Alice nas Cidades


Um jornalista percorre os Estados Unidos para fazer uma reportagem sobre a paisagem americana. Porém não consegue escrever sobre ela, coleccionando em caixinhas antes um conjunto de fotografias instantâneas, a única forma que consegue retratar a decepção da realidade que vai percorrendo. Percorre um território marcado pelo vazio, paisagens despovoadas que combinam com a crise existencial do viajante, com a sua deriva e solidão. Percorre uma sucessão de não-lugares, iguais, vazios de sentido.
Conhece Alice, uma menina de nove anos que lhe traz um destino, uma motivação à viagem. Com ela voa para a Europa. Ambos procuram uma identidade, raízes. A Alemanha, apesar de possuir uma paisagem industrial, desoladora, possui já, em comparação com os Estados Unidos, um território mais denso, mais vivido, mais esperançado. Um território que esconde histórias, como a casa da avó de Alice, uma memória preservada numa fotografia antiga que escondia na carteira. Aqui o jornalista não sente mais necessidade de usar a sua Polaroid, já consegue contar histórias a Alice e consegue por fim escrever. Aqui Philip parece ter encontrado uma identidade, marcada pela fotografia que Alice tira .


A paixão de Wenders por cidades faz dele um excelente crítico do desenvolvimento urbano, que anda sempre de braço dado com a evolução social e estilos de vida. Os seus filmes constituem assim excelentes documentários para urbanistas.

"Está a ver como a arquitectura não tem que ser chata?"


'Vitruvius Mozambicanus' é a exposição que estará no Museu Berardo até meados de Agosto e que faz uma retrospectiva da obra de Amâncio Guedes, Pancho Guedes . O homem que reclama para os arquitectos os direitos e liberdades que os poetas e pintores conquistaram há já muito tempo, é homenageado através de uma extensa exposição onde podemos encontrar grande parte da sua vida contada em inúmeros desenhos, pinturas e peças de escultura. Obras que vieram a influenciar fortemente a sua arquitectura.
Hoje com 82 anos, apesar de ser o arquitecto mais publicado internacional e de ter desenvolvido uma riquíssima obra em Moçambique, é praticamente desconhecido em Portugal. Por isso vale a pena dar um saltinho à exposição para prestar homenagem e conhecer a sua obra.
Mulheres-casas com muitas maminhas ao vento, aviões, crocodilos em cima de edifícios, leões que riem e estruturas complicadas cheias de formas africanas que parecem garras e dentes. O imaginário de Pancho Guedes é transposto para os seus edifícios. Ele desenha arquitectura em telas, pinta arquitectura. Para Pancho a cidade deve surpreender e deixar de ser chata, previsível. Lembra-se de ser criança em Lisboa e de ser surpreendido pelos desenhos das calçadas portuguesas e pelos pombos no Rossio. Procura assim "a qualidade há muito perdida entre arquitectos, que resulta numa arquitectura espontânea de intensidade mágica".
Gostei muito das suas pinturas, dos murais e da sua forma de representação que lembram as formas tribais africanas.




(Imagens do site guedes.info)

Acerca desta exposição e das obras que nos apresenta afirmou:" Está a ver como a arquitectura não tem que ser chata?"

