Pa'llegar hasta tu lado



Gracias a tu cuerpo doy
Por haberme esperado
Tuve que perderme pa'
Llegar hasta tu lado

Gracias a tus brazos doy
Por haberme alcanzado
Tuve que alejarme pa'
Llegar hasta tu lado

Gracias a tus manos doy
Por haberme aguantado
Tuve que quemarme
Pa'llegar hasta tu lado

Óscar




Uffff.. afinal ainda tenho razões para acreditar no amor à primeira vista! :)
O pequenino Óscar chegou há poucos dias cá a casa. Por entre as vigorosas brincadeiras com a vassoura, com as caixas da roupa e de se espantar em frente ao espelho, não perde uma oportunidade de parar e fixar o olhar em mim ! :))
Óscar como o Wilde!? Talvez! Disse-o espontaneamente das primeiras vezes que o tive que chamar e, apesar de me terem dito que era nome de peixinho (ehehe!), acabou por ficar.

Walter Astrada, o destemido argentino, tem vindo a fotografar em cenários de violência extrema, avassaladoramente brutais. São dele as fotografias que mais me têm impressionado pela forma como expõe a miséria e a agressividade, e como cruamente nos depara com a morte.

Mais uma vez Astrada voltou a deixar-me aterrada. Numa série de fotografias tiradas nos confrontos pós-eleitorais do Quénia, sob uma vaga de cruéis assassinatos, surge a aflição de Monday Lawiland, um menino que com apenas 7 anos se vê exposto a conflitos para os quais ninguém tem idade, muito menos ele. Com esta reportagem Astrada venceu a categoria Spot News da World Press Photo 2009.

Fica ainda uma reunião das melhores fotografias do ano passado acompanhadas por uma belíssima música.

casa


Passo a passo a casa vai ficando pronta.

Há dias dizia a um amigo que, tendo em conta a duração dos novos mestrados, já sou mestre em preparação e mudanças de casas, pois nestes dois anos não fiz mais senão empacotar, desempacotar, arrumar e desarrumar.

Mudo de casa, desta vez só comigo. Ainda frágil, quebradiça, é fácil escaparem-me as forças quando recordo o sabor amargo, o golpe deste imprevisto.

Respiro fundo, preparo-me para abrir as caixas na certeza de descobrir uma peça que me atraiçoará a coragem. E encontro objectos, lembranças dolorosamente recentes, testemunhos da minha batalha, que perguntam, olhando em redor, por tudo aquilo que conheceram, por tudo aquilo que lhes deu existência, um sentido. Por vezes gritam tão alto, reclamam, protestam, vociferam, que sinto uma angústia de tal forma ensurdecedora que tendo a fechar as caixas.

Mas dia após dia manifesta-se um impulso ansioso que luta por tudo cessar. Um instinto impaciente que teima em espantar o que me trouxe aqui, o que mudou com a casa grande parte dos meus sonhos. Enérgico, esforça-se por arrumar cuidadosamente cada mágoa e cada tristeza numa gavetinha segura, mas sempre visível.

E assim, a seu tempo, vejo tudo serenamente a assentar, como em resposta a uma ordem superior, uma sequência, um ritmo natural (talvez biológico) que me matura, que me prepara para as etapas seguintes.

Trago para a nova casa uma esperança que tenho vindo a embalar há uns meses, tão delicada, tão suave, que seguro fortemente junto ao peito. E quando tudo estiver arrumado, e só restarem doces memórias, espero sentir-me finalmente em casa.

Ler +

Para compensar a confusão da finalização das obras da minha casa e os horários trocados pelo curso de 3D Max Design, a semana passada trouxe-me algumas boas notícias, entre as quais que a Menina das Galochas faz agora parte do Plano Nacional de Leitura.

O livro "Conversas do Céu e da Terra" de Rita Sobral, que conta com as minhas ilustrações em "A Menina das Galochas" e com as de Luís da Gama no conto "Encontros do Sol e da Lua", possui agora o selo "LER +", sendo recomendado pelo Plano Nacional de Leitura. Esta é uma inciativa de promoção da leitura desenvolvida pelos ministérios da Educação e da Cultura e pelo Gabinete do Ministro dos Assuntos Parlamentares. O programa tem como objectivo promover o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita e aprofundar os hábitos de leitura da população, desde a primeira infância até à idade adulta. Uma vez que as competências básicas devem ser adquiridas nas primeiras etapas da vida o programa tem como público prioritário as crianças do ensino pré-escolar e básico.

