espanto!


Alguns de vocês conhecem o meu espanto por céus e não estranham que pare na rua a comentar as nuvens.
Hoje, enquanto descarregava o carro com uma pilha de caixotes, vi um rapazinho muito pequeno, pasmado a apontar para a púrpura do pôr-do-sol.
- Ó mãe, anda mais devarinho! Olha o céu está mesmo mesmo lindo!
- Vá, agora não, anda rápido que já estamos mas é atrasados.
Porque não agora, mãe? Pudera eu ter coragem para desautorizar aquela mãe-acelerada, desencantada, e contemplar com o rapazinho aquele fabuloso céu. Em casa fui à varanda vê-lo melhor e, apesar da pressa, do vento e da fome, permaneci por ali algum tempo sentada.
Estava mesmo mesmo lindo, puto!

psicose em wc (para arquitectos: I.S.)


Confesso, possivelmente atravesso dias sadicamente violentos que tento esconder atrás da porta da casa-de-banho...
Para além da cortina que reproduz a sombra do homem da faca de Psico de Hitchcock (que vi há uns tempos na Tom Tom Shop), gostava igualmente de trespassar a porta com as facas (cabide) da TC Studio.

(Fonte: TC Studio)

Haverá certamente uma explicação para este meu propósito.

pouco o conheço


Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça, em vida, em força, em luz

Céu azul que vem
Até onde os pés tocam a terra
E a terra inspira e exala seus azuis

Reza, reza o rio
Córrego pro rio e o rio pro mar
Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia
Marcha o homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão essa delicadeza
A coisa mais querida, a glória da vida

Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça, em vida, em força, em luz

Caetano Veloso, Luz do Sol

graça

Não é a primeira vez que o que me perturba num filme não é ele em si, mas antes a impertinência da plateia.

Sem dúvida que Inglourious Bastards possui diálogos fabulosos, negros, sarcásticos e cenas absolutamente hilariantes, mas o curioso é que não era isso que fazia rir compulsivamente dezenas de pessoas que partilhavam comigo a sessão. Riam-se automaticamente a qualquer estímulo, a cada palavrão; riam-se com as cenas mais agressivas e perturbadoras, com as medonhas trucidardes sem escrúpulos e com as repulsivas extracções dos escalpes dos soldados nazis! Não quero dizer que considere desnecessária a violência do filme, acho-a perfeitamente justificada pela brutalidade do tema, mas custa-me ouvir pessoas a rir dos horrores que aquela representa. Ali estava uma mão-cheia de autómatos inconscientes que vêem em Tarantino o génio extravagante, venerável por inserir elementos vibrantes, personagens excêntricas e bandas sonoras atrevidas. Consideram-no um comediante...e dos ocos. Aprecio o seu humor acutilante, que considero pertinente, e acredito que as cenas de violência que concebe (falo particularmente deste filme) não são desinteressadas, levianas, nem próprias da gratuitidade frívola que imperava naquela sala.

Este episódio e aquele que vivi há uns anos no cinema com o Kill Bill I (repleto de gargalhadas igualmente bizarras) levam-me a pensar que Tarantino caiu antes nas graças de um público extraordinariamente perverso, esquisito, desinformado, que graceja maniacamente com actos de crueldade.

Ele, na cena do cinema francês (divinal! a melhor que vi de Tarantino) igualmente incomodado com esta notória falta de sensibilidade, sussurra-me: "Depois lembra-me para falar desta cena com Hitler a rir". Já lá fora faz com esta cena um reparo notável. Hitler assiste no cinema a um filme de propaganda nazi onde se ri de forma perversa da violência contra os soldados aliados, na sala do cinema francês todos riem sadicamente com ele, congratulando o realizador por aquele excelente trabalho (que expõe uma violenta matança levada a cabo por um soldado alemão, um herói de guerra). Perante esta cena, na sala do Monumental paira agora um silêncio sepulcral; pouco riam-se descomedidamente de actos bárbaros semelhantes mas praticados contra nazis. Tarantino poderia estar a “brincar” com o próprio público, alertando-o para o facto de este poder ser de tal forma frívolo e vazio que ri mecanicamente de acontecimentos moralmente condenáveis, sem qualquer tipo de reflexão. Com esta cena ele poderá pretender igualmente chocar esse público estupidamente tendenciosos, alertando-o para o facto de ser capaz de aceitar a crueldade com valentes e orgulhosas gargalhadas quando vista de um lado, considerando-a embaraçosa e constrangedora quando vista do outro lado da barricada. Faz sentido.

No final, saía da sala perplexa com este fenómeno e oiço esta conversa:

- Então gostaste?

- Sim! (um "sim" eufórico) Teve imensa graça!

...Hum?...graça? ... de graciosidade, elegância, encanto? ... de piada, diversão, simpatia, comédia?

Não percebo...


Não que o tenha praticado, mas... que
cor terá o pecado ?!

Onde o arranjo?


Adoraria ter este cartaz na minha casa nova. Seria colocado num local estratégico para que todos os dias revivesse a inspiração e a determinação que o filme me trouxe.
Casa nova, inspiração simples! Como temo acinzentar-me pelo caminho, preciso que o contributo deste filme seja recordado e constantemente celebrado. No fundo, não é somente o filme que vejo neste cartaz, vejo sobretudo ali Agnès, com quem tanto me identifiquei.
Onde o conseguirei arranjar? ... faltou-me a coragem de o pedir no cinema.

coisas simples


Numa tarde de sol (e muito calor), na pequena aldeia onde a minha avó nasceu, descobri deliciosos pormenores capazes de satisfazer a minha inexplicável fixação por texturas e cores.
Ferrugem, tintas a descascar, madeira ressequida, musgo, barro, terra, cal, cascas... observo a luz a cintilar, a sua vibração nas superfícies e as improváveis composições cromáticas dos materiais gastos, secos, expostos há demasiado tempo à chuva, ao vento e ao sol.
Uma tarde simples.

vespa, lagarto, serpente



Eu: Já leste o livro que te ofereci?
Ele: Não...
Eu: Hummm...Se continuares assim sem ler quando fores crescido vais mesmo falar como o Cristiano Ronaldo.
Ele: Fogo! ... "ah pois , portantos"... eu quando tiver a idade dele já não vou dar tantos erros, podes ter a certeza, até porque agora vamos escrever uma história.

"O Luís era um lagarto e a Cristina uma vespa. Uma vespa de uma só cor. Depois foi ao médico pedir medicamentos para ficar às riscas amarelas e pretas. Eles tinham uma camioneta e uma amiga chamada Marta, que era uma serpente que caiu pelo tubo de escape e foi fazer surf numa folha de uma árvore na praia."

Guerrilla Girls - Reinventing the F word (feminism)

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Nas últimas décadas surgiram vários colectivos de mulheres artistas como as Guerrilla Girls que assumiram um importante papel social na reflexão do estatuto feminino na arte contemporânea.
Nos últimos 20 anos, as Guerrilla Girls têm vindo a reivindicar os mesmos direitos para mulheres artistas, assim como para artistas de cor, que os artistas homens e de raça branca possuem no meio artístico.