Memórias Olaio

Desde sempre que me lembro do móvel-expositor que os meus avós têm na cozinha antiga. É nele que guardam, à vista de todos, as louças e talheres para os dias de festa: a vitrina da cerimónia. Nas gavetas, guardam as toalhas de mesa, bordadas pela minha avó quando em Sesimbra andava na escola de bordados, panos de linho e alguns trabalhos incompletos de renda e tricô. Noutras gavetas guardam os papéis dos médicos, algumas cartas, a agenda e uma série de documentos: as gavetas surpresa.
Sempre me fascinou esse móvel. Quando era pequena deslumbrava-me o facto de ele poder esconder coisas valiosas e segredos, achava curiosa a forma de abrir a vitrina, o barulho que o vidro fazia ao deslizar. Mais crescida encontrei nele outras qualidades: a beleza e simplicidade do seu desenho, os puxadores, o trabalho da madeira e a delicadeza dos seus esbeltos pés, que lembram o mobiliário escandinavo dos anos 40/50.
Há dias caminhava na Rua de São Bento quando, sem o crer, espreitei para a loja do Sr. Félix. Fiquei pasmada com a escrivaninha que se encontrava num amontoado de móveis.
Hoje está em minha casa, guardada naquele que, depois da desarrumação passar, será o meu atelier.
Fábrica Olaio
Em 1937, José Olaio, um jovem marceneiro, fundou a fábrica em Sacavém, era o princípio da Móveis Olaio. A empresa chegou a ter cerca de 500 trabalhadores e marca fortemente o design de mobiliário em Portugal.
Estão associadas aos móveis Olaio a qualidade da madeira da madeira maciça e do seu trabalho, as ferragens e a precisão nos seus acabamentos.
Em 1989 a empresa Olaio foi vendida, declarando falência, os novos proprietários, em 1995.

o indestrutível

Em Lyon, nos finais dos anos 40, Jean-Louis Domecq cansado de procurar candeeiros para equipar as máquinas da sua fábrica, decide desenhar e construir um candeeiro adaptado à sua actividade. Depois de diversas tentativas, o desenho final surge em Abril de 1950, satisfazendo perfeitamente aos requisitos que procurava: um candeeiro simples, robusto e articulado de forma a adaptar-se a qualquer posto de trabalho.

Devido às suas características, Domecq encontrou no mercado industrial uma enorme aceitação e procura. Assim, passa os dois anos seguintes a industrializá-lo e em 1953 cria uma empresa – cujo nome deriva das suas iniciais Ji eL Dé – dedicada à comercialização do candeeiro. A Jieldè produz em massa o candeeiro de mesa e o de chão, com várias opões de bases e braços com diferentes comprimentos.

O candeeiro Jieldè é uma das estrelas da história do design do século XX devido a numerosas especificidades. Uma delas reside na existência de braços articulados sem a presença de fios eléctricos. Como forma de evitar fios eléctricos à vista, a electricidade é transportada através das junções das articulações, mediante um engenhoso mecanismo de contactos eléctricos.

Nadia Baggioli - uma artista italiana em Lisboa

"Coração independente,

Coração que não comando,

Vive perdido entre a gente,

Teimosamente sangrando,

Coração independente"

"Aí, Lisboa

Terra bem nobre e leal,

Tu és o castelo da proa

Da velha nau Portugal"

"Ai, Lisboa

Cheiram a sal os teus ares,

Deus pôs-te as ondas a teus pés,

Porque és tu a rainha dos mares."

Artur Almeida

Artur Almeida, desde 1999 que encontra na madeira ou na folha de contraplacado suportes que o permitem explorar uma plasticidade hipnótica, de gestos e riscos, sulcos pontos e rasgos que geram múltiplas partículas, como células de um organismo maior. Artur compõe fabulosos trabalhos de uma minúcia e dedicação notáveis. Sobre o suporte despertam composições ondulantes, vibrantes, de um movimento tão orgânico como uma seara que serpenteia, como gotas de água que correm ao vento.

