4ventos

Vi agora as malas ainda por desfazer no meu quarto e recordei com saudade o meu fim-de-semana.

Costumo enfrentar sensações semelhantes às que sinto agora quando saio da sala de cinema depois de um bom filme. Como que numa resistência para não sair do filme e preservar o que ele me trouxe, estranho os sons, os movimentos, os carros e as pessoas com quem me cruzo na rua e inquieta-me o seu alheamento em relação à história que me acabam de contar. Nada com o que me deparo parece ter um sentido claro, verosímil, pois tudo é questionável.

Esse meu retorno não é mais do que um processo arrebatador de maturação de conceitos, ideias e perspectivas. Um processo semelhante ao de alguém que encara um clarão e que, com a visão enublada, tacteia em seu redor procurando identificar os objectos que conheceu outrora, acabando por se deparar com formas e texturas nunca antes experimentadas

Vou saindo do filme à medida que reflicto sobre os seus momentos, deixando de o ver como um conjunto de percepções ainda confusas e soltas, para ler nele uma ideia coesa, enlaçada numa interpretação, numa conclusão. Vou saindo do filme à medida que faço o ajuste entre os dois ritmos, o dele e o meu.

Não podia ter gostado mais destes dias no retiro 4ventos, e agora que os revejo, recordo um grupo tão intimamente perfeito como um sistema em equilíbrio, onde tudo funciona harmoniosamente, gravitando em torno de uma poderosa energia. Acredito mesmo que nenhuma de nós estava ali por acaso e que cada uma tinha consigo uma palavra a acrescentar à história do lado.

Estou ainda no meu momento pós-filme e esforço-me para fazer demorar a sensação de êxtase que veio comigo de Mafra.

Há situações capazes de proporcionar um mergulho tão profundo, tão íntimo, constituindo um vislumbre de algo realmente sagrado, inviolável.

Há momentos assim... de pulsão, de expansão, de crescimento.

Esteban Device



Descobri os Esteban Device por acaso e desde então ouço-os com alguma frequência.
Fiquei com o coração parado quando encontrei aqui uma doce recordação da minha adolescência, uma pessoa de quem lamento ter perdido o rasto. Encontro-o aqui, num projecto tão delicado como a minha recordação.
Cheguei a vê-los no Cabaret Maxime em Abril, e a propósito do concerto agendado para amanhã, 14 de Maio, na Fábrica do Braço de Prata fiquei a saber que Esteban Device terminaram ...
Foi um fugaz encontro :(

Fica aqui o myspace onde ainda se fazem ouvir: Esteban Device

arquitectura social


Porque a arquitectura encerra sem dúvida uma enome função social, fica aqui uma breve apresentação do trabalho notável que um corajoso grupo de jovens arquitectos desenvolve na cidade de Bombaim, entre os quais se encontra o meu amigo Guilherme.

Eles estão a desenvolver um conjunto de estratégias activas de intervenção na sociedade tendo como ferramentas a arquitectura e o planeamento urbano, reinventando soluções para a melhoria das condições habitacionais e do espaço público.

Siza Vieira afirma no documentário de João Dias (As Operações SAAL) que “ os arquitectos são as mãos do povo”. De igual modo creio convictamente que cabe à arquitectura cuidar do Direito à Habitação e, através da sua técnica, desenvolver novas abordagens que permitam aos grupos que vivem em condições precárias o acesso a uma habitação condigna.

Para conhecerem melhor as suas propostas fica aqui o link do projecto: Incremental Housing Strategy .

Parabéns novamente Gui!!!! :)

a Idade do Ouro de Herzog


Há duas semana vagueei pelo inquietante mundo de Herzog pelas mãos da fantasmagórica viagem de Fata Morgana ao Sahara, um deserto filmado de forma crua, sem referências e sem escala que serve de palco à exibição da impotência do Homem.
Imagens como as carcaças de animais, aviões e carros, as paisagens áridas, as cidades de traços deploráveis, a miséria da população e as indústrias petrolíferas em contraponto com as paisagens em forma de miragem, revelam a presença angustiante do Homem e as consequências que esta tem na Terra.
O tratamento cruel dos animais testemunha a mentalidade autoritária de exploração e instrumentalização dos animais e de todo o sistema ecológico na Terra.
Na Idade do Ouro Herzog aponta directamente a bizarra falência do Homem, ilustrada pela cena do bailarico. A única cena filmada num espaço fechado vem desafiar aquilo filmado lá fora, em África. Uma fantástica provocação: a civilização (eeeeer.....) e o que sobrou dela...!
Serviu esta extravagante metáfora para despertar uma maior curiosidade acerca de Werner Herzog . Dei assim início a uma intensiva jornada pelo IndieLisboa´09, frequentando praticamente todas as sessões dedicadas ao realizador alemão.
Ficam dele alguns filmes por ver ... e muitos mais por rever!

fim de semana a 4ventos



Restam poucos dias para a chegada do retiro do centro Gaia - Hatha Yoga, no 4ventos, junto à Tapada de Mafra.

No próximo fim de semana irei desligar o ruído de Lisboa, as impaciências e anseios e ... as obras da casa azul! Durante esses dias irei dedicar-me a uma prática bem mais profunda, atenta e consciente.

O programa inclui, para além das sessões de meditação, pranayama e asana, palestras, deliciosas refeições cuidadosamente pensadas (e preparadas!) e uma óptima companhia!

O retiro é orientado pela Antónia Soares (na foto), a quem só me resta agradecer a extraordinária dedicação .. e todos estes miminhos!

de um azul porcelana

Como as veias que percorrem a minha pele também eu serpenteio em várias direcções, sem mapa, sem rota, expandindo-me apenas para deixar fluir o sangue.

Como o sangue que percorre as veias da minha pele também eu procuro encontrar um percurso, um trajecto sólido, firme e profundamente vincado.

Mas esse percurso teima em cortar a pele, e as cicatrizes dessa caminhada são agora de uma seda fina e quebradiça, sinais anémicos que ameaçam por vezes não conseguir estancar o sangue.

São testemunhos da minha matéria, o meu azul porcelana, ténue, frágil e hesitante.