vespa, lagarto, serpente

inspirar, expirar
terra, areia ?

saltar a tampa
memórias em castelo
Um final de tarde, depois de uma ginjinha no Terraço do Mercado do Chão do Loureiro, brindou-nos com um novo projecto.
Horas antes, subíamos ao Castelo desabafando os receios de quem tem uma vida sonhadora e a segura com firmeza, de quem quer afinal apenas criar. Vidas com sonhos que espreitam além da arquitectura.
Minutos depois, após uma conversa sobre touradas e tradições, descíamos por uma escada e descobríamos num contentor peças extintas nas obras de um edifício próximo. Peças que contam histórias de anos habitados entre pessoas, anos narrando silenciosamente as suas existências de alegrias, paixões e solidão. Peças que nesse dia foram substituídas por outras meticulosamente testadas em laboratórios de engenharia, feitas em alumínio, inox, plástico, acrílico, com isolamento acústico e térmico, botões e luzes sibilantes, apitos e sensores de precisão. Comigo veio uma janela antiga para emoldurar outras ideias de tintas e pincéis, sem Photoshop, sem Corel Draw.
casa

Passo a passo a casa vai ficando pronta.
Há dias dizia a um amigo que, tendo em conta a duração dos novos mestrados, já sou mestre em preparação e mudanças de casas, pois nestes dois anos não fiz mais senão empacotar, desempacotar, arrumar e desarrumar.
Mudo de casa, desta vez só comigo. Ainda frágil, quebradiça, é fácil escaparem-me as forças quando recordo o sabor amargo, o golpe deste imprevisto.
Respiro fundo, preparo-me para abrir as caixas na certeza de descobrir uma peça que me atraiçoará a coragem. E encontro objectos, lembranças dolorosamente recentes, testemunhos da minha batalha, que perguntam, olhando em redor, por tudo aquilo que conheceram, por tudo aquilo que lhes deu existência, um sentido. Por vezes gritam tão alto, reclamam, protestam, vociferam, que sinto uma angústia de tal forma ensurdecedora que tendo a fechar as caixas.
Mas dia após dia manifesta-se um impulso ansioso que luta por tudo cessar. Um instinto impaciente que teima em espantar o que me trouxe aqui, o que mudou com a casa grande parte dos meus sonhos. Enérgico, esforça-se por arrumar cuidadosamente cada mágoa e cada tristeza numa gavetinha segura, mas sempre visível.
E assim, a seu tempo, vejo tudo serenamente a assentar, como em resposta a uma ordem superior, uma sequência, um ritmo natural (talvez biológico) que me matura, que me prepara para as etapas seguintes.
Trago para a nova casa uma esperança que tenho vindo a embalar há uns meses, tão delicada, tão suave, que seguro fortemente junto ao peito. E quando tudo estiver arrumado, e só restarem doces memórias, espero sentir-me finalmente em casa.
infância
Fotografia de Cristobal Hara. "Valencina de la Concepción", 1993.
um picnic feliz*

a vida em obras
Humanidade de pedra
assim se faz este meu caminho
esse fado impetuoso!
pintar as núvens


vejo-te dançar
esticar as cordas

andorinhas

Gosto de andorinhas, recordam-me as tardes de brincadeiras com o meu primo na rua ou no quintal dos meus avós, num bairro aqui
Míticas peças da identidade portuguesa, as andorinhas que Bordalo Pinheiro desenhou em 1891 interpretam perfeitamente essa recordação da minha infância, e para nunca a deixar escapar gostava de colocar umas quantas numa parede da minha nova casa, a casa azul. Mais do que simples objectos decorativos as andorinhas são peças simbólicas, peças que marcam nao só a nossa herança cultural como muitas histórias pessoais. Acho mesmo que o sucesso da sua reedição está na capacidade que estas possuem em personificar algumas das nossas memórias.
A propósito de andorinhas de cerâmicas, o Estúdio Pedrita realizou uma intervenção na fachada da Ermida Nossa Senhora da Conceição, em Belém, agora transformada numa pequena galeria. Propuseram aqui uma homenagem à chegada da Primavera e ao aniversário de Rafael Bordalo Pinheiro, ambos comemorados no dia 21 de Março, cobrindo a fachada com 1600 andorinhas de cerâmica, peças da Fabrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro. Creio que a instalação já terá sido retirada, mas uma vez que não vamos impedir que as verdadeiras andorinhas voem para destinos mais quentes, gostava que estas se tivessem mantido por cá!
4ventos
Vi agora as malas ainda por desfazer no meu quarto e recordei com saudade o meu fim-de-semana.
Costumo enfrentar sensações semelhantes às que sinto agora quando saio da sala de cinema depois de um bom filme. Como que numa resistência para não sair do filme e preservar o que ele me trouxe, estranho os sons, os movimentos, os carros e as pessoas com quem me cruzo na rua e inquieta-me o seu alheamento em relação à história que me acabam de contar. Nada com o que me deparo parece ter um sentido claro, verosímil, pois tudo é questionável.
Estou ainda no meu momento pós-filme e esforço-me para fazer demorar a sensação de êxtase que veio comigo de Mafra.
Há situações capazes de proporcionar um mergulho tão profundo, tão íntimo, constituindo um vislumbre de algo realmente sagrado, inviolável.
Há momentos assim... de pulsão, de expansão, de crescimento.