Texturas e cores que dançam ao ritmo de uma música privada que só elas ouvem, cantam seguindo labirínticos trilhos. Todavia, observando atentamente o seu gracioso bailar, torna-se audível a melodia que cada quadro oferece.

Parte do seu trabalho poderá ser encontrado na loja Cavalo de Pau, na Rua de São Bento, n.º164.

talvez num palco fosses guerreiro

O nosso mamulengo, oriundo de destinos quentes e soalheiros, não dispensava um lugar ao sol. Foi para a janela. Ao lado, serve-lhe de protecção um fabuloso escudo africano.

a tradição têxtil em África

África possui uma longa tradição têxtil que inclui uma vasta variedade de materiais, estilos, padrões e utilizações. Os tecidos são usados não só para vestuário, como para adorno, decoração, ou ainda enquanto veículo de mensagens ou como moeda para trocas comerciais.
Os primeiros tecidos eram realizados com cascas moídas de árvores, aproveitando sobretudo a zona interior da casca, mais fibrosa. Esta técnica era corrente numa extensa área do continente africano. Actualmente, são encontrados sobretudo na África central, decorados com tintas vegetais.
A matéria-prima, depois de extraída da árvore é demolhada ou fervida em água durante algumas horas para amolecer. Posteriormente, é batida com pedras de forma a esmagar as fibras e extrair os materiais lenhosos e as impurezas. A casca é colocada novamente em água para ser novamente calcada. Este processo de preparação da casca é repetido durante vários dias, podendo alcançar um mês de trabalho. Por fim a casca é submetida a um processo vagaroso de secagem para que não resulte rígida e quebradiça. O produto final assemelha-se a uma folha de papel, resistente, flexível e bastante macio ao ponto de ser possível costurá-lo.
A tecelagem foi desenvolvida a partir do século XI. Nesta mesma época, a expansão do Islão introduzindo novos códigos de vestuário o que desempenhou um papel importante no desenvolvimento de determinadas técnicas de produção dos tecidos, sobretudo na África ocidental.
O tear de faixa estreita, os teares simples, os de chão e os de ráfia eram apenas utilizados por homens. Todavia, numa ampla área junto à Nigéria, incluindo a zona oeste dos Camarões, já as mulheres teciam utilizando teares verticais, apoiados numa parede. O tear horizontal permitia a confecção de várias tiras que posteriormente eram cosidas longitudinalmente, formando tecidos maiores.
Estes trabalhos habilíssimos foram, mais tarde, introduzidas como moeda de troca, através dos quais era possível estimar o preço de produtos e comprar mercadorias. Em várias sociedades africanas, a quantidade de tecidos pertencentes a cada família constitui um símbolo de riqueza e poder.
Os tecidos constituem presentes singulares, deste modo, o poder de cada família mede-se não só pela quantidade dos seus bens, como ainda pela possibilidade de os distribuir. Presentear alguém com tecidos possibilita a solução de conflitos, a resolução de várias situações e a celebração de momentos especiais da vida de cada membro, tais como o atingimento da maioridade, o matrimónio, o nascimento de filhos, netos ou a morte de um parente.
De forma a garantir boas relações sociais, cada membro da sociedade é desafiado a oferecer e a receber tecidos. A posse de um largo conjunto de tecidos aumenta assim o prestígio do seu proprietário, possibilitando-lhe uma participação mais activa na vida comunitária.
Os tecidos possuem ainda uma função simbólica, através do seu estampado – que se assemelha a texto onde se encontram referências à identidade social e religiosa daquele que o usa. Assim, desempenham um importante papel na vida ritual, presente igualmente no momento da morte. Os mortos são vestidos ou envolvidos em tecidos, de maneira a serem protegidos pela palavra dos vivos.

ela


Sempre a tive distinta, senhora de uma extravagante clareza. Eras nitidez. Depois a lente hesitante deslocou-se, rodou, rodou, retomou a rodar. Titubeou rudemente e deixou-te-me turva, sem traços definidos para nos podermos encontrar.