Humanidade de pedra


Fui "dispensada". Como uma peça de uma máquina mal oleada, fui posta de lado. "Despedimentos" como estes, sem aviso prévio, de um dia para o outro, sem nos olharem directamente nos olhos, estão na ordem do dia. Preparemo-nos.
Em Portugal um em cada cinco trabalhadores estão nestas condições precárias, falsos recibos verdes. Pessoas que, respondendo a horários de trabalho, hierarquias, desenvolvendo trabalho nas instalações da empresa e possuindo rendimento fixo, constituem tudo excepto simples prestação de serviços, como as entidades patronais preferem chamar. Milhares de jovens licenciados, entre muitos outros, encontram-se sujeitos a inesperadamente ficarem sem trabalho no dia seguinte, um despedimento simplex. Ferramentas descartáveis.
Não creio que este problema surja apenas por más decisões políticas. Decorre de um modo de vida generalizado, de uma falta de espírito gritante. Este tipo de relações entre as pessoas surge de uma crescente disfunção social, uma caprichosa patologia humana que só estima a ambição, a vontade de poder, e que desenvolve uma fria incapacidade de sentir os outros. George Orwell previu uma sociedade assim, uma geração de autómatos a quem é incutida uma forma de agir, de pensar, de viver uma vida predefinida com a qual não conseguirão contra-argumentar pois perderam entretanto todo o sentido crítico. Saramago no "Ensaio Sobre a Cegueira" conta-nos como uma estranha epidemia atinge a humanidade, causando a súbita perda de visão. É sob esta doença que se revelam as mais obscuras características humanas, testemunhas da degradação da sociedade, a falta de moralidade nas relações, uma cegueira de valores.
Pondero agora seriamente outras alternativas de trabalho, pois não são estas as regras e as peças com que quero jogar este jogo. Tentarei agora afastar-me deste ritmo, destes valores, destas desconsiderações, deixando lugar para aqueles que não exigem ser olhados de frente, olhos nos olhos. Junto-me a um vasto conjunto de arquitectos-desiludidos que procuram nas áreas próximas desenvolver um trabalho mais humano, mais criativo e compensador. Serviram-me os últimos anos, a passagem por dois ateliers e muitos testemunhos de amigos e colegas, para perceber que este não será o meu caminho. Não digo a arquitectura em si, mas a forma mais clássica que encaramos a sua prática.
Confronto-me agora com este desencanto, na verdade, com desilusões que não tardavam em manifestar-se, fosse qual fosse o episódio que as acordasse. E tive aqui oportunidade de estabelecer breves encontros e desencontros com aqueles que, sem saberem, foram dando mais sentido ao rumo que escolho agora caminhar.
É mais do que um momento de reflexão e expansão.

assim se faz este meu caminho


Tenho bons amigos. Pessoas que numa noite como a de hoje não dão descanso ao meu telefone. Ouvi palavras e vi gestos que me emocionaram bastante =) E estranhamente algumas destas pessoas, aquelas a quem ainda não tinha procurado, vieram ter comigo esta noite sem saberem o que iam encontrar, como se tivessem um fiel radar capaz de detectar interferências na minha emissão. Fabuloso!
Muito afinados, todos me afirmaram que hoje não perdi nada, ganhei antes uma excelente oportunidade para acrescentar mais uns valentes passos a este meu caminho. "Há males que vêm por bem" disse-me prontamente a minha mãe mal abri a porta de casa. "Basta ver para além do olho do furacão", disse-me outra pessoa excepcional. Cheguei mesmo a descobrir que há alguém com uma vocação potencial para a astronomia... já que andamos em época de homenagens, obrigada astrónomo! Era esta a amizade que te dizia não querer perder.
Têm todos razão, há perdas que acontecem suavemente, que trazem mais esperança que angustia, e se há algo que verdadeiramente me assusta agora é a possibilidade de passar por noites como esta sem ouvir as vossas vozes (ou ler sms!! ehehe) .

(Obrigada pelo brinde MisterFel , acabei de o receber!!)

