiquote)

O telefilme "Conspiracy", de 2001, produzido pela BBC e pela HBO, recria a Conferência de Wannsee onde foi declarada a solução final acerca do Holocausto.

"Aquilo que o Homem cria, o Homem destrói, dir-se-ia, com o mesmo prazer, como se por fim tivesse medo do mundo saído do seu cérebro e das suas mãos."

Julien Green in Paris, Tinta da China Edições.


Modigliani, "Female nude", 1916

De suave prazer, deleita-se no veludo adocicado do preto-mel.

o Reconhecido

De peito descoberto, rosto exposto, sente por si, este reconhecido, os curiosos, os demais interessados.

Por este reconhecido alguém se aproximou, observou. Alguém se empenhou, apoiou, deu-se atentamente.

Sobre aquele reconhecido examinaram, descobriram, compreenderam. Admitiram-lhe valor.

Consideraram, fielmente, cada uma das suas particularidades; admitiram-lhe as diferenças, as imperfeições; consentiram os erros; permitiram-lhe manter, mudar, renovar.

Aprovaram-no.

Aquele reconhecido reconhece-se assim, de rosto agradavelmente exposto e peito tranquilo.

ao cair da vigília

Inspiras, expiras.
Abraço o teu cheiro adocicado e entrego-me ao embalo do seu calor.
Inspiras, expiras.
Orquestras a mais apurada das peças e, ao seu sereno compasso, adormeço.

costureirinha


Uma horinha de trabalho e sabe tão bem ver a recém-chegada caixa de costura, dos anos 40/50, tão aperalta.
À venda na Cavalo de Pau.