Hoje o meu dia nasceu nublado.
Lá fora o céu vestiu-se repentinamente com um cinzento estranhamente aborrecido, contrariado, arreliado. Geralmente gosto de dias assim, melancólicos e reflexivos, mas este teve um inquietante cinzento mau feitio que me perturbou. Um cinzento contaminado, infeccioso. Cinzento aflição.
Como num road movie encontrei na estrada a minha fuga.

Caminhei, caminhei, caminhei.
Precisava do campo, longe da insipidez da praia. Procurava uma paisagem contida, limitada, habitada. Afastei-me até não sentir mais presença humana. Insectos atemorizadores, hortas, arcaicos sistemas de rega, abóboras, batatas, couves rendilhadas pelos caracóis, pereiras, videiras, margaridas, papoilas, capoeiras, um burro, tractores.
Terra molhada.
Caminhei mais um pouco até me perder, assustei-me e voltei para procurar consolo na azáfama humana. Precisava agora de paisagens extensas, hostis.
Caminhei, caminhei, caminhei. Perfurei as dunas e perdi de vista a extensa amplitude da baía.
Sal, algas, horizonte, gaivotas, pulgas-do-mar, maresia, pessoas.
Areia molhada.






