presença


Na ausência, a tua presença não corpórea senta-se ao meu lado, dá-me a mão com essa tua ternura, envolve a casa, caminha comigo na rua e acompanha-me em tudo o que faço.
Depois de ti, ela fica sempre aqui. Enérgica, magnética. Sinto-a em todos os recantos. Sinto-a a meu lado, a respirar, a rir, a olhar-me. Sinto-a abraça-me ao adormecer, a rir ao cozinhar.
Por vezes é tão intensa que tendo a chamar-te, a procurar-te no quarto, a olhar para o lado no carro e falar contigo em voz alta.
Por vezes estás aqui tão forte que choro a felicidade de te ter e a saudade de não te poder ver, por um dia que seja.
Há pouco sentia-te mais uma vez por aqui, entrei na sala e encontrei-te sentado no sofá.

betacianina, a cor do ferro e da força

Hoje cá em casa cheirou a terra.
Originária da região mediterrânica, a beterraba destaca-se pela riqueza em ferro, açúcar, proteínas, vitaminas A, B1, B2, B5, C, potássio, sódio, fósforo, cálcio, zinco, magnésio e ácido fólico.
Estes amigos tubérculos estimulam o sistema linfático, fortalecem o sistema imunitário, purificam e tonificam o sangue.
O seu poderoso vermelho deve-se a um pigmento chamado betacianina.

um, dois, três, encontro-te, um, dois, três


Se se permitirem serem tocadas, as bolhas, reagindo umas a outras, alteram o ADN, evoluem, tornam-se outra coisa que só faz sentido de ser num conjunto de individualidades, como numa valsa, mudando de par, sem nunca o movimento perder fluidez.
Uma dança de encontros e de desencontros.
Juntas, pela sua natureza, atraem-se, repelem-se, destroem-se, tentam-se reconstruir. Contudo permanecem unidas. Giram sobre si próprias.
A cada oscilação da água, uma bolha observa outras deixarem de ser, diluindo-se num líquido uniforme, também ele, transformado, enquanto mais bolhas como esta, se lhe juntam, quebrando em nome de um desígnio maior. Desmetaforizando: somos as bolhas, ao mesmo tempo conservando a nossa individualidade – mutável, frágil, abrindo-nos aos outros, como nós, numa eterna valsa de metamorfoses mútuas.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

aquelas pessoas não como nós


Num turbilhão nervoso de pessoas agitadas, loucamente perturbadas, alienadas, que corriam, esbracejavam, gritavam, acotovelavam-se, ele diz:
" Acalma-te, acalma-te, tens que te lembrar que estas pessoas também vivem no mesmo mundo que nós."
Ela nervosa, abalada, diz:
" Sim, mas podiam viver noutro horário."


n.º 38

Por entre a azafama turística dos restaurantes com empregados multilingues, que nos empurram competitivamente ementas de peixe fresco enquanto caminhamos, encontro a porta n.º 38.
Longe das ementas plastificadas, dos empregados suspeitamente simpáticos, astutos, encontro pormenores esquecidos pela massificação turística daquela zona. Lamentarei o dia em que esta porta seja substituída por mais uma pivotante, em vidro, laminado, temperado, de alta segurança, com ferragens em inox escovado, fechos electromagnéticos, publicidade em vinil autocolante e sistema de alarme.

Esta porta mantém-se resistente, timidamente sufocada pelo ruído da rua pela qual detesto passar. Onde me sinto longe de Lisboa.
A sua fechadura sela segredos, cantigas, orações, lágrimas e as suas camadas de tintas conversam entre si acerca daquela e da outra história. Da vez que foi lançada irada, magoando-se com o estrondo; da vez que se abriu suavemente para um intenso beijo apaixonado, das cócegas das crianças que corriam para dentro e para fora, dos gatos, dos pombos, do senhora que consigo esperava o marido ao final da tarde... Relembram cada mão que a tocou, cada momento que testemunhou.

Porta-memórias.


mirtilo ♥ kiwi

Aqui por casa os pratos são coloridos para melhor receber as inesperadas cores que surgem.
As refeições tornam-se, por vezes, um jogo cromático. Hoje verti iogurte de mirtilos numa taça azul tranquilo, olhei para a fruteira (recheada pela minha incursão à nova frutaria do bairro) e tentei escolher a cor mais improvável. Elegi o kiwi, que pena não ter trazido manga.
Do meu delicioso lanche surgiram as seguintes paletas, um dia responsáveis por um padrão.

O menino dança?


Uma espiral onde rodopiam fragmentos de desilusões, esvoaçam cacos de medos e poeiras dolorosas. No tornado de memórias damos as mãos, nas costas alguma bagagem, cada passado, cada presente, cada futuro.
Eu aperto as tuas mãos fortemente. Se as sentires tremer, nervosas, fragilizadas, não as largues assustado, aperta-as vigorosamente até tranquilizarem. Farei o mesmo com as tuas.
Neste ciclone de vivências enlaçamos assim os nossos corpos numa dança de feridas. Juntos para as sarar, tempo a tempo.
Instalação Cromotime por Belíssimo - Experimenta Design'09
"Tendo dois pressupostos como ponto de partida – a subjectividade da medida e gestão do tempo, e a existência de três categorias temporais (passado, presente e futuro) –, Cromotime é uma instalação, uma experiência cujo objectivo é partilhar uma noção harmoniosa de tempo. (...)
A percepção de tempo está muitas vezes ligada aos nossos movimentos, como mostrou Einstein. O movimento é o eixo principal desta experiência, a que se juntam som e vídeo, para alcançar a sincronização e a unidade."
fonte : aqui
Este video mostra a instalação.

uma jóia que faz jóias

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Não resisto aos brincos desta minha jóia e neste domingo, apesar da minha paupérrima situação financeira, comprei à Maria do Mar uns quantos brincos. Difícil foi decidir, ela tem trabalhos absolutamente fabulosos que podem ser vistos aqui e aqui.

"O teu verbo é andar"


disse-me ele.
E agora não consigo andar senão com ele.

Big Time Sensuality

Lovers in an upstairs room - Kitagawa Utamaro (1788)
Girl Powdering Her Neck - Kitagawa Utamaro (1790)
Lovers behind Umbrella - Kitagawa Utamaro (Ca. 1798-1802)

We just met
And I know I'm a bit too intimate
But something huge is coming up
And we're both included.
Bjork

Simplesmente, obrigada.