singularidades em português


Fui ver um filme português. Enquanto me dirigia-me à bilheteira do único cinema onde ainda se pode encontrá-lo apercebi-me, através da conversa das senhoras da frente, que a sessão das 22h já não exibia esse filme. "É normal, não tem público" disse a senhora da conversa. "Singularidades de uma Rapariga Loura" foi limitado a uma sessão por dia, reduzido àquelas sessões ingratas que incomodamente ocupam a hora do jantar . Lembrei-me de quando os meus pais iam ao hipermercado à hora do jantar aproveitando por vezes as horas de futebol ou da telenovela para não ser tão confuso.
Já tinha jantado, já não cheguei a tempo daquela sessão. Será assim mesmo que é visto o cinema português em Portugal? Os melhores filmes são considerados um "entretanto" que acontece nas horas mortas, nas horas mais inconvenientes. Sei que começa a existir espaço para os filmes nacionais, mas sinceramente vejo isso acontecer só para aqueles de pior qualidade. Acho que está condenado à hora do jantar apenas o segmento do cinema que se afasta dos moldes convencionais de hoje, do fast-cinema, onde os filmes são meros produtos vistosos, comercializáveis.
Desculpem o mau feitio, mas creio que se neste filme em vez de aparecer esta singular rapariga loura (Catarina Wallenstein) existisse uma formosa manequim, bem vestida, bem despida, lábio carnudos e olhar taralhouco, já seria possível encontrar este filme em várias sessão, em vários cinemas! Observaríamos aqui uma enchente de curiosos a correr em direcção ao cinema para ver a miúda desfilar na tela sem jamais se lembrarem de fazer as piadas aos planos do realizador e à sua câmara parada. Não interessaria a este público o olhar misterioso e a presença enigmática desta personagem, não foi com isto que cresceram, que se educaram, não é nisto que vêm o cinema. O cinema para mim morre aqui. Morre quando é visto como entretenimento, uma actividade lúdica. Entrar na sala e fechar a cabeça. Entretenimento para mim é evitar pensar muito, ficar mentalmente estático e esperar sair da sala com respostas, com o filme fechado para correr para outra actividade sem sobressaltos. Habituados ao ritmo e aos caprichos do cinema de Hollywood já poucos são aqueles que estão dispostos a sentarem-se e contemplar um filme, entregar-se a momentos simples, reflexivos, e à ironia e humor de um senhor que tem uma forma diferente de contar histórias.Espero não estar esta forma de cinema em extinção, como parece pressentir David Cronenberg em "Cada Um o seu Cinema".
Felizmente ainda existem outras linguagens, outras formas de narrar e de filmar. Ainda existem cineastas que acreditam que nem tudo pode ser tão desapaixonado e que, tal como a beleza, o cinema também não deverá ser gratuito, fácil, formato pipoca açucarada. Nos tempos do mediatismo e do imediato acredito haver uma razão para ainda termos entre nós um senhor com vontade de contar e ilustrar histórias e que nos brinda com as suas sátiras sociais. Um senhor com 100 anos de memórias. A sua curta-metragem em "Cada um o seu Cinema" é prova precisamente da sua vontade de fazer o seu cinema, de entrar em força e brincar com as regras, sociais e cinematográficas. É atrevido, e em vez de apresentar uma reflexão acerca do cinema ou da sala de cinema, como era estipulado para o filme, Manoel de Oliveira faz cinema. Oferece-nos assim um dos momentos mais inesperados do filme ao contar-nos um encontro entre o Papa João XXIII e Nikita Kroutchev, um encontro hilariante e muito sarcástico, que me faz pensar numa frase que li no seu aniversário: "Manoel de Oliveira, um homem sem anos". Tem um espírito tão jovem que me arrisco a dizer ter feito em "Cada Um o Seu Cinema" uma das mais ousadas curtas-metragens.
Acabei nessa noite por ver um filme italiano, o Almoço de 15 de Agosto, de Gianni Di Gregorio, um delicioso filme sobre a terceira idade. Logo no inicio do filme ri-me ao deparar-me com mais uma singularidade em português. Enquanto o filho lia Os Três Mosqueteiros, descrevendo d´Artagnan à mãe, uma senhora que não gostava de homens com nariz de águia, nas legendas portuguesas surge o nome de Dartacão, não uma, nem duas vezes.. várias vezes. Neste filme, pelas mãos do tradutor, o jovem d´Artagnan ganha literalmente uma vida de cão! Pior singularidade que esta só aquela que fez com que ninguém tivesse reparado neste insólito antes de o filme estrear em Portugal. Como é que ninguém corrigiu isto a tempo?!
Vi o filme português noutro dia. Gostei dos planos das janelas, gosto do que as janelas simbolizam, uma abertura para o mundo de alguém. Gostei de ouvir declamar uma parte de o

"Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro e da forma como esta cena se desenrola com o avançar do poema.


