Skinhead Attitude

Skinhead Attitude (2003), excelente documentário do suíço Daniel Scweizer, apresenta a história do movimento skinhead desde a sua origem na Jamaica, passando pela cena pós-punk em Inglaterra, pelo movimento dos mods (modernists), amantes da música negra norte americana (soul, r&b) e jamaicana (ska) – e pela divisão política que gerou, nos anos 80, duas facções: uma racista – os boneheads da extrema-direita neo-nazi; outra anti-racista – os Sharp e os Rash (skins anarquistas ou comunistas).

O documentário inclui testemunhos de músicos e de elementos da cena skin da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá, abordando os confrontos violentos entre as duas facções, responsável por algumas mortes, e a ligação a uma violenta organização neo-nazi de origem britânica, a Combat 18 (C18), associada ao movimento de propaganda neo-nazi Blood & Honour.

O documentário consegue esclarecer as origens de um movimento que, progressivamente, foi sendo relacionado com cena neo-nazi, mostrando-nos o quão incorrecta é essa associação, uma vez que na sua génese imperava o espírito de tolerância e união, princípios que os skinheads tradicionais ainda defendem).

o homem que perdeu a Palavra

Conheci um homem que perdeu a Palavra, privei com ele em demorados serões e animados jantares. Na verdade, este homem é um tipo singular, não pelas melhores razões que a singularidade encerra, mas porque a sua insana incoerência assim o tornam, num homem singular.

Determinado dia, ao percorrer uma vereda sinuosa e acidentada, desequilibrou-se e estendeu o braço para se apoiar. Subitamente, ao abrir a mão, perdeu a sua Palavra. Na verdade, o Homem Sem Palavra sempre fora descuidado, não cerrando as mãos com a força necessária para a abrigar. Já a tinha perdido, inclusivamente, em diversas ocasiões, mas desta a perda fora irreparável.

Outrora dormira com a Palavra junto ao peito, segredava-lhe doces ternuras, estimava-a olhos nos olhos, acarinhando-a com promessas de amor e lealdade.

O Homem que perdeu a Palavra tornou-se, nesse dia, um corpo desagregado, tremendo, como se fora de frio, do receio de se comprometer, de emitir juízos, de exprimir opiniões. Viu, nas mais bem intencionadas promessas e valores que anteriormente defendia cair a mais espessa das nódoas. Mas nada pôde fazer, faltava-lhe a Palavra.

Frequentemente observamo-lo em alerta, tenso, de pé atrás do outro caso urja fugir. Para contornar a sua falta, este homem, recorre constantemente a actos levianos e imponderados. É cobarde e dúbio por não defender com garra a Palavra que perdeu.

Lamento.

o hiper-realismo de Andrew Zuckerman


Absolutamente sublime é o trabalho do fotógrafo norte-americano Andrew Zuckerman na sua série Bird. Zuckerman fotografa, sobre um fundo branco e muita luz, pássaros de diversas espécies em momentos majestosos, em voo ou em descanso. Através de uma impressionante definição o fotógrafo consegue captar pormenores belíssimos e raros, os mais recônditos: as cores e a textura das plumagens, os movimentos e expressões dos olhos de cada ave, detalhes que raramente conseguimos observar.
O livro, aqui à venda, entrará brevemente em minha casa! (ehehehe!!!)
Nesse encontro, laranja azulado, eles descobriram-se.

o que senti em ti é agora certeza

O tempo ensaia, por vezes inseguro, incrédulo, de mãos cerradas cobre os olhos, sente o que sente ser delírio, um engano.

O presente somente pressente o que o vagar do tempo trará. Descerra desmedidamente um olhar milimétrico, evidente e confirma o presságio.

design por cá

Exposição "AICA", 1972.
Sala de António Sena da Silva com cadeiras e mesas do designer português.

