curiosidade com corda


Certa manhã, um menino curioso, vestiu a camisola do tempo, deu corda ao relógio de ponteiros pontiagudos e saiu à rua à boleia do vento.
Atravessou praças e largos, desviou-se de becos escuros e procurou em todas as montras algo mais que medisse com precisão a passagem do tempo. Tempo que sentia passar por si como um sopro de ar, fugaz, esguio.
Encontrou uma ampulheta e com ela foi ao outro lado da cidade, aquele que fica para lá do rio e do castelo. Pairou sobre os quarteirões da zona antiga, espreitou as casas, os museus, os palácios, as estátuas.
Olhou a ampulheta e sentiu um calafrio. Verificou no relógio que as horas passavam a correr, sem dar tréguas à sua curiosidade em conhecer todos os recantos, sentir todas as cores e texturas da cidade. Deu-se conta, dolorosamente, do tempo à sua frente à medida que via a sua pequena sombra crescer lá em baixo na calçada. Desejava aproveitar todos os segundos da sua breve viagem. Temia não o conseguir.
Começou a flutuar delicadamente por cima dos telhados, afastando-se com cuidado das antenas de televisão, dos ninhos de pássaros, das chaminés fumegantes.
Percorreu de novo as ruas, atravessou praças e largos, desviou-se de becos agora ainda mais escuros.
Fez-se noite, uma noite fria.
Encantado, contemplou de saída, à velocidade do vento, a cidade iluminada. Sorrindo sentiu a geada cair sobre os espantalhos dos campos semeados, os pomares coloridos, os caminhos-de-ferro.
E, aceitando o tempo, realizado e feliz, o menino-bolha-de-sabão dissipa-se no ar, rumo às montanhas.

Cristina Ruivo

mundos de algibeira

Os meninos de bolso vivem resguardados num pequenino mundo paralelo em forma de algibeira, daquelas onde, prudentes, transportamos as coisas mais valiosas .
Estes meninos não querem crescer, como os adultos cheios de tiques e tremeliques, para não perderem a vontade de sonhar, imaginar, rir, criar, conhecer, espreitar, explorar, arriscar.
Então fugiram para um bolso de um camiseiro de um avô-contador-de-histórias, esquecido num guarda-fatos tão antigo cujas portas já chiavam.
Fundaram uma comunidade secreta de contos, gargalhadas e brincadeiras.
Com o passar do tempo foram aparecendo meninos de terras distantes, com malas, animais de estimação e frutas predilectas, tamanhos, feitios, cores e peculiares formas de olhar o mundo.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

memória


Tal como nos filmes de Godard, dois adultos corriam pela rua de mãos dadas, desta vez em direcção a um supermercado sufocado: alimentos, detergentes, promoções.
Chilrear. Ambos pararam surpresos com as aves que levantavam voo das árvores daquela quinta centenária.
- São estorninhos, voam assim em bando, formando este efeito maravilhoso.
- Olha aqueles ali com a cauda tão comprida... parecem papagaios! Que pena não ter comigo a máquina fotográfica, daria uma grande fotografia este céu... Bolas, esta necessidade de registar estes momentos chega a ser doentia, porque não me me concentro apenas em contemplá-los?
- Pois...a memória deveria bastar, ela já os regista. Mas já reparaste que que por vezes ela é matreira e "embeleza" um momento que talvez não tenha sido assim tão belo?
- Não concordo! O momento foi tão belo como a memória o recorda, contudo enquanto o vivíamos estávamos demasiado apressados, extasiados, com medo que se ele se escapasse.
- Pois é, com medo que terminasse, fugisse do nosso campo de contemplação.
- Sim, com medo que os pássaros voem demasiado rápido.

{azul- laranja}


Instante.
Naquele dia, num simples e muito breve instante, o mundo reuniu as cores certas.


