um teatro de ilusões




David Lynch atormenta constantemente esta nossa aflição em querer compreender e fechar histórias, racionalizar, tirar conclusões, estabelecer relações, desvendar simbologismos. Lynch desafia deliberadamente a ânsia que temos em identificar um fio condutor seguro que seja capaz de tranquilizar a interpretação do filme através de uma narrativa lógica e previsível. Aqui não há respostas imediatas nem necessárias.
Sendo o cinema uma forma de expressão artística, uma dimensão sensível, não terá que ser necessariamente um exercício racional, uma obra finita. Lynch faz obras abertas onde temos bastante espaço para interagir. Se Mulholland Drive fosse um filme linear, sem este carácter labiríntico, inexplicável, perderia toda a sua intensidade e deixaria de ser tão marcante. Vi no sábado pela terceira vez o filme e ainda não me sinto segura com a minha interpretação, até porque desta vez surgiu-me outra!
No seu cinema cada cena é afinal cinema puro feito através de um fabuloso domínio da imagem, dos sons e da interpretação dos actores. Cada cena funciona em pleno individualmente, podendo ser contemplada sem o seu sentido na obra total. A cena do Clube Silencio é umas das minhas favoritas de Mulholland Drive (e dos filmes de Lynch que conheço). No palco de teatro fantasmagórico, onde paira uma atmosfera enigmática, dramática, demasiado onírica, um ilusionista repete "No hay banda. Il n'y a pas d'orchestre. It's just illusion". Afinal tudo não passa de uma ilusão. A cantora de Lhorando desmaia a meio da sua actuação sem que isso perturbe a sua voz que continua a cantar. Está tudo gravado, é uma ilusão.
No surrealismo é procurada a expressão do funcionamento espontâneo do pensamento, a manifestação do irracional. Para tal recorre-se aos sonhos, local distante da repressão do super-ego e das suas censuras morais, das normas sociais. David Lynch recorre igualmente ao inconsciente, apresentando-nos as suas personagens através dos seus processos psicológicos primários, aqueles que em primeira instância as definem.

Logo na cinemateca terei mais Lynch em Dune ;)

histórias


Conto pouco tempo para viver todas as histórias que idealizo e tantas outras inimagináveis que nem lhes reconheço forma. Torno-me ansiosa, quero abraçar muitas vivências e deixar poucas por contar. Será certamente um receio da mortalidade.
E assim, como uma voyeur, entrego-me à cumplicidade das vivências de outros na literatura, no cinema. Ambos lugares privilegiados, lugares umbilicais que permitem experiências tão pessoais como íntimas. Como companheiros de vida, caminho lado a lado com cada personagem, tento reconhecer cada uma das suas emoções, dos seus desafios. Segredam-me na tela ou no papel, em tom de confissão, a essência daquelas vidas. Assemelham-se a filmes documentais.
Com estes meus companheiros testemunho experiências que jamais poderiam tornar-se minhas. Sinto cheiros, cores, texturas. Conheço amores, paixões e lutas. Percorro ruas, vislumbro cidades.
Hoje acabei de ler um livro fabuloso onde conheci a história de um amor inabalável de homem que viveu mais de cinquenta anos de sofrimento para o realizar. Afinal o que é "viver" um amor? Esta forma de "viver" um amor, e a redefinição da sua própria matéria, fazem de "O Amor em Tempos de Cólera ", de Gabriel Garcia Marquez, uma fortíssima história e uma grande lição de vida.