Produzida inicialmente pela Olaio, a "Cadeira Sena" foi concebida em 1972 por Sena da Silva, em colaboração com Gastão Machado.

viagens

Escritório de viagem. Áustria nos anos 30/40.

letras

Móveis com gavetas de tipografia (Alemanha), do tempo em que as letras (os tipos) eram impressas a partir de caracteres de chumbo. Os móveis fotografados são de origem alemã, encontram-se à venda na loja Cavalo de Pau, na Rua de São Bento.

documentário independência - Malick Sidibé

Nascido no Mali, na década de 30, os seus retratos e fotografias documentam o desenvolvimento do seu país natal no período pós-colonial. Graças ao seu trabalho, e ao de outros fotógrafos indígenas, a fotografia começou a ser aceite pela população africana que, num primeiro contacto, temia as consequências do disparo de uma câmara fotográfica. Assim, chegam até nós, contrariamente às imagem de pobreza e miséria, testemunhos de uma geração confiante numa África sonhadora, orgulhosa e independente. Longe de cenários de guerras e de fome, a juventude maliana nos anos 60 e 70 dançava fervilhosamente ao ritmo do twist e do merengue: "Eles gostavam de festas e eu seguia-os para todo o lado. É a eles que tenho que agradecer por me ter tornado um fotógrafo famoso" afirma o fotógrafo Malick Sidibé no documentário sobre o seu trabalho: "Dolce Vita Africana", de 2008.
"Merengue dancer", 1964
"Regardez-Moi!", 1962
"The Whole Family on a Motorcycle", 1962
"Three young men"
Nas suas fotografias é frequente observar a coexistência de objectos próprios do estilo de vida ocidental com elementos tradicionais, como as vestes e os panos que utiliza como fundo - muitas vezes são bogolans, tecidos tradicionais feitos pela tribos Dongon, Bambara e Malinkés.
" Une Amoureuse de The"
Na fotografia "Christmas Eve", em segundo plano, encontra-se a famosa cadeira de café - Chaise A, desenhada por Xavier Pauchard, em 1934, para a marca francesa Tolix. A cadeira, que serviu para equipar bares, cafés, hospitais e parques públicos, lembra-nos a ocupação francesa que permaneceu no Mali desde o final do século XIX até 1960, data da sua independência.
"Christmas Eve", 1963
Integrada no Festival doclisboa 2010, a fabulosa exposição do fotógrafo maliano encontra-se patente no Palácio das Galveias, até finais de Novembro.

odisseia nocturna

"A Morte do Senhor Lazarescu" (2005), filme romeno realizado por Cristi Puiu, possui um argumento fortíssimo baseado num episódio ocorrido, uns anos antes em Bucareste, em que um doente fora abandonado na rua pela ambulância que o transportava por ter sida recusada a sua entrada em inúmeras urgências hospitalares da cidade.
O filme fala-nos não só do abandono dos idosos pelas suas famílias, da sua solidão e dor, como ainda da falta de sensibilidade e indiferença no seu tratamento por aqueles que os rodeiam e pelo pessoal médico.
O senhor Dante Lazarescu, um viúvo reformado, apesar de morar num grande edifício em Bucareste bastante habitado, vive sozinho num apartamento, menosprezado pelos vizinhos por beber uns copos a mais. A história que nos conta poderia chegar a nós através de um vizinho nosso, perdido, desprezado nas urgências de vários hospitais, onde, devido à sua situação social, é atendido pelos profissionais de saúde com bastante relutância.

Durante uma longa e cansativa noite vemos o seu caso clínico a ser examinado sem qualquer tipo de seriedade e profissionalismo: seguem-se os diagnósticos díspares, são recusados tratamentos e análises e Lazarescu vê-se constantemente ultrapassado por casos aparentemente mais urgentes. Assistimos assim a um conjunto de actos médicos levianos e ao um leque de discussões entre os técnicos de saúde que teimam mais em afirmar hierarquias profissionais e autoridade de cada, do que prestar um bom serviço médico.
Entretanto, minuto após minuto, observamos a saúde do senhor Lazarescu a deteriorar- se profundamente...