"(..) E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa  existir claramente,

Afinal, tal como o telejornal das 20h, este filme está aqui em horário nobre.


nasceram!


Há algum tempo que esperava esta notícia! Soube há pouco que já nasceram os gatinhos que farão parte da minha vida! Uma ninhada de quatro pequeninos em que um é tigrado e os outros cremes, a lembrar a sua ascendência siamesa.
Espero agora ansiosamente por vê-los!!

esse fado impetuoso!


Conheço vidas mal vividas, existências sombrias de pessoas que se sentaram a meio do caminho convictas que para viver é necessário um sofrimento tão profundo que lhes corta a respiração.
A falta de poesia das suas vida leva estes sofredores à necessidade da criação de um drama teatral da qual são encenadores, directores de produção, actores e figurinos, técnicos de som e luz, constroem o palco e escolhem o guarda-roupa e adereços. São o seu próprio público. Essas vidas querem acreditar que nada mais pode existir além do seu próprio cenário teatral, daquele seu pequeno pedaço de terra isolado. Não toleram viajar, não consentem o outro. O que lhes é estranho amedronta-as, criticam, julgam. Tornam-se vidas insulares sem uma linha de areia que as ligue às outras.
E correm os dias, as semanas e os anos...tic tac, tic tac.... embrulham-se nesta existência que tem que ser tragicamente severa, rude.
Estas vidas não partilham, não são partilhas. Tornam-se egoístas. Não estendem a mão para sentirem por perto o calor de outra.
A falta de poesia destas vidas obriga-as a escaparem-se para um refúgio distante, longe daquilo que julgam ser o motivo da sua mágoa. Frágeis, correm daquilo que tantas vezes são apenas outras vidas, lutadoras, claras, conscientes. Porque é no confronto com o outro que vemos o nosso próprio eu, os viúvos destas vidas preferem encaracolar-se, fechar os olhos e olhar apenas para dentro, numa exaltação de si. Estas vidas são tão auto-centradas que os seus pequenos males tornam-se vaidosos dramas que se pavoneiam pela sua existência, e crescem, crescem, crescem, vangloriando-se do território que ganham, da alegria e do prazer que afugentam. Estes males tornam-se os únicos seres a habitar aquelas vidas, os mais cruéis de todos os problemas. Elas, ali sentadas, lamentam os seus medos, a sua calamidade e o pânico que vão ganhando a tudo, a todos aqueles que não reconhecem como seguros e que assumem como ofensivos. Sentem uma desesperada incompreensão.
Tal como um alcoólico faz com o álcool, estas vidas amedrontadas procuram amparo naquilo que mais as destrói, alimentam todos os dias a sua extenuante solidão da qual nem se dão conta. Vidas que não sabem para onde olhar, o que ver, pois estão ali pesadas, afundadas num assento duro que defendem ser confortável. Não se apercebem que dali não têm vista, que ali não chega mais o ar.
Conheço vidas assustadoramente desperdiçadas, ermas, vazias. Gostava que essas vidas encontrassem uma inspiração, ninguém o pode fazer por elas. Como diz neste post Maria do Mar, uma menina que consegue ler em cada dia um verso de um singular poema, "a vida inspira-nos". Ela escolheu ser feliz. Eu também acho MM, é tudo uma questão de escolha, não é preciso viver assim.

pintar as núvens


Em poucos meses a minha vida enlaçou-se à de várias mulheres extraordinárias. Curiosamente começou a andar de mãos dadas com Catarinas! Será que os nomes reflectem mesmo a pessoa que os transporta?
E, para não deixar este círculo de coincidências em aberto, como se fossem regidas por um fenómeno cósmico, hoje é um dia importante para as minhas Catarinas.
Elas são grandiosas, sonhadoras perseverantes, mulheres de uma força singular que por vezes teimam em esquecer. Hoje é o dia delas. Não se conhecem, mas partilham de uma ternura que me orgulho em conhecer e lutam por uma vida que sei que irão encontrar. Estamos em percurso meninas!
E hoje de manhã ao pensar nelas, nestas coincidências que fazem também a minha vida, lembrei de uma outra menina sonhadora que morava numa vila onde estava sempre, dias após dia, a chover.
Ela, sem receio, pulava corajosamente pelas poças enfadonhas da chuva com as suas galochas vermelhas.


