de mão em mão


Em dias da fast-porcelain, dos packs de pratos quebradiços, copos frágeis, mas empilháveis, e da trágica falência das fábricas de cerâmica em Portugal, abriu aqui por perto um espaço para venda ao público de artigos em segunda-mão como forma de angariar fundos para terminar as obras da igreja local. Aqui são cedidas belíssimas peças de louça, livros, revistas, bijutaria, roupa, candeeiros para venda a preços simbólicos.

Foi lá que encontrei um fabuloso conjunto de café da SECLA constituído por cinco chávenas, leiteira, açucareiro e bule. Encontrei ainda copos para água e licor Made in Portugal, cujo vidro possui cores e reflexos já difíceis de encontrar.

Em dias da produção em série, da falta de qualidade e dos preços acessíveis torna-se fácil comprar e renovar as louças e utensílios lá de casa. Tudo é efémero.

Mas há peças que resistem a este ritmo e ao passar acelerado do tempo. Peças que povoam as nossas memórias de infância como as caixinhas de toffees da Quality Street onde a minha avó guardava os botões, as agulhas e os alfinetes.

visa ou multibanco?

Há uns meses, depois de algumas decepções, decidi suspender a minha actividade enquanto arquitecta. Optei por afastar-me desse meio de forma a perceber que tipo de trabalho, relações profissionais, horários e conteúdos que preciso e de que não preciso certamente. Vou agora encontrando-os.
No início deste ano estou confiante que, apesar dos contratempos que insistem em surgir, o meu projecto com a Patrícia e com o João, Memórias de Cor, e o outro com Bruno, Meninos de Bolso, dando tréguas aos meses de desemprego e indecisão em que me vi envolvida.
Entretanto, conceitos como puericultura, motricidade fina, peluches, andarilhos, mobiles musicais, cubos de actividades, luzes, sons, equilíbrio, habilidade, inventários, aberturas e fechos de caixas vão preenchendo os meus dias numa outra casa-azul (como já ouvi pequeninos chamar) que não a minha, repleta de estímulos para as minhas ilustrações e para os contos infantis. Para os projectos que estão para concretizar.


abrigos


saliência; pico; ferrão
espinho; extremidade aguda e picante.
impressão dolorosa e desagradável; comichão; ardor

(fonte:blitz.aeiou.pt)

Dias antes apeteceu-me ouvi-la, coloquei o CD na aparelhagem mas, de tanto o ouvir, deu um erro. La Llorona estava riscado. Não a ouvi nesse dia, mas recordei o seu concerto de 2004 em Lisboa e voltei-me a emocionar ao descrever o deslumbramento em que a ouvi homenagear Amália Rodrigues com o fado Meu Amor, Meu Amor, escrito por Ary dos Santos.

Lhasa de Sela morreu dias depois. 

A ela, de Lisboa, deixo Amália.


Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento

Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer

E nascemos, nascemos
Do nosso entristecer

Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento

Meu amor, meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento

Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós paramos o vento
Não sabemos nadar

E morremos, morremos
Devagar, devagar

a menina dos seus olhos


Em tempos, o avô-contador-de-histórias viveu com uma menina, morou com ela. Era sua neta, a menina dos seus olhos. Brincavam, riam às gargalhadas até doer a barriga, ensinava-lhe ditados, as letras, os números, a tabuada, contava-lhe anedotas, lengalengas, histórias cheias das mais incríveis aventuras, onde voava em balões de ar quente, combatia dragões, nadava no fundo do mar, à procura de tesouros afundados, viajava ao centro da terra, ao outro lado da lua e para lá da nossa galáxia.

Juntos, ele regressava às memórias da infância, momentos que achava perdidos. Um tempo em que nada lhe cansava a curiosidade. Quando o tempo não tinha tempo.

Os dias eram um agora para sempre, esticados desde a primeira luzinha da manhã ao último raio de luar. Piratas, gnomos, monstros, fadas, espelhos mágicos, sereias, bruxas, árvores tagarelas, todas as ideias cabiam na algibeira da imaginação.

Porém, um dia a netinha, mais crescida, mudou-se para uma casa maior, muito, muito longe da casa do avô. Este, por instantes, sentiu-se desanimado, mas depois lembrou-se de que para ver a menina dos seus olhos, apenas teria de os fechar.

Com ela, de mãos dadas, cansados de brincadeira e patetices, era criança outra vez.

