vergonha é NÃO ter grandes questões

Adoro o meu novo trabalho. Encaro-o, para além de muito muito mais, como um posto de vigia onde observo atentamente comportamentos humanos. Ali sinto-me a enriquecer todos os dias. Cresço, cresço, cresço. Torno-me uma pessoa mais consciente.
Depois de exercer arquitectura em ateliers fechados ao mundo, áridos de emoções e de contactos humanos, reconheço que um trabalho, para mim, nunca poderá ser apenas a execução de tarefas. Sufoco. Preciso de uma energia que só o contacto humano directo me permite.
E esta noite, depois de atender uma série de casais disfuncionais com crias (porque o são, apenas crias), mimadas, mas mal-amadas, penso na sorte que tive em ter levado aquele pontapé há um ano. Aquele pontapé que me fez repensar, reflectir-me.
E quando me perguntam se não me faz confusão ter um curso e não o exercer, digo que NÃO!, porque naquele modelo de trabalho nunca me senti expandir como agora, inspirada, motivada, feliz. E quando me perguntam se não me envergonho em trabalhar numa loja, lembro-me da história da Regina, uma colega, que quando uma criança atravessou o balcão para roubar um chupa-chupa a mãe disse:
- "Filho, não te ponhas aí atrás que isso é descer na vida."
Ela respondeu qualquer coisa como:
- "Pois é pequenino, roubar é descer na vida."
Vergonha é (des)educar assim uma criança, pensar como esta senhora e deixar tal preconceito limitar as suas experiências de vida. Vergonha é comportar-se de forma snob e viver sem levantar questões, seguindo passo a passo um caminho planeado, controlado, confortável. Vergonha teria eu ao sentir uma vida insípida, sem as cores da criatividade e a vibração de poder sentir-me espontânea.
Felizmente, levei aquele pontapé e não me tornei em mais uma deles!

vila de reis e rainhas - visões do real

Pela Rua Direita, na galeria NovaOgiva, deparámo-nos com a exposição "Intervalos do Real" de Cristina Ataíde. Um retrato peculiar da paisagem da região através da textura, da cor; da passagem do tempo, do ritmo da natureza; da terra, da água; da erosão, da transformação.



vila de reis e rainhas - bichinhos dos contos

Com bichinhos na barriga, a tarde por Óbidos reserva ainda mais descobertas.
Na aldeia de Casais Brancos, instalada numa antiga escola primária, encontrámos a livraria Histórias com Bicho, um espaço de fantasia para aqueles que têm o bichinho da infância ainda consigo. Fomos recebidos, na primeira livraria especializada em literatura infantil do país, por um ambiente encantador e por uma simpatia notável.





Imagino como seria mudar a vida novamente, agora ali, longe de Lisboa, serena e perto deste imaginário, uma hipótese, mais um sonho.

vila de reis e rainhas - de mãos no barro

Óbidos inspira-me. Sinto-me uma magia peculiar pelas suas ruas, não apenas pela história e pelo seu deslumbrante património arquitectónico, mas pela dinâmica cultural que, desde há uns anos, cresce por lá. Vejo aparecer lojas e ateliers que apostam e recuperam artigos tradicionais e de artesanato, como a Olaria de S. Pedro, onde nos perdemos em conversas sobre técnicas e efeitos de cerâmica e onde me encantei com as peças coloridas de Sónia Borga (aqui alguns trabalhos em colaboração com Vitor Silva Santos) e cruzo-me com a cerâmica Raku, técnica de origem japonesa.

Cruzo-me depois com o trabalho da Ana Todo-Bom, ceramista das Caldas da Rainha que cria peças com extraordinários padrões e cores. Fiquei de voltar para adquirir uma peça sua.

Imagino como seria mudar a vida novamente, agora ali, longe de Lisboa, serena e de mãos no barro, uma hipótese, mais um sonho.

de mão em mão


Em dias da fast-porcelain, dos packs de pratos quebradiços, copos frágeis, mas empilháveis, e da trágica falência das fábricas de cerâmica em Portugal, abriu aqui por perto um espaço para venda ao público de artigos em segunda-mão como forma de angariar fundos para terminar as obras da igreja local. Aqui são cedidas belíssimas peças de louça, livros, revistas, bijutaria, roupa, candeeiros para venda a preços simbólicos.

