Ana Ventura

Em casa, tenho quatro serigrafias da série Jardins na Cabeça da Ana Ventura.
Na Cavalo de Pau temos, neste momento, vários exemplares da sua série in(visíveis).

sensualidade caramelo

(Fonte: bacfilms.com/site/caramel/)

A vida de cinco mulheres cruza-se num salão de beleza em Beirute, a cidade cosmopolita do Médio Oriente que melhor ilustra o confronto entre o mundo ocidental e o islâmico por pertencer a um dos países árabes que, em conjunto com a Tunísia, se assume mais liberal no que respeita aos direitos cívicos e aos direitos das mulheres.

O salão Sibelle, um pequeno mundo, doce como o caramelo, reflecte a condição da mulher libanesa. O caramelo, usado como base na cera depilatória, inicialmente provoca dor, mas ao longo do filme percebemos que traz consigo bem-estar e melhora a auto-estima das personagens, numa cidade onde muitas mulheres ainda se cobrem.

Em Sibelle, num ambiente de uma relativa liberdade e sofisticação, Nadine Labaki introduz subtilmente algumas marcas de um regime autoritário, tais como o divórcio, a noiva que se sente obrigada a recorrer a uma cirurgia de reconstrução do hímen numa sociedade que ainda não aceita o sexo pré-nupcial; os hotéis que apenas aceitam reservas de mulheres casadas e a mulher lésbica que não consegue assumir, nem abordar o assunto com as amigas.

Paradoxalmente, tal como o caramelo que é doce mas magoa, as vidas das cinco mulheres são habitadas por sonhos, os quais tentam realizar no limite da transgressão aos valores tradicionais, deixando-se, por outro lado, seduzir por essas mesmas tradições familiares, tais como a ideia de matrimónio.

Caramelo, uma produção franco-libanesa de 2007 de Nadine Labaki.

suzanis

Os “suzanis” são peças bordadas em fio de seda que remotam a antiguidade na Ásia Central, particularmente no Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão.

Existem dois significados para a palavra ”suzani”; em persa ela significa Beleza Tribal, todavia há quem se refira apenas a “trabalho de agulha”.

Para além do dote das suas filhas, as mulheres produzem almofadas, cortinas, colchas, peças de parede, toalhas e tapetes de oração para cada habitante de sua casa. Para o dote de uma filha, o trabalho inicia-se logo depois do seu nascimento e, com a colaboração de familiares e amigos, é completado até ao seu noivado.

Depois da ocupação soviética os ocidentais descobriram o artesanato da Ásia Central, tornando-se as peças antigas demasiado caras. Deste modo, desenvolveu-se uma onda de revivalismo das antigas formas e técnicas da bordadura dos “suzanis”. Actualmente, temos acesso a fabulosos têxteis contemporâneos um pouco por todo o mundo, a preços mais acessíveis, sendo que as mulheres asiáticas ganharam uma nova forma de sustento para as suas famílias. As peças são agora produzidas nas vilas mais tradicionais ou em modernos ateliers. Todavia, importa salientar que as peças continuam a possuir uma enorme qualidade, quer ao nível dos materiais, quer da técnica de bordadura, motivos e cores. As peças actuais são frequentemente constituídas por uma mistura de algodão e seda, tecidos em faixas posteriormente cosidas entre si: o mais comum é utilizar-se uma urdidura de seda e a trama em algodão. Contudo, ainda se produzem inúmeras peças totalmente em seda.


Para os “suzanis” de grandes dimensões, as faixas são cosidas para se desenhar o motivo em toda a peça, sendo separadas novamente de forma a que cada elemento da família ou amigos borde uma faixa.
Uma mulher, no Uzbequistão, desenha o motivo de um novo suzani.
Utiização de um bastidor para produzir os contornos e alguns detalhes mais lineares.

Bergman

Acabei de ouvir falar sueco. Pude confirmar que é, definitivamente, a língua do bom cinema.
Disse-lhes. Senti Bergman aqui por perto. Elas sorriram.

Bogolan

Os Bogolan são tecidos tradicionais do Mali, frequentes nas tribos de Dongon, Bambara e Malinkés. A palavra Bogolan deriva de um dialecto local: bogo significa argila, lama, terra e lan - feito de. Tecidos feitos de terra.

A produção dos Bogolan envolve um processo moroso. O tecido de algodão branco é a sua matéria-prima, tecido num tear duplo pelos homens da população, em tiras estreitas. As tiras são posteriormente cosidas entre si, dando forma e dimensão ao pano.