Bruno Sousa Villar

curiosidade com corda


Certa manhã, um menino curioso, vestiu a camisola do tempo, deu corda ao relógio de ponteiros pontiagudos e saiu à rua à boleia do vento.
Atravessou praças e largos, desviou-se de becos escuros e procurou em todas as montras algo mais que medisse com precisão a passagem do tempo. Tempo que sentia passar por si como um sopro de ar, fugaz, esguio.
Encontrou uma ampulheta e com ela foi ao outro lado da cidade, aquele que fica para lá do rio e do castelo. Pairou sobre os quarteirões da zona antiga, espreitou as casas, os museus, os palácios, as estátuas.
Olhou a ampulheta e sentiu um calafrio. Verificou no relógio que as horas passavam a correr, sem dar tréguas à sua curiosidade em conhecer todos os recantos, sentir todas as cores e texturas da cidade. Deu-se conta, dolorosamente, do tempo à sua frente à medida que via a sua pequena sombra crescer lá em baixo na calçada. Desejava aproveitar todos os segundos da sua breve viagem. Temia não o conseguir.
Começou a flutuar delicadamente por cima dos telhados, afastando-se com cuidado das antenas de televisão, dos ninhos de pássaros, das chaminés fumegantes.
Percorreu de novo as ruas, atravessou praças e largos, desviou-se de becos agora ainda mais escuros.
Fez-se noite, uma noite fria.
Encantado, contemplou de saída, à velocidade do vento, a cidade iluminada. Sorrindo sentiu a geada cair sobre os espantalhos dos campos semeados, os pomares coloridos, os caminhos-de-ferro.
E, aceitando o tempo, realizado e feliz, o menino-bolha-de-sabão dissipa-se no ar, rumo às montanhas.

Cristina Ruivo

mundos de algibeira

Os meninos de bolso vivem resguardados num pequenino mundo paralelo em forma de algibeira, daquelas onde, prudentes, transportamos as coisas mais valiosas .
Estes meninos não querem crescer, como os adultos cheios de tiques e tremeliques, para não perderem a vontade de sonhar, imaginar, rir, criar, conhecer, espreitar, explorar, arriscar.
Então fugiram para um bolso de um camiseiro de um avô-contador-de-histórias, esquecido num guarda-fatos tão antigo cujas portas já chiavam.
Fundaram uma comunidade secreta de contos, gargalhadas e brincadeiras.
Com o passar do tempo foram aparecendo meninos de terras distantes, com malas, animais de estimação e frutas predilectas, tamanhos, feitios, cores e peculiares formas de olhar o mundo.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

memória


Tal como nos filmes de Godard, dois adultos corriam pela rua de mãos dadas, desta vez em direcção a um supermercado sufocado: alimentos, detergentes, promoções.
Chilrear. Ambos pararam surpresos com as aves que levantavam voo das árvores daquela quinta centenária.
- São estorninhos, voam assim em bando, formando este efeito maravilhoso.
- Olha aqueles ali com a cauda tão comprida... parecem papagaios! Que pena não ter comigo a máquina fotográfica, daria uma grande fotografia este céu... Bolas, esta necessidade de registar estes momentos chega a ser doentia, porque não me me concentro apenas em contemplá-los?
- Pois...a memória deveria bastar, ela já os regista. Mas já reparaste que que por vezes ela é matreira e "embeleza" um momento que talvez não tenha sido assim tão belo?
- Não concordo! O momento foi tão belo como a memória o recorda, contudo enquanto o vivíamos estávamos demasiado apressados, extasiados, com medo que se ele se escapasse.
- Pois é, com medo que terminasse, fugisse do nosso campo de contemplação.
- Sim, com medo que os pássaros voem demasiado rápido.

{azul- laranja}


Instante.
Naquele dia, num simples e muito breve instante, o mundo reuniu as cores certas.


A Terra é Azul
A terra é azul como uma laranja
Jamais um erro as palavras não mentem
Elas não lhe dão mais para cantar
Na volta dos beijos para se entender
Os loucos e os amores
Ela sua boca de aliança
Todos os segredos todos os sorrisos
E que roupagens de indulgência
Para acreditá-la inteiramente nua

As vespas florescem verde
A aurora se enrola no pescoço
Um colar de janelas
Asas cobrem as folhas
Você tem todas as alegrias solares
Todo o sol sobre a terra
Sobre os caminhos da sua beleza

Paul Éluard

somewhere over the rainbow we have nice shoes

Posso não ter sapatinhos vermelhos. Posso não caminhar na estrada de tijolos dourados rumo à Cidade Esmeralda, mas encontrei uns sapatinhos que sonham, coloridos, ao lado dos meus.
Afinal é verdade, os sapatos dizem muito de quem os calça.