crime passional


Ele:
Sou o poeta mais bonito que conheces?
Silêncio
Ele: Conheces um poeta mais bonito?! Gostaria de apanhá-lo num beco escuro e esfaqueá-lo com um verso.

Javier Zabala Herrero


a peste

Varmints de Marc Craste (2008)
No Monstra, numa sessão de animação infantil, deliciei-me com uma criatura, encerrada numa cidade automatizada, afectada por uma indiferença como se se tratasse de uma praga, que procura conservar o mundo natural, cuidadando zelosamente de uma flor.
Agradou-me a ideia da existência de mundos paralelos que sobrevoam esta mesma cidade, medusas que preservavam a Natureza no seu estado puro, mundos destinados às criaturas conscientes, que não se contentam com o marchar padronizado, anónimo, das vidas daqueles que os rodeavam.
O trailer desta curta-metragem poderá ser visto aqui.

um Mal(acto)

De que vale à televisão pública ter programas como o Biosfera na sua programação, quando em horário nobre permite, no programa Jogo Duplo, apresentado por José Carlos Malato, uma conversa trocista entre o apresentador e um concorrente, acerca de produtos biológicos. O concorrente ofereceu a Malato uma chouriça de Mafra e um toucinho, ironizando que eram biológicos. Malato não se conteve e colocou a assistência também a gozar com essa possibilidade. Como diz alguém aqui por perto, a parvoíce é como as cerejas.
Não caberá a um canal estatal, em horário nobre, evitar comentários retrógrados, ignorantes, capazes de manter vivos determinados preconceitos?

vergonha é NÃO ter grandes questões

Adoro o meu novo trabalho. Encaro-o, para além de muito muito mais, como um posto de vigia onde observo atentamente comportamentos humanos. Ali sinto-me a enriquecer todos os dias. Cresço, cresço, cresço. Torno-me uma pessoa mais consciente.
Depois de exercer arquitectura em ateliers fechados ao mundo, áridos de emoções e de contactos humanos, reconheço que um trabalho, para mim, nunca poderá ser apenas a execução de tarefas. Sufoco. Preciso de uma energia que só o contacto humano directo me permite.
E esta noite, depois de atender uma série de casais disfuncionais com crias (porque o são, apenas crias), mimadas, mas mal-amadas, penso na sorte que tive em ter levado aquele pontapé há um ano. Aquele pontapé que me fez repensar, reflectir-me.
E quando me perguntam se não me faz confusão ter um curso e não o exercer, digo que NÃO!, porque naquele modelo de trabalho nunca me senti expandir como agora, inspirada, motivada, feliz. E quando me perguntam se não me envergonho em trabalhar numa loja, lembro-me da história da Regina, uma colega, que quando uma criança atravessou o balcão para roubar um chupa-chupa a mãe disse:
- "Filho, não te ponhas aí atrás que isso é descer na vida."
Ela respondeu qualquer coisa como:
- "Pois é pequenino, roubar é descer na vida."
Vergonha é (des)educar assim uma criança, pensar como esta senhora e deixar tal preconceito limitar as suas experiências de vida. Vergonha é comportar-se de forma snob e viver sem levantar questões, seguindo passo a passo um caminho planeado, controlado, confortável. Vergonha teria eu ao sentir uma vida insípida, sem as cores da criatividade e a vibração de poder sentir-me espontânea.
Felizmente, levei aquele pontapé e não me tornei em mais uma deles!

vila de reis e rainhas - visões do real

Pela Rua Direita, na galeria NovaOgiva, deparámo-nos com a exposição "Intervalos do Real" de Cristina Ataíde. Um retrato peculiar da paisagem da região através da textura, da cor; da passagem do tempo, do ritmo da natureza; da terra, da água; da erosão, da transformação.



vila de reis e rainhas - bichinhos dos contos

Com bichinhos na barriga, a tarde por Óbidos reserva ainda mais descobertas.
Na aldeia de Casais Brancos, instalada numa antiga escola primária, encontrámos a livraria Histórias com Bicho, um espaço de fantasia para aqueles que têm o bichinho da infância ainda consigo. Fomos recebidos, na primeira livraria especializada em literatura infantil do país, por um ambiente encantador e por uma simpatia notável.





Imagino como seria mudar a vida novamente, agora ali, longe de Lisboa, serena e perto deste imaginário, uma hipótese, mais um sonho.

vila de reis e rainhas - de mãos no barro

Óbidos inspira-me. Sinto-me uma magia peculiar pelas suas ruas, não apenas pela história e pelo seu deslumbrante património arquitectónico, mas pela dinâmica cultural que, desde há uns anos, cresce por lá. Vejo aparecer lojas e ateliers que apostam e recuperam artigos tradicionais e de artesanato, como a Olaria de S. Pedro, onde nos perdemos em conversas sobre técnicas e efeitos de cerâmica e onde me encantei com as peças coloridas de Sónia Borga (aqui alguns trabalhos em colaboração com Vitor Silva Santos) e cruzo-me com a cerâmica Raku, técnica de origem japonesa.

Cruzo-me depois com o trabalho da Ana Todo-Bom, ceramista das Caldas da Rainha que cria peças com extraordinários padrões e cores. Fiquei de voltar para adquirir uma peça sua.

Imagino como seria mudar a vida novamente, agora ali, longe de Lisboa, serena e de mãos no barro, uma hipótese, mais um sonho.