A tintura é feita pelas mulheres, sendo esta técnica passada de mãe para filha. As tintas utilizadas são naturais, de origem vegetal e mineral, pelo que as cores resultam essencialmente no preto, no castanho, amarelo e no branco.Depois de receberem a tintura inicial, proveniente de uma pasta resultante da mistura de plantas e fibras de árvores. O tecido é colocado ao sol e rapidamente adquire a sua primeira coloração. Este processo de tintura é repetido várias vezes.
A lama fermentada, recolhida nos lagos próximos e em poças, é guardada em potes cobertos durante um ano, é aplicada escurecendo algumas zonas da peça de algodão. A área em que se pretende aplicar a lama é contornada com um pincel, um pau ou outras ferramentas. O interior é posteriormente preenchido com utensílios maiores. Por vezes aplicam-se stencils. A peça é lavada de forma a retirar o excesso da lama.
Depois de aplicar uma segunda tintura natural, a peça é novamente colocada ao sol. Uma pasta que resulta da mistura de um sabão local e de lixívia irá preencher os desenhos a branco.
Os motivos baseiam-se na vida rural ou urbana africana, na natureza e nos inúmeros ideogramas e formas geométricas tradicionais de cada tribo.
fonte das fotografia: trekearth.com

Kilims

A palavra kilim significa “tapete sem pêlo” ou “tapete de dupla face”. Os kilims são reversíveis uma vez que na sua produção, em vez dos nós utilizados na confecção dos tapetes mais frequentes, são dadas laçadas por entre os fios da urdidura, tal como se de um bordado se tratasse.

Existem diversos termos para a sua denominação: gelim no Irão; kelim no Afeganistão; kylym na Ucrânia, palas no Cáucaso, bsath na Síria e Líbano, chilim na Roménia e kilim na Turquia, Polónia, Hungria e Sérvia.

Fotografia tirada entre 1873 e 1890 em Isfahan, Irão onde podemos observar duas mulheres a tecem, num pátio, um kilim num tear de chão. Fonte:"Living Kilims" da Thames and Hudson.

Uma vez que eram utilizados na sua produção materiais de pouca resistência, os kilims encontrados nos locais arqueológicos revelam-se insuficientes para a afirmação de uma data ou modo de tecelagem original. Neste sentido, é difícil estabelecer o seu aparecimento ou a tribo que o produziu. Todavia, em 1947, um arqueólogo russo, durante as escavações a uma sepultura no sul da Sibéria encontrou um kilim extremamente bem conservado. Após diversas análises, constatou-se que a peça pertenceria ao século 5 A.C.

Até há poucas décadas os coleccionadores consideravam o kilim de inferior qualidade em relação aos tapetes orientais. Durante gerações foi esta a ideia que se manteve dos kilims, sendo que na maioria dos livros especializados em tapeçaria descreviam-nos em poucas linhas, como sendo um simples e inferior produto tribal. Há três décadas deu-se uma explosão de interesse nestas peças para fins decorativos, utilitários e para colecção, sendo que as suas características e qualidades conquistaram todo mundo ocidental.

Porém existem ainda kilims que continuam a ser utilizados tal como foram durante séculos na Ásia: como peças decorativas que cobriam o chão, paredes e mobiliário. Todas estas funções expõem o carácter e tradições das pessoas que os teceram à mão, nos seus teares rudimentares, usando técnicas específicas de tecelagem, motivos e composições, transmitidas de geração a geração.

A técnica de tecelagem utilizada, a que apenas entrecruza os fios de lã, cabelo ou fibras vegetais, deverá ter surgido para fazer face às necessidades básicas de vestuário, abrigo, armazenamento ou para o conforto dos abrigos – como almofadas, cobertas para o chão e paredes.

Tear horizontal de chão. Este tipo de teares era utilizado pelos povos nómadas para produzir kilims e outro tipo de têxteis . Eram facilmente montados e desmontados e transportado por camelo.Fonte:"Living Kilims" da Thames and Hudson.

Uma mulher no norte do Afeganistão tece uma tira para envolver a tenda ou para coser a outras para fazer um ghujeri. Ela está a trabalhar num tear de chão tradicional , usado durante séculos sem alterações pelos povos nómadas. Fonte:"Living Kilims" da Thames and Hudson.
A produção de kilims nesta aldeia no norte da Síria funciona em pequenas empresa familiar como uma linha de montagem industrial. Aqui vemos um tear horizontal, relativamente sofisticado, e a preparação e aplicação da tinta na lã. Fonte:"Living Kilims" da Thames and Hudson.

Apesar de existirem inúmeras referências históricas, é certo que esta simples técnica de tecelagem era uma ocupação estabelecida e florescente à data. A domesticação da ovelha, da cabra, dos camelos e dos cavalos tornaram a lã e o pêlo facilmente disponíveis, por outro lado, os pigmentos foram sendo desenvolvidos, sintetizados a partir de fontes animais e vegetais.