Catarina Maldonado

A designer elabora colares enquanto peças escultórias, inspiradas em tribos e civilizações remotas à tradição europeia.
Catarina procura peças e materiais nobres em todo o mundo, seda, têxteis antigos, conchas, âmbares, coral, prata, marfim, côco, turquesas, entre outros.
Cria intuitivamente, não desenhando previamente a peça, não preparando antecipadamente a combinação das cores. Cada colar vai nascendo, compondo-se e recompondo-se, seguindo a sua inspiração e delicada sensibilidade.
Algumas das suas peças podem ser encontradas na loja cavalo de pau, na Rua de São Bento.

o móvel em Portugal - do artesanal ao industrial

Até ao século XI, Portugal produziu peças de mobiliário de excelente qualidade que resultavam do fabuloso trabalho dos artífices com as madeiras autóctones e daquelas provenientes das antigas colónias. Era produzido mobiliário com entalhados e embutidos notáveis, de suas linhas sinuosas e torneadas era extremamente apreciado pelo mundo inteiro.

Ao longo do século XX, o modo de vida dos centros urbanos foi-se alterando. Em Portugal, país de fortes tradições e sob um regime conservador, as alterações ao modo de vida foram surgindo de forma mais lenta do que o que se foi verificadondo nos restantes países da Europa e dos Estados Unidos da América.

De forma a acompanhar este novo ritmo de vida urbano, tornou-se urgente criar meios para a produção eficientemente de uma grande variedade de objectos em massa, executados em vários materiais e através diferentes métodos. Deu-se assim desenvolvimento do design industrial.

Logicamente, estas questões tiveram implicações na indústria do mobiliário que, em Portugal, já se encontrava desactualizada devido à ausência de técnicos especializados no processo industrial.

Deste modo, arquitectos e artistas plásticos nacionais transferiram-se para o estrangeiro de forma a trabalhar com designers. Frederico George trabalhou com Walter Gropius e Mies van der Rohe, importando os novos ideais da escola de Bauhau, dando assim início à reformulação do ensino académico. António Sena da Silva escreve o artigo Formas Utilitárias Industriais e Artesanais. Equipamento e Pormenorização Decorativa” onde demonstrou a sua preocupação acerca da produção industrial e do papel do designer. Sena afirma ser indispensável a passagem da produção artesanal para a produção industrial.

Assim, na década de 50, um pequeno núcleo de arquitectos e artistas, a par do progresso da formação do designer, desafiaram os produtores de mobiliário a desenvolver novos modelos de produção que previssem a intervenção do designer.

A mensagem chegou a diversas oficinas de produção artesanal e a fábricas, nas quais predominava ainda o trabalho manual. A Sousa Braga Filhos Lda; a Olaio móveis e decoração; a Jerónimo Osório de Castro, a FOC, a MIT, a Longra e a Altamira, foram as que facilmente aderiram ao desafio.
Nestas empresas, a produção manual deu lugar, progressivamente, à produção mecanizada.

os seus Robertos

No Brasil os fantoches são designados por mamulengo.

Mão molenga: movimentos mais vivos e naturais.

Os mamulengos são a forma mais primitiva e popular do teatro de marionetas, com maior expressão em Pernambuco. Estas figurinhas animavam eventos festivos, feiras, praças e ruas

Tal como na Europa, inicialmente os fantoches centravam-se em cenas religiosas de forma a ensinar a história bíblica. Todavia, foram sendo gradualmente introduzidos temas profanos através de cenas do quotidiano, da caricatura de personagens e instituições. As histórias eram, geralmente, improvisadas no acto da representação, mediante a reacção do público.

Entre várias, aparecem personagens animais (cobras, bois e feras); humanas (vaqueiros, latifundiários, donzelas, heróis e bandidos) e entidades sobrenaturais (o Diabo, a Alma e a Morte).

Os bonecos de mamulengo possuem a cabeça e mãos feitas em madeira (mulungu ou imburana) e o corpo vazio, em pano, como uma luva.