retratos à luz do dia


Em situações de maior poder e sem olhos presentes que o julguem, que o envergonhem, será que para o ser humano a liberdade é apenas entendida como a oportunidade para a realização daqueles actos mais cruéis e bárbaros que esconde às escuras dos outros?
Vi há alguns dias na RTP2 o documentário "Os Fantasmas de Abu Ghraib" (2006), de Rory Kennedy, que relata as torturas na prisão iraquiana de Abu Ghraib depois do 11 de Setembro. Rory Kennedy tenta investigar a história que estará por trás do conjunto de fotografias que vieram a público algures em 2004, entrevistando os soldados envolvidos nas torturas, oficiais do governo, historiadores, etc., e fazendo um retrato psicológico do que se vivia na prisão e quais as causas que motivaram a obediência destes militares à prática destes abusos. Muitos respondem que foi o ambiente da prisão que os "embebedou" de tal forma que, apesar de inicialmente se terem repugnado, acabaram por considerar todas estas atrocidades perfeitamente inofensivas, chegando a sorrir para as fotografias como fariam num passeio turístico.
Impressiona-me o que esta patologia humana, com raiz em grandes preconceitos e opressões sexuais, religiosas, políticas, poderá ser capaz de fazer quando perversamente escondida dentro de portas. As humilhações passam imensas vezes por actos de sadismo mórbido ou pela simulação sexual (em diversas situações pretende-se desvalorizar a virilidade dos detidos). Estes são fotografados nus, amontoados uns por cima dos outros ou em condições "animalescas" (sendo que aos animais não consigo admitir igualmente tratamentos desta natureza). São acorrentados, permanecendo dias e dias sem roupa, encapuçados, sem alimentos, nem água, muitas vezes sem luz, sentados no meio dos seus próprios excrementos. Violações, espancamentos, electrocussões, ameaças com cães, hipotermias induzidas...Idosos, crianças, mulheres, homens, inocentes...
Na verdade todos temos consciência que aquilo é apenas a pontinha do iceberg. Enquanto as fotografias escandalizavam o mundo, os EUA garantiam constituir apenas uma situação isolada , fruto da insolência de alguns dos seus militares. Ora, estas sessões de torturas acontecem em inúmeros países (Afeganistão, Iraque, Síria, Egipto, Cuba) não podendo ser resultado da individualidade de alguns soldados pois a aplicação de determinados métodos de torturas , identificados em relatórios ou através de testemunhos, exige uma preparação e conhecimento que demonstra ordens superiores. A única excepcionalidade deste acontecimento foi, de facto, ter sido fotografado e ter aparecido à luz do dia.
Guardará o ser humano tanta miséria, raiva e rancor dentro de si que ao se deparar face a face com seres vulneráveis e indefesos só os consegue humilhar? Serão certamente tão terroristas aqueles que ao querer combater o terrorismo (hum!?) praticam (ou defendem!) estas técnicas de interrogatórios sobre os prisioneiros. Estes episódios de barbárie, de puro horror, demonstram que o ser humano caminha a passos largos para a falência dos seus valores em prol de interesses que falam bem mais alto. O que aconteceu ao valor da vida, aos direitos humanos, à igualdade e fraternidade entre os povos? São meras palavras sem sentido que constam nas constituições dos governos.
E de repente lembrei-me de algumas cenas do filme de Werner Herzog "Até os Anões Começaram Pequenos", onde um conjunto de anões que vivem numa instituição, isolados no meio da paisagem desértica das Canárias, organizam uma revolta aproveitando a ausência do director. A "liberdade" de não possuírem uma vigilância, um controle, origina uma sucessão de episódios violentos, cruéis e depravados contra cegos, anões mais pequenos e animais. A humilhação, o bizarro, a loucura. Acho que este filme retrata plenamente a perversidade que a natureza humana poderá encerrar e a forma como se encara enganosamente a "liberdade". O filme é uma ode à desordem e à irresponsabilidade (à semelhança do que tem acontecido neste tipo de prisões).


Encontrei no Youtube "Os Fantasmas de Abu Ghraib" em espanhol, dividido em 6 partes. Fica aqui o link para a primeira parte: http://www.youtube.com/watch?v=jGjV5LLogvQ

infância


Fotografia de Cristobal Hara. "Valencina de la Concepción", 1993.