Os motivos e elementos de decoração dos kilims estão intimamente associados à identidade de cada tribo. Os símbolos e desenhos aplicados eram claros e fáceis de serem reconhecidos a uma determinada distância, de forma a permitir que todos aqueles que circulassem por perto conseguissem distinguir a tribo. Estes símbolos tribais, por outro lado, reforçavam a integridade do próprio grupo.

As tribos nómadas utilizam também os kilims para revestir a estrutura de madeira das suas tradicionais tendas redondas, de tectos ligeiramente abobadados. Fonte: "Living Kilims" da Thames and Hudson.

As tribos nómadas ou semi-nómadas enrolam ou dobram os kilims no dorso dos camelos ou dos burros quando se movimentam. Os kilims dobrados servem como suporte para o transporte de vários utensílios. Fotografia tirada junto de Herat, no Afeganistão."Living Kilims" da Thames and Hudson.

gatos

"O processo de reparação de objectos cerâmicos por aplicação de grampos de arame, ou gatos como frequentemente se denomina, é uma expressão forte de um acto tradicional de restauro praticado por artesãos ambulantes (os amoladores) que possuíam um número reduzido de instrumentos de trabalho. O furador manual deito de arame de aço ou o berbequim para a abertura dos orifícios no recipiente fracturado, o alicate para dobrar e cortar os grampos e para os pressionar na sua aplicação, transportados pela rua.
Este trabalho de muita baixa remuneração, era vantajoso dado o custo dos recipientes a reparar."
Museu Nacional de Etnologia

barros negros de ribolhos

Figuras da Maria da Fonte e Músicos em barro. José Maria Rodrigues. Castro DAire.
Museu Nacional de Etnologia.
O José Maria Rodrigues, habitante em Ribolhos, o oleiro mais conhecido do concelho, produzia utensílios em barro preto - assim denominado devido ao tipo de cozedura que lhe concede a tonalidade negra.
Com o desenvolvimento e modernização do estilo de vida, José Maria dedicou-se à olaria artística, criando um género muito próprio, onde predominam as figuras de arte popular.
A arte de trabalhar o barro, actividade secular em Ribolhos, foi o único meio de subsistência da população devido à inexistência de actividade industrial e de uma precária agricultura. A roda baixa, a pia de pedra, o maço de madeira, a peneira e os outros instrumentos fabricados pelo oleiro, constituem os artefactos que deram nome aos Barros Negros de Ribolhos.

Olaria de Nisa


Olaria Empedrada
A olaria pedrada é uma tradição bastante antiga e intimamente ligada à preservação da água. É típica na região do Alto Alentejo, nomeadamente em Nisa e Estremoz - que apresentam técnicas decorativas de incrustação no barro distintas -, e na região da Alta Estremadura espanhola, nomeadamente na localidade fronteiriça de Ceclavín.

Assim, a olaria de Nisa tem como principal função a conservação da água fresca para uso doméstico e o seu transporte pelos viajantes e trabalhadores rurais.

Na composição da pasta entram dois tipos de barro, o barro branco e o barro preto, utilizando-se ainda para o acabamento da peça o barro vermelho.

Nas incrustrações empregam-se fragmentos de quartzo. As decorações são levadas a cabo por mulheres, sendo os motivos mais frequentes são as flores e plantas típicas da região.

A partir dos anos 60 deu-se uma crescente procura destas peças para fins decorativos. Esta procura originou uma adaptação na tipologia de peças executadas e na sua decoração. Deste modo, para além do tradicional vasilhame, começaram-se a produzir artefactos decorativos tais como pratos, travessas, cinzeiros, pequenas réplicas de animais, entre outros. No que toca à decoração, mesmo nas peças mais tradicionais, começou-se a utilizar pedra de menor calibre (chamada de 1ª e de 2ª) e em apenas uma linha ou ida, como dizem os populares.

Moringue em barro. António Oliveira Pequito. Museu Nacional de Etnologia
Jarro em barro. Museu Nacional de Etnologia
Potes de Roça

Produz-se igualmente em Nisa os chamados potes de roça ou potes roçados, cuja técnica de execução e o resultado final são bastante distintos dos da restante olaria nisense.

Através desta técnica apenas se produzem potes.

O barro é trabalhado em cima de pó de quartzo, ficando visível apenas na superfície externa da peça. Estas peças são extremamente resistentes e refrescarem mais a água do que os potes lisos, uma vez que o quartzo torna barro mais poroso, acelerando o processo de arrefecimento.

Pote de Roça. António Pequito. Museu Nacional de Etnologia