memória


Tal como nos filmes de Godard, dois adultos corriam pela rua de mãos dadas, desta vez em direcção a um supermercado sufocado: alimentos, detergentes, promoções.
Chilrear. Ambos pararam surpresos com as aves que levantavam voo das árvores daquela quinta centenária.
- São estorninhos, voam assim em bando, formando este efeito maravilhoso.
- Olha aqueles ali com a cauda tão comprida... parecem papagaios! Que pena não ter comigo a máquina fotográfica, daria uma grande fotografia este céu... Bolas, esta necessidade de registar estes momentos chega a ser doentia, porque não me me concentro apenas em contemplá-los?
- Pois...a memória deveria bastar, ela já os regista. Mas já reparaste que que por vezes ela é matreira e "embeleza" um momento que talvez não tenha sido assim tão belo?
- Não concordo! O momento foi tão belo como a memória o recorda, contudo enquanto o vivíamos estávamos demasiado apressados, extasiados, com medo que se ele se escapasse.
- Pois é, com medo que terminasse, fugisse do nosso campo de contemplação.
- Sim, com medo que os pássaros voem demasiado rápido.

{azul- laranja}


Instante.
Naquele dia, num simples e muito breve instante, o mundo reuniu as cores certas.


A Terra é Azul
A terra é azul como uma laranja
Jamais um erro as palavras não mentem
Elas não lhe dão mais para cantar
Na volta dos beijos para se entender
Os loucos e os amores
Ela sua boca de aliança
Todos os segredos todos os sorrisos
E que roupagens de indulgência
Para acreditá-la inteiramente nua

As vespas florescem verde
A aurora se enrola no pescoço
Um colar de janelas
Asas cobrem as folhas
Você tem todas as alegrias solares
Todo o sol sobre a terra
Sobre os caminhos da sua beleza

Paul Éluard

somewhere over the rainbow we have nice shoes

Posso não ter sapatinhos vermelhos. Posso não caminhar na estrada de tijolos dourados rumo à Cidade Esmeralda, mas encontrei uns sapatinhos que sonham, coloridos, ao lado dos meus.
Afinal é verdade, os sapatos dizem muito de quem os calça.

a experiência do sublime


Suspendemos a respiração. Encontrámos naquele céu um objecto estético puro, depurado, purificador.
Parámos o carro e deixámo-nos ser arrebatados pelo testemunho da nossa frágil existência, esmagados pela nossa finitude.
A euforia de existir diante de tamanha grandeza, de tamanho poder.

presença


Na ausência, a tua presença não corpórea senta-se ao meu lado, dá-me a mão com essa tua ternura, envolve a casa, caminha comigo na rua e acompanha-me em tudo o que faço.
Depois de ti, ela fica sempre aqui. Enérgica, magnética. Sinto-a em todos os recantos. Sinto-a a meu lado, a respirar, a rir, a olhar-me. Sinto-a abraça-me ao adormecer, a rir ao cozinhar.
Por vezes é tão intensa que tendo a chamar-te, a procurar-te no quarto, a olhar para o lado no carro e falar contigo em voz alta.
Por vezes estás aqui tão forte que choro a felicidade de te ter e a saudade de não te poder ver, por um dia que seja.
Há pouco sentia-te mais uma vez por aqui, entrei na sala e encontrei-te sentado no sofá.

betacianina, a cor do ferro e da força

Hoje cá em casa cheirou a terra.
Originária da região mediterrânica, a beterraba destaca-se pela riqueza em ferro, açúcar, proteínas, vitaminas A, B1, B2, B5, C, potássio, sódio, fósforo, cálcio, zinco, magnésio e ácido fólico.
Estes amigos tubérculos estimulam o sistema linfático, fortalecem o sistema imunitário, purificam e tonificam o sangue.
O seu poderoso vermelho deve-se a um pigmento chamado betacianina.

um, dois, três, encontro-te, um, dois, três


Se se permitirem serem tocadas, as bolhas, reagindo umas a outras, alteram o ADN, evoluem, tornam-se outra coisa que só faz sentido de ser num conjunto de individualidades, como numa valsa, mudando de par, sem nunca o movimento perder fluidez.
Uma dança de encontros e de desencontros.
Juntas, pela sua natureza, atraem-se, repelem-se, destroem-se, tentam-se reconstruir. Contudo permanecem unidas. Giram sobre si próprias.
A cada oscilação da água, uma bolha observa outras deixarem de ser, diluindo-se num líquido uniforme, também ele, transformado, enquanto mais bolhas como esta, se lhe juntam, quebrando em nome de um desígnio maior. Desmetaforizando: somos as bolhas, ao mesmo tempo conservando a nossa individualidade – mutável, frágil, abrindo-nos aos outros, como nós, numa eterna valsa de metamorfoses mútuas.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

aquelas pessoas não como nós


Num turbilhão nervoso de pessoas agitadas, loucamente perturbadas, alienadas, que corriam, esbracejavam, gritavam, acotovelavam-se, ele diz:
" Acalma-te, acalma-te, tens que te lembrar que estas pessoas também vivem no mesmo mundo que nós."
Ela nervosa, abalada, diz:
" Sim, mas podiam viver noutro horário."


n.º 38

Por entre a azafama turística dos restaurantes com empregados multilingues, que nos empurram competitivamente ementas de peixe fresco enquanto caminhamos, encontro a porta n.º 38.
Longe das ementas plastificadas, dos empregados suspeitamente simpáticos, astutos, encontro pormenores esquecidos pela massificação turística daquela zona. Lamentarei o dia em que esta porta seja substituída por mais uma pivotante, em vidro, laminado, temperado, de alta segurança, com ferragens em inox escovado, fechos electromagnéticos, publicidade em vinil autocolante e sistema de alarme.

Esta porta mantém-se resistente, timidamente sufocada pelo ruído da rua pela qual detesto passar. Onde me sinto longe de Lisboa.
A sua fechadura sela segredos, cantigas, orações, lágrimas e as suas camadas de tintas conversam entre si acerca daquela e da outra história. Da vez que foi lançada irada, magoando-se com o estrondo; da vez que se abriu suavemente para um intenso beijo apaixonado, das cócegas das crianças que corriam para dentro e para fora, dos gatos, dos pombos, do senhora que consigo esperava o marido ao final da tarde... Relembram cada mão que a tocou, cada momento que testemunhou.

Porta-memórias.


mirtilo ♥ kiwi

Aqui por casa os pratos são coloridos para melhor receber as inesperadas cores que surgem.
As refeições tornam-se, por vezes, um jogo cromático. Hoje verti iogurte de mirtilos numa taça azul tranquilo, olhei para a fruteira (recheada pela minha incursão à nova frutaria do bairro) e tentei escolher a cor mais improvável. Elegi o kiwi, que pena não ter trazido manga.
Do meu delicioso lanche surgiram as seguintes paletas, um dia responsáveis por um padrão.