Ao falar em infâncias felizes lembrei-me da fotografia de Cristobal Hara que vi há poucos dias na exposição PhotoEspanha, no Museu Berardo.
E ao ver este fabuloso casalinho da fotografia lembrei-me de mim e do meu primo. Lembrei-me do nosso Verão, na praia, na casa dos avós, nos picnics no pinhal, da ceia de Natal, do circo em Dezembro. E ao rever tantas fotografias voltei a sentir a forma como nos empenhávamos em viver cada brincadeira. Desafios que aos nossos olhos ganhava uma seriedade tal que constituíam verdadeiras inovações, importantes conquistas que iriam mudar o mundo para sempre. E mudaram, pelo menos o meu.
Lembrei-me que gostava tão intensamente do meu primo que mal dormia à noite, ansiosa que a manhã chegasse. E na casa dos meus avós, na manhã seguinte, deixava de existir mundo em meu redor, fixava-me apenas no portão da rua e naquilo que por entre o gradeamento ia surgindo. Permanecia intermináveis instantes à espera de ouvir o carro da minha tia a entrar na rua e tentava imaginar ao que poderíamos brincar nesse dia.
O carro a estacionar, o toque da campainha. Chegava o meu grande companheiro.


um picnic feliz*




Uma tarde de sábado tão bem passada entre tartes, patês (não te livras de me dar aquelas receitas!!), salgadinhos, sapatos, mosquitos, grandes amigos e crianças com risos felizes.
A memória que guardo dos acontecimentos são aquelas que geralmente não me largam a cabeça nos instantes a seguir a sair deles. Vim no metro a pensar em ti MM, nos teus pirolitos e no teu amor. E a memória que mais me comoveu (entre tantas daquela tarde), aquela que mais me marcou, foi uma corrida que eles os três fizeram desde a árvore do triciclo até à nossa toalha. Vi-os correr com tanta alegria, aquela que só na infância se consegue alcançar, que fiquei estupefacta. MM ... que felicidade que eles traziam!! E chegaram junto de nós e mandaram-se para o chão a rir de uma maneira tão especial, muito espontânea ....Uau!
E pensei no vosso percurso, nas tuas lutas e nos olhos que há pouquíssimos anos vi tão inchados de tanto chorarem à noite e senti uma felicidade enorme por teres encontrado este amor fabuloso que mereces mais do que ninguém e que sabe tão bem cuidar de ti e deles. Senti uma felicidade enorme por saber que consegues, apesar de todas as batalhas, dar aos picolinos a oportunidade de terem uma infância como esta, arrebatadoramente feliz.
Sabes, neste picnic eles não eram os únicos afortunados com estrelinhas nos olhos, eu também fui por poder ter vivido aqueles momentos, aquelas gargalhadas e as brincadeiras das meninas e do menino engenhocas.
Saí de lá com a esperança que as crianças nos dão.

;)

amizade de sangue



Em "Deixa-me Entrar", do realizador sueco Tomas Alfredson, um rapazinho de 12 anos (Oskar) é frequentemente alvo de agressões por parte de um grupo de colegas mais fortes da sua escola. Apesar de à noite fantasiar com situações de vingança, nunca se consegue efectivamente defender, deixando abusarem de si. Conhece então a sua nova vizinha, uma rapariga misteriosa com a sua idade. Eli é uma (eterna!) pré-adolescente marginalizada que, com medo ser rejeitada, afirma não poderem ser amigos. Mas acabam por desenvolver uma forte amizade e Eli, ao ver uma ferida no rosto de Oskar, resultante de uma agressão na escola, incita-o a impor-se perante esse o grupo de rapazes. Ambos partilham as sensações de exclusão e solidão e entreajudam-se de uma forma maravilhosa.
Oskar, o rapazinho frágil, medroso no confronto com outros seus agressores, torna-se um valente destemido, enfrentando-os por fim e, apesar de sentir medo quando descobre que a sua amiga é vampira, abraça-a fortemente sem hesitar. Oskar enfrenta assim os seus medos, fortalecendo-se à medida que o filme avança. Os ternos abraços e inúmeros gestos de carinho entre os dois vão concedendo à menina vampira sentimentos mais humanos que a maior parte daqueles que encontramos no filme. Mas mais do que uma reinvenção dos filmes do género, a relação que se desenvolve entre os dois amigos, uma amizade tão pura, a sua revolta e a compreensão mútua que se transforma num amor impossível, bastaram-me para adorar o filme. Uma amizade (um amor) que aceita a diferença e com ela se fortalece e fortalece cada um.


