inspirar, expirar


Há dias de cores estridentes, saturação elevada. Cores que acompanham o pulsar do sangue e com ele trazem o trepidar de sonhos extravagantes, conversas dinâmicas, vigorosas, fantasias arrojadas, encontros apaixonados, inesperados, descobertas audazes, deambulações inexplicáveis. Imprudência, ousadia, risco. Cores emotivas.
Há dias de cores sossegadas, baixa saturação. Cores que dançam em tímidas cintilações com os sonhos lançados e trazem-nos a expansão, o desenvolvimento. Lançam prudentes avanços, cautelosos recuos, questões, análises, resoluções. Fazem-nos aguardar, reservar, por vezes temer. Ponderação, atenção, balanço. Cores racionais.
O espectro cromático repousa nas nossas mãos, dia após dia. À semelhança da mistura das cores complementares, também nós encerramos matérias contrastantes que quando cuidadosamente distribuídas originam formas de absoluta pureza.
Por vezes é necessário olhar de longe o frenesim das cores que poderão queimar a vista quando observadas em intensas e impacientes temporadas. Retiro. Oxigenação. Outras sentimos falta do seu toque quente e nervoso. Proximidade. Intensificação.
Vivo dias de um ávido retiro, pouco tenho a dizer e de nada me apetece falar. Contudo, hoje vesti-me de amarelo corajoso e fiz questão em me complementar: falei, falei, falei.
Era já necessário.

amor necessário

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
O amor entre eles era um amor necessário, dizia Sartre. Um amor ético, não moral. Um amor não possessivo.

terra, areia ?


Hoje o meu dia nasceu nublado.
Lá fora o céu vestiu-se repentinamente com um cinzento estranhamente aborrecido, contrariado, arreliado. Geralmente gosto de dias assim, melancólicos e reflexivos, mas este teve um inquietante cinzento mau feitio que me perturbou. Um cinzento contaminado, infeccioso. Cinzento aflição.
Como num road movie encontrei na estrada a minha fuga.

Caminhei, caminhei, caminhei.
Precisava do campo, longe da insipidez da praia. Procurava uma paisagem contida, limitada, habitada. Afastei-me até não sentir mais presença humana. Insectos atemorizadores, hortas, arcaicos sistemas de rega, abóboras, batatas, couves rendilhadas pelos caracóis, pereiras, videiras, margaridas, papoilas, capoeiras, um burro, tractores.
Terra molhada.
Caminhei mais um pouco até me perder, assustei-me e voltei para procurar consolo na azáfama humana. Precisava agora de paisagens extensas, hostis.
Caminhei, caminhei, caminhei. Perfurei as dunas e perdi de vista a extensa amplitude da baía.
Sal, algas, horizonte, gaivotas, pulgas-do-mar, maresia, pessoas.
Areia molhada.

vida filosófica


Ontem na praia deparei-me com um texto de Michel Onfray capaz de resumir uma antiga e recorrente conversa com o Zé Luis a quem reclamo incessantemente uma obra própria, longe dos comentários e análises das obras de outros autores. Uma obra da sua experiência. A filosofia é como a arte, não é uma actividade autista de escritório, desligada. Ela caminha ao nosso lado na rua, de mãos dadas com as nossas vivências, paixões e angústias.
" A prova do filósofo? A sua vida. Uma obra escrita sem vida filosófica que a acompanha não vale a pena nem por um segundo . A sabedoria mede-se pelos detalhes : o que se diz e o que se faz e o que não se faz, o que se pensa e o que não se pensa (...) Reduzamos, pois, a fractura esquisofrénica postulada por Proust com a sua teoria dos dois eus: com efeito, ela permite separar radicalmente um filósofo que escreve Ser e Tempo do homem que adere ao Partido Nacionalista Socialista Alemão dos Trabalhadores durante todo o tempo que durou o nazismo. Neste sentido, um grande filósofo pode ser nazi e um nazi pode ser um grande filósofo, sem qualquer problema: o eu que redige um volumoso tratado de ontologia fenomeno-lógica nada tem que ver com aquele que defende e cauciona uma política de extermínio. (...)
O filósofo é filósofo vinte e quatro horas por dia, mesmo quando faz a lista da lavandaria antes de retomar o argumento habitual. (...)
Decorre disto a necessidade de uma íntima relação entre teoria e prática , entre reflexão e vida, entre pensamento e acção. A biografia de um filósofo não se reduz somente ao comentário das suas obras publicadas, ela abrange a natureza do vínculo entre os seus escritos e os seus comportamentos. Só se pode chamar obra ao conjunto. O filósofo deve mais do que ninguém manter unidos esses dois tempos tão amiúde colocados em oposição. A vida alimenta a obra que , por sua vez, alimenta a vida : Montaigne foi quem primeiro o descobriu e demonstrou: ele sabia
que, quando se faz um livro, tornamo-lo tanto mais notável quanto ele por sua vez nos constitui. "
Michel Onfray, "A Potência de Existir", Campo da Comunicação

Concordo com Onfray, para mim, fazer filosofia é processo biográfico.
A tradução portuguesa desta obra foi feita por esse mesmo amigo e é apresentada aqui.

half-day-closing.blogspot





Com a minha participação no header, estreou hoje na blogosfera quem por cá já deveria andar há algum tempo.
O half day closing promete óptimas leituras... Serei uma devota seguidora Zé Luis ;)


No dia mundial da fotografia presto homenagem à Holga.
A minha deve ser bastarda... e muito muito teimosa :(


à Varda



... delicadeza, paixão... A cor que queria no meu quarto é a de Agnès Varda, uma mulher com uma cor absolutamente arrebatadora.
Que fazer quando a sessão termina e não nos conseguimos levantar da cadeira!?
(aqui sobre ela e sobre o filme)

ser uma mulher


O nosso corpo de mulher, o sexo, o desejo, o amor, a nossa condição feminina. Uma condição socialmente deturpada... Tantas vezes meros corpos-objectos. Tropeçamos constantemente nos maus tratos à nossa feminilidade quer nos meios de comunicação e na publicidade, quer em "inocentes" conversas de amigos ou família. O nosso corpo enquanto objecto para uma sexualidade unicamente masculina, passivas, dominadas, disponíveis, e para uma maternidade vista vezes sem conta como mero requisito social. Mulheres conscientes, insultadas nesta condição social de seres-fetiche, donas de um corpo que reclamam não constituir um mero produto visual e erótico.
Não é possível tentarmos combater o assédio sexual, a violência doméstica e a discriminação enquanto determinados valores, comportamentos e preconceitos são anfitriões na televisão, na publicidade, na imprensa, etc...Alimentando a forma como se pensa a condição da mulher, cada imagem com que nos deparamos tem a capacidade de influenciar e moldar esses comportamentos e práticas sociais.
Como viver a nossa feminilidade? Agnès Varda oferece algumas respostas com o seu "cine-panfleto" Réponse de femmes, um documentário de 1975 que surge da pergunta proposta por um canal de televisão francês a várias cineastas "o que é ser uma mulher?".