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vergonha é NÃO ter grandes questões
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vila de reis e rainhas - visões do real
vila de reis e rainhas - bichinhos dos contos

vila de reis e rainhas - de mãos no barro
Óbidos inspira-me. Sinto-me uma magia peculiar pelas suas ruas, não apenas pela história e pelo seu deslumbrante património arquitectónico, mas pela dinâmica cultural que, desde há uns anos, cresce por lá. Vejo aparecer lojas e ateliers que apostam e recuperam artigos tradicionais e de artesanato, como a Olaria de S. Pedro, onde nos perdemos em conversas sobre técnicas e efeitos de cerâmica e onde me encantei com as peças coloridas de Sónia Borga (aqui alguns trabalhos em colaboração com Vitor Silva Santos) e cruzo-me com a cerâmica Raku, técnica de origem japonesa.
Cruzo-me depois com o trabalho da Ana Todo-Bom, ceramista das Caldas da Rainha que cria peças com extraordinários padrões e cores. Fiquei de voltar para adquirir uma peça sua.
Imagino como seria mudar a vida novamente, agora ali, longe de Lisboa, serena e de mãos no barro, uma hipótese, mais um sonho.
de mão em mão

Foi lá que encontrei um fabuloso conjunto de café da SECLA constituído por cinco chávenas, leiteira, açucareiro e bule. Encontrei ainda copos para água e licor Made in Portugal, cujo vidro possui cores e reflexos já difíceis de encontrar.
Em dias da produção em série, da falta de qualidade e dos preços acessíveis torna-se fácil comprar e renovar as louças e utensílios lá de casa. Tudo é efémero.
Mas há peças que resistem a este ritmo e ao passar acelerado do tempo. Peças que povoam as nossas memórias de infância como as caixinhas de toffees da Quality Street onde a minha avó guardava os botões, as agulhas e os alfinetes.
visa ou multibanco?

abrigos

A ela, de Lisboa, deixo Amália.
Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento
Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer
E nascemos, nascemos
Do nosso entristecer
Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento
Meu amor, meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento
Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós paramos o vento
Não sabemos nadar
E morremos, morremos
Devagar, devagar
a menina dos seus olhos
Em tempos, o avô-contador-de-histórias viveu com uma menina, morou com ela. Era sua neta, a menina dos seus olhos. Brincavam, riam às gargalhadas até doer a barriga, ensinava-lhe ditados, as letras, os números, a tabuada, contava-lhe anedotas, lengalengas, histórias cheias das mais incríveis aventuras, onde voava em balões de ar quente, combatia dragões, nadava no fundo do mar, à procura de tesouros afundados, viajava ao centro da terra, ao outro lado da lua e para lá da nossa galáxia.
Juntos, ele regressava às memórias da infância, momentos que achava perdidos. Um tempo em que nada lhe cansava a curiosidade. Quando o tempo não tinha tempo.
Os dias eram um agora para sempre, esticados desde a primeira luzinha da manhã ao último raio de luar. Piratas, gnomos, monstros, fadas, espelhos mágicos, sereias, bruxas, árvores tagarelas, todas as ideias cabiam na algibeira da imaginação.
Porém, um dia a netinha, mais crescida, mudou-se para uma casa maior, muito, muito longe da casa do avô. Este, por instantes, sentiu-se desanimado, mas depois lembrou-se de que para ver a menina dos seus olhos, apenas teria de os fechar.
Com ela, de mãos dadas, cansados de brincadeira e patetices, era criança outra vez.