Bastaram? Não... O filme possui, além disso, uma excelente fotografia, capaz de recriar atmosferas cruas, sóbrias e realistas, tirando partido do Inverno sueco. Gostei muito ainda do contraste entre as cenas mais demoradas e íntimas, com aproximações suaves e calmas da câmara, e aquelas mais agressivas e violentas tais como nos confrontos com o grupo de rapazes na escola e nas cenas vampíricas. Estas últimas aparecem de forma extremamente cuidada, não caindo nas típicas cenas sangrentas de vampiros, cheias de amuletos, crucifixos e estacas. Os constantes planos dos rostos aproximam-nos cada vez mais destes amigos, até estarmos completamente absorvidos na história, sentido-nos sentados ao lado deles. Face a estes grandes pormenores a abordagem vampírica torna-se assim mais ténue e subtil, e apesar de constituir uma linha condutora firme, presente, torna-se explícita apenas nos momentos necessários. O filme conta ainda com as fabulosas interpretações dos jovens Kare Hedebrant e Lina Leandersson (Oskar e Eli).
"Deixa-me Entrar", a própria tradução portuguesa para o título reflecte (para além de um mito vampírico) a revolta e as injustiças típicas da adolescência, a exclusão, a aceitação e inserção nos grupos. Deixa-me abraçar-te que não te vou morder.

Fui ver o filme pela poderosíssima carga psicológica que me prometeram e valeu a pena.

a vida em obras



Desde o bairro onde moro à minha casa, tudo em meu redor se encontra em obras. Eu própria tenho a vida em obras (de remodelação, espero) .
E se há dias em que todo o seu barulho e a poeira me dão forças para as terminar, para pegar nas ferramentas e avançar, há outros em que só consigo chorar todo o pó que sinto. O pó que tarda em assentar.

Alice nas Cidades


Um jornalista percorre os Estados Unidos para fazer uma reportagem sobre a paisagem americana. Porém não consegue escrever sobre ela, coleccionando em caixinhas antes um conjunto de fotografias instantâneas, a única forma que consegue retratar a decepção da realidade que vai percorrendo. Percorre um território marcado pelo vazio, paisagens despovoadas que combinam com a crise existencial do viajante, com a sua deriva e solidão. Percorre uma sucessão de não-lugares, iguais, vazios de sentido.
Conhece Alice, uma menina de nove anos que lhe traz um destino, uma motivação à viagem. Com ela voa para a Europa. Ambos procuram uma identidade, raízes. A Alemanha, apesar de possuir uma paisagem industrial, desoladora, possui já, em comparação com os Estados Unidos, um território mais denso, mais vivido, mais esperançado. Um território que esconde histórias, como a casa da avó de Alice, uma memória preservada numa fotografia antiga que escondia na carteira. Aqui o jornalista não sente mais necessidade de usar a sua Polaroid, já consegue contar histórias a Alice e consegue por fim escrever. Aqui Philip parece ter encontrado uma identidade, marcada pela fotografia que Alice tira .


A paixão de Wenders por cidades faz dele um excelente crítico do desenvolvimento urbano, que anda sempre de braço dado com a evolução social e estilos de vida. Os seus filmes constituem assim excelentes documentários para urbanistas.