Vegetarianismo – Ética da Alteridade
Há uns anos tornei-me vegetariana. Não foi uma decisão programa ou planeada, foi antes um processo espontâneo em que fui excluindo, ao longo do tempo, determinados alimentos de forma natural. Desde criança que estranhava a ideia de comer um pedaço de um animal morto e fazia-me confusão olhar para um bife e conseguir identificar os nervos, as fibras. Detestava a textura e o cheiro da carne.
Comecei a ler e a informar-me sobre o vegetarianismo, não só para encontrar uma alimentação equilibrada, evitando carências nutricionais, mas sobretudo como forma de investigar determinados valores e princípios filosóficos. Qual é afinal o estatuto moral dos animais na nossa sociedade que permite aos seres humanos a prática continuada de actos cruéis de dominação e opressão, a infligir sofrimento e decidir a morte de outro ser? Sempre me pareceu bastante lógico que humanos e animais partilhassem dos direitos fundamentais, o direito à vida, à integridade física e à liberdade, mas, na verdade, estes últimos são considerados como meros “bens” susceptíveis de apropriação, exploração, comercialização, e o seu abate, à excepção dos animais que já estejam em vias de extinção, é isento de culpabilidade moral. Não será apenas uma questão de dominação e poder? O conceito de Derrida de carnofalogocentrismo é claro em relação a isto, e exprime a “necessidade, desejo, autorização ou justificativa para levar à morte”.
“Comer gato por lebre”. Porquê gato, porquê lebre? Não faz sentido perpetuar uma discriminação baseada em motivos meramente emocionais, defendendo apenas os animais que nos estão mais próximos.
A ingestão de carne nunca foi uma decisão pela qual cada um de nós tenha passado, mas sim um hábito herdado. Um hábito (uma pressão) social pesadíssimo, raramente questionado de forma consciente e imparcial, tanto na nossa educação como durante toda a nossa vida. É esse hábito que custa quebrar e o prazer que se tira de uma refeição de carne é dado apenas por um vício (eu digo intoxicação) do paladar.
O vegetarianismo é assim mais do que um regime alimentar, é também uma postura ética. Defendo o direito dos animais da mesma forma que defendo os direitos humanos, que condeno o sexismo, o racismo, a homofobia, e que me oponho a qualquer tipo de violência, crueldade e maus-tratos. Para mim faz sentido que a alimentação passe por uma reflexão consciente, que constitua um acto da responsabilidade individual. Não será, como afirma Tom Regan, o direito dos animais uma extensão lógica do reconhecimento dos direitos humanos? Para mim, sim, é apenas uma questão ética, da alteridade e da responsabilidade dela decorrente.
Zé Luis, gostava de conseguir enquadrar a alteridade e a responsabilidade de Lévinas na condição animal, sei que ele não se debruçou nesta questão particularmente, mas parece-me ser bastante fácil de o fazer, será possível? Vá mestre, entretenha-se, tenho um pequenino artigo que pode ajudar ;)
Belíssima Silva
O trabalho desta bela pode ser visto aqui.
Pa'llegar hasta tu lado
Gracias a tu cuerpo doy
Por haberme esperado
Tuve que perderme pa'
Llegar hasta tu lado
Gracias a tus brazos doy
Por haberme alcanzado
Tuve que alejarme pa'
Llegar hasta tu lado
Gracias a tus manos doy
Por haberme aguantado
Tuve que quemarme
Pa'llegar hasta tu lado
Óscar

Walter Astrada, o destemido argentino, tem vindo a fotografar em cenários de violência extrema, avassaladoramente brutais. São dele as fotografias que mais me têm impressionado pela forma como expõe a miséria e a agressividade, e como cruamente nos depara com a morte.
Mais uma vez Astrada voltou a deixar-me aterrada. Numa série de fotografias tiradas nos confrontos pós-eleitorais do Quénia, sob uma vaga de cruéis assassinatos, surge a aflição de Monday Lawiland, um menino que com apenas 7 anos se vê exposto a conflitos para os quais ninguém tem idade, muito menos ele. Com esta reportagem Astrada venceu a categoria Spot News da World Press Photo 2009.
casa

Passo a passo a casa vai ficando pronta.
Há dias dizia a um amigo que, tendo em conta a duração dos novos mestrados, já sou mestre em preparação e mudanças de casas, pois nestes dois anos não fiz mais senão empacotar, desempacotar, arrumar e desarrumar.
Mudo de casa, desta vez só comigo. Ainda frágil, quebradiça, é fácil escaparem-me as forças quando recordo o sabor amargo, o golpe deste imprevisto.
Respiro fundo, preparo-me para abrir as caixas na certeza de descobrir uma peça que me atraiçoará a coragem. E encontro objectos, lembranças dolorosamente recentes, testemunhos da minha batalha, que perguntam, olhando em redor, por tudo aquilo que conheceram, por tudo aquilo que lhes deu existência, um sentido. Por vezes gritam tão alto, reclamam, protestam, vociferam, que sinto uma angústia de tal forma ensurdecedora que tendo a fechar as caixas.
Mas dia após dia manifesta-se um impulso ansioso que luta por tudo cessar. Um instinto impaciente que teima em espantar o que me trouxe aqui, o que mudou com a casa grande parte dos meus sonhos. Enérgico, esforça-se por arrumar cuidadosamente cada mágoa e cada tristeza numa gavetinha segura, mas sempre visível.
E assim, a seu tempo, vejo tudo serenamente a assentar, como em resposta a uma ordem superior, uma sequência, um ritmo natural (talvez biológico) que me matura, que me prepara para as etapas seguintes.
Trago para a nova casa uma esperança que tenho vindo a embalar há uns meses, tão delicada, tão suave, que seguro fortemente junto ao peito. E quando tudo estiver arrumado, e só restarem doces memórias, espero sentir-me finalmente em casa.
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