Foi lá que encontrei um fabuloso conjunto de café da SECLA constituído por cinco chávenas, leiteira, açucareiro e bule. Encontrei ainda copos para água e licor Made in Portugal, cujo vidro possui cores e reflexos já difíceis de encontrar.

Em dias da produção em série, da falta de qualidade e dos preços acessíveis torna-se fácil comprar e renovar as louças e utensílios lá de casa. Tudo é efémero.

Mas há peças que resistem a este ritmo e ao passar acelerado do tempo. Peças que povoam as nossas memórias de infância como as caixinhas de toffees da Quality Street onde a minha avó guardava os botões, as agulhas e os alfinetes.

visa ou multibanco?

Há uns meses, depois de algumas decepções, decidi suspender a minha actividade enquanto arquitecta. Optei por afastar-me desse meio de forma a perceber que tipo de trabalho, relações profissionais, horários e conteúdos que preciso e de que não preciso certamente. Vou agora encontrando-os.
No início deste ano estou confiante que, apesar dos contratempos que insistem em surgir, o meu projecto com a Patrícia e com o João, Memórias de Cor, e o outro com Bruno, Meninos de Bolso, dando tréguas aos meses de desemprego e indecisão em que me vi envolvida.
Entretanto, conceitos como puericultura, motricidade fina, peluches, andarilhos, mobiles musicais, cubos de actividades, luzes, sons, equilíbrio, habilidade, inventários, aberturas e fechos de caixas vão preenchendo os meus dias numa outra casa-azul (como já ouvi pequeninos chamar) que não a minha, repleta de estímulos para as minhas ilustrações e para os contos infantis. Para os projectos que estão para concretizar.


abrigos


saliência; pico; ferrão
espinho; extremidade aguda e picante.
impressão dolorosa e desagradável; comichão; ardor

(fonte:blitz.aeiou.pt)

Dias antes apeteceu-me ouvi-la, coloquei o CD na aparelhagem mas, de tanto o ouvir, deu um erro. La Llorona estava riscado. Não a ouvi nesse dia, mas recordei o seu concerto de 2004 em Lisboa e voltei-me a emocionar ao descrever o deslumbramento em que a ouvi homenagear Amália Rodrigues com o fado Meu Amor, Meu Amor, escrito por Ary dos Santos.

Lhasa de Sela morreu dias depois. 

A ela, de Lisboa, deixo Amália.


Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento

Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer

E nascemos, nascemos
Do nosso entristecer

Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento

Meu amor, meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento

Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós paramos o vento
Não sabemos nadar

E morremos, morremos
Devagar, devagar

a menina dos seus olhos


Em tempos, o avô-contador-de-histórias viveu com uma menina, morou com ela. Era sua neta, a menina dos seus olhos. Brincavam, riam às gargalhadas até doer a barriga, ensinava-lhe ditados, as letras, os números, a tabuada, contava-lhe anedotas, lengalengas, histórias cheias das mais incríveis aventuras, onde voava em balões de ar quente, combatia dragões, nadava no fundo do mar, à procura de tesouros afundados, viajava ao centro da terra, ao outro lado da lua e para lá da nossa galáxia.

Juntos, ele regressava às memórias da infância, momentos que achava perdidos. Um tempo em que nada lhe cansava a curiosidade. Quando o tempo não tinha tempo.

Os dias eram um agora para sempre, esticados desde a primeira luzinha da manhã ao último raio de luar. Piratas, gnomos, monstros, fadas, espelhos mágicos, sereias, bruxas, árvores tagarelas, todas as ideias cabiam na algibeira da imaginação.

Porém, um dia a netinha, mais crescida, mudou-se para uma casa maior, muito, muito longe da casa do avô. Este, por instantes, sentiu-se desanimado, mas depois lembrou-se de que para ver a menina dos seus olhos, apenas teria de os fechar.

Com ela, de mãos dadas, cansados de brincadeira e patetices, era criança outra vez.

Bruno Sousa Villar