A Terra é Azul
A terra é azul como uma laranja
Jamais um erro as palavras não mentem
Elas não lhe dão mais para cantar
Na volta dos beijos para se entender
Os loucos e os amores
Ela sua boca de aliança
Todos os segredos todos os sorrisos
E que roupagens de indulgência
Para acreditá-la inteiramente nua

As vespas florescem verde
A aurora se enrola no pescoço
Um colar de janelas
Asas cobrem as folhas
Você tem todas as alegrias solares
Todo o sol sobre a terra
Sobre os caminhos da sua beleza

Paul Éluard

somewhere over the rainbow we have nice shoes

Posso não ter sapatinhos vermelhos. Posso não caminhar na estrada de tijolos dourados rumo à Cidade Esmeralda, mas encontrei uns sapatinhos que sonham, coloridos, ao lado dos meus.
Afinal é verdade, os sapatos dizem muito de quem os calça.

a experiência do sublime


Suspendemos a respiração. Encontrámos naquele céu um objecto estético puro, depurado, purificador.
Parámos o carro e deixámo-nos ser arrebatados pelo testemunho da nossa frágil existência, esmagados pela nossa finitude.
A euforia de existir diante de tamanha grandeza, de tamanho poder.

presença


Na ausência, a tua presença não corpórea senta-se ao meu lado, dá-me a mão com essa tua ternura, envolve a casa, caminha comigo na rua e acompanha-me em tudo o que faço.
Depois de ti, ela fica sempre aqui. Enérgica, magnética. Sinto-a em todos os recantos. Sinto-a a meu lado, a respirar, a rir, a olhar-me. Sinto-a abraça-me ao adormecer, a rir ao cozinhar.
Por vezes é tão intensa que tendo a chamar-te, a procurar-te no quarto, a olhar para o lado no carro e falar contigo em voz alta.
Por vezes estás aqui tão forte que choro a felicidade de te ter e a saudade de não te poder ver, por um dia que seja.
Há pouco sentia-te mais uma vez por aqui, entrei na sala e encontrei-te sentado no sofá.

betacianina, a cor do ferro e da força

Hoje cá em casa cheirou a terra.
Originária da região mediterrânica, a beterraba destaca-se pela riqueza em ferro, açúcar, proteínas, vitaminas A, B1, B2, B5, C, potássio, sódio, fósforo, cálcio, zinco, magnésio e ácido fólico.
Estes amigos tubérculos estimulam o sistema linfático, fortalecem o sistema imunitário, purificam e tonificam o sangue.
O seu poderoso vermelho deve-se a um pigmento chamado betacianina.

um, dois, três, encontro-te, um, dois, três


Se se permitirem serem tocadas, as bolhas, reagindo umas a outras, alteram o ADN, evoluem, tornam-se outra coisa que só faz sentido de ser num conjunto de individualidades, como numa valsa, mudando de par, sem nunca o movimento perder fluidez.
Uma dança de encontros e de desencontros.
Juntas, pela sua natureza, atraem-se, repelem-se, destroem-se, tentam-se reconstruir. Contudo permanecem unidas. Giram sobre si próprias.
A cada oscilação da água, uma bolha observa outras deixarem de ser, diluindo-se num líquido uniforme, também ele, transformado, enquanto mais bolhas como esta, se lhe juntam, quebrando em nome de um desígnio maior. Desmetaforizando: somos as bolhas, ao mesmo tempo conservando a nossa individualidade – mutável, frágil, abrindo-nos aos outros, como nós, numa eterna valsa de metamorfoses mútuas.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

aquelas pessoas não como nós


Num turbilhão nervoso de pessoas agitadas, loucamente perturbadas, alienadas, que corriam, esbracejavam, gritavam, acotovelavam-se, ele diz:
" Acalma-te, acalma-te, tens que te lembrar que estas pessoas também vivem no mesmo mundo que nós."
Ela nervosa, abalada, diz:
" Sim, mas podiam viver noutro horário."