Nem consigo explicar quão satisfeita fico ao pensar que com esta pequena distinção a minha menina das galochas crescerá e ficará com umas pernitas mais longas que a permitirão acompanhar mais e mais leituras. As primeiras leituras de uma vida. E quem sabe marcar o imaginário de algumas crianças, como tantas personagens marcaram o meu quando eu tinha a mesma idade.

a arquitectura no cinema





Reflexões sobre a arquitectura e o urbanismo surgem diversas vezes nas obras de Jacques Tati, particularmente a modernidade na arquitectura e a sua rigorosa organização dos espaços e das funções. O confronto entre a cidade tradicional e a cidade moderna é visível neste excerto de "O Meu Tio" através do contraste do típico bairro parisiense onde vive Monsieur Hulot, os seus sons, a espontaneidade das apropriações do espaço e as suas vivências, e o bairro de classe média/alta onde, numa casa ostensivamente moderna, funcional, imperturbável, vive a sua irmã.

brilhante



Como banda sonora para "Angel" dos Massive Atack alguém se lembrou de uma cena de Vampyr (1932) do realizador dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Perfeito.

(se alguém tiver este filme por favor empreste-me!!)

um teatro de ilusões




David Lynch atormenta constantemente esta nossa aflição em querer compreender e fechar histórias, racionalizar, tirar conclusões, estabelecer relações, desvendar simbologismos. Lynch desafia deliberadamente a ânsia que temos em identificar um fio condutor seguro que seja capaz de tranquilizar a interpretação do filme através de uma narrativa lógica e previsível. Aqui não há respostas imediatas nem necessárias.
Sendo o cinema uma forma de expressão artística, uma dimensão sensível, não terá que ser necessariamente um exercício racional, uma obra finita. Lynch faz obras abertas onde temos bastante espaço para interagir. Se Mulholland Drive fosse um filme linear, sem este carácter labiríntico, inexplicável, perderia toda a sua intensidade e deixaria de ser tão marcante. Vi no sábado pela terceira vez o filme e ainda não me sinto segura com a minha interpretação, até porque desta vez surgiu-me outra!
No seu cinema cada cena é afinal cinema puro feito através de um fabuloso domínio da imagem, dos sons e da interpretação dos actores. Cada cena funciona em pleno individualmente, podendo ser contemplada sem o seu sentido na obra total. A cena do Clube Silencio é umas das minhas favoritas de Mulholland Drive (e dos filmes de Lynch que conheço). No palco de teatro fantasmagórico, onde paira uma atmosfera enigmática, dramática, demasiado onírica, um ilusionista repete "No hay banda. Il n'y a pas d'orchestre. It's just illusion". Afinal tudo não passa de uma ilusão. A cantora de Lhorando desmaia a meio da sua actuação sem que isso perturbe a sua voz que continua a cantar. Está tudo gravado, é uma ilusão.
No surrealismo é procurada a expressão do funcionamento espontâneo do pensamento, a manifestação do irracional. Para tal recorre-se aos sonhos, local distante da repressão do super-ego e das suas censuras morais, das normas sociais. David Lynch recorre igualmente ao inconsciente, apresentando-nos as suas personagens através dos seus processos psicológicos primários, aqueles que em primeira instância as definem.

Logo na cinemateca terei mais Lynch em Dune ;)

histórias


Conto pouco tempo para viver todas as histórias que idealizo e tantas outras inimagináveis que nem lhes reconheço forma. Torno-me ansiosa, quero abraçar muitas vivências e deixar poucas por contar. Será certamente um receio da mortalidade.
E assim, como uma voyeur, entrego-me à cumplicidade das vivências de outros na literatura, no cinema. Ambos lugares privilegiados, lugares umbilicais que permitem experiências tão pessoais como íntimas. Como companheiros de vida, caminho lado a lado com cada personagem, tento reconhecer cada uma das suas emoções, dos seus desafios. Segredam-me na tela ou no papel, em tom de confissão, a essência daquelas vidas. Assemelham-se a filmes documentais.
Com estes meus companheiros testemunho experiências que jamais poderiam tornar-se minhas. Sinto cheiros, cores, texturas. Conheço amores, paixões e lutas. Percorro ruas, vislumbro cidades.
Hoje acabei de ler um livro fabuloso onde conheci a história de um amor inabalável de homem que viveu mais de cinquenta anos de sofrimento para o realizar. Afinal o que é "viver" um amor? Esta forma de "viver" um amor, e a redefinição da sua própria matéria, fazem de "O Amor em Tempos de Cólera ", de Gabriel Garcia Marquez, uma fortíssima história e uma grande lição de vida.