Na certeza que iria alcançar uma extraordinária mudança, abriu um escadote sobre o céu, subiu, subiu, subiu e, bem lá em cima, pintou as nuvens de várias cores, pintou cenários para cada estação do ano, um sol, uma lua, muitas estrelinhas! Nessa vila não voltou mais a chover.

Esta menina foi criada pela Rita Sobral (que está aqui neste blog), eu dei-lhe forma. Ela vive num pequenino livro chamado "As Conversas do Céu e da Terra", da Pé de Página Editores, que conta ainda com ilustrações de Luís da Gama.
A menina das galochas é uma menina como vocês, como nós. E, apesar das vertigens, havemos nós também de nos encontrar pintalgadas, sarapintadas, com um grande céu sobre nós.
Hoje é o vosso dia, estou a torcer por vocês.
Parabéns Caracolinha!
Priminha, não hesites, não há cá espaço para receios, hoje vais mesmo actuar!

vejo-te dançar


Olhar para trás a meio de um caminho, rever passo a passo o trajecto passado, agora de frente, agora sobre uma nova perspectiva. Tal como um espelho que reproduz as situações que o defrontam, olhar para trás é espreitar o que se desenrola afinal atrás da paisagem, a única que até então conhecia.
Olhar para trás a meio de um caminho e ver todas as minha experiências diluírem-se no tempo, num olhar mais claro, numa visão mais ampla. Uma grande angular que capta com maior nitidez o meu percurso até ali.
E encontro-me assim face a face comigo. A que observa e a que ainda caminha. Deste ponto olho agora a paisagem, é absolutamente diferente. Ali estão os detalhes que não reparei e aqueles em que tropecei. Nesse jogo propositado de vistas descubro-me a cada passo que dei.
Sei agora que percorrer um caminho fixando o horizonte, perseguindo apressadamente o ponto de destino sem nunca olhar para trás, não permite tirar referências que guiem o caminho quando o tornaremos a fazer. Olhar para trás é assim descobrir os elementos subtis que reclamavam um novo ponto de vista para se estabilizarem. Aqueles que insistem em não olhar para trás perder-se-ão entretanto.

Hoje saí do metro com uma música com que antes pouco me identificava, como tantas outras que falam de um amor visto do outro ângulo. Atravessava o parque. Ao começar a descer umas escadas olhei involuntariamente para trás e, num relvado, encontrei com espanto uma figura ondular em gestos suaves ao som da música que eu trazia comigo. Praticava Tai Chi. Fiquei suspensa, pasmada. Assisti em poucos minutos a um dos mais belos bailados que vi até hoje. A figura acompanhava lenta e harmoniosamente cada compasso, como se tivesse coreografado com primor cada sequência de movimentos para dar matéria àquela música.
Tinha apenas olhado para trás, e daquele percurso que julgava findado, surgiu aquela dança, tão delicada como as minhas lembranças de ti. Naquele relvado podia estar eu a dançar a nossa memória.
Hoje, tal como aquela figura danço sozinha, calma e serena. E ao olhar para trás, recordo-nos com aquela mesma serenidade, um doce amor de gestos harmoniosos e firmes que não permitirei esquecer. Recordo uma delicada melodia que só poderia ter sido dançada contigo.
Observo agora daqui. Se não olhasse neste instante para trás perderia toda a nossa história, perderia-te por absoluto.

Agora sei que afinal só se perde um amor quando olhamos para trás e não o vemos dançar.