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vespa, lagarto, serpente



Eu: Já leste o livro que te ofereci?
Ele: Não...
Eu: Hummm...Se continuares assim sem ler quando fores crescido vais mesmo falar como o Cristiano Ronaldo.
Ele: Fogo! ... "ah pois , portantos"... eu quando tiver a idade dele já não vou dar tantos erros, podes ter a certeza, até porque agora vamos escrever uma história.

"O Luís era um lagarto e a Cristina uma vespa. Uma vespa de uma só cor. Depois foi ao médico pedir medicamentos para ficar às riscas amarelas e pretas. Eles tinham uma camioneta e uma amiga chamada Marta, que era uma serpente que caiu pelo tubo de escape e foi fazer surf numa folha de uma árvore na praia."

inspirar, expirar


Há dias de cores estridentes, saturação elevada. Cores que acompanham o pulsar do sangue e com ele trazem o trepidar de sonhos extravagantes, conversas dinâmicas, vigorosas, fantasias arrojadas, encontros apaixonados, inesperados, descobertas audazes, deambulações inexplicáveis. Imprudência, ousadia, risco. Cores emotivas.
Há dias de cores sossegadas, baixa saturação. Cores que dançam em tímidas cintilações com os sonhos lançados e trazem-nos a expansão, o desenvolvimento. Lançam prudentes avanços, cautelosos recuos, questões, análises, resoluções. Fazem-nos aguardar, reservar, por vezes temer. Ponderação, atenção, balanço. Cores racionais.
O espectro cromático repousa nas nossas mãos, dia após dia. À semelhança da mistura das cores complementares, também nós encerramos matérias contrastantes que quando cuidadosamente distribuídas originam formas de absoluta pureza.
Por vezes é necessário olhar de longe o frenesim das cores que poderão queimar a vista quando observadas em intensas e impacientes temporadas. Retiro. Oxigenação. Outras sentimos falta do seu toque quente e nervoso. Proximidade. Intensificação.
Vivo dias de um ávido retiro, pouco tenho a dizer e de nada me apetece falar. Contudo, hoje vesti-me de amarelo corajoso e fiz questão em me complementar: falei, falei, falei.
Era já necessário.

terra, areia ?


Hoje o meu dia nasceu nublado.
Lá fora o céu vestiu-se repentinamente com um cinzento estranhamente aborrecido, contrariado, arreliado. Geralmente gosto de dias assim, melancólicos e reflexivos, mas este teve um inquietante cinzento mau feitio que me perturbou. Um cinzento contaminado, infeccioso. Cinzento aflição.
Como num road movie encontrei na estrada a minha fuga.

Caminhei, caminhei, caminhei.
Precisava do campo, longe da insipidez da praia. Procurava uma paisagem contida, limitada, habitada. Afastei-me até não sentir mais presença humana. Insectos atemorizadores, hortas, arcaicos sistemas de rega, abóboras, batatas, couves rendilhadas pelos caracóis, pereiras, videiras, margaridas, papoilas, capoeiras, um burro, tractores.
Terra molhada.
Caminhei mais um pouco até me perder, assustei-me e voltei para procurar consolo na azáfama humana. Precisava agora de paisagens extensas, hostis.
Caminhei, caminhei, caminhei. Perfurei as dunas e perdi de vista a extensa amplitude da baía.
Sal, algas, horizonte, gaivotas, pulgas-do-mar, maresia, pessoas.
Areia molhada.

saltar a tampa



Estive duas semanas à espera. Oh sorte... Acontece-me isto em tudo, escolho sempre o caminho mais complicado, mais moroso, os produtos esgotados ou aqueles que exigem uma encomenda especial.
A história dos tampos da cozinha é intrincada (!) envolve camiões alemães, trocas de mercadoria e, por último, um grande golpe a meio da peça. Cabe dizer que o tampo já estava montado, com lava-louças e placa, quando reparei em contraluz numa grande mossa....O tampo que veio da Alemanha não sobreviveu às mãos portuguesas que o transportaram já no meu prédio.
Resta agora esperar mais três semanas, porque entretanto ...estamos em Agosto.

memórias em castelo


Um final de tarde, depois de uma ginjinha no Terraço do Mercado do Chão do Loureiro, brindou-nos com um novo projecto.

Horas antes, subíamos ao Castelo desabafando os receios de quem tem uma vida sonhadora e a segura com firmeza, de quem quer afinal apenas criar. Vidas com sonhos que espreitam além da arquitectura.

Minutos depois, após uma conversa sobre touradas e tradições, descíamos por uma escada e descobríamos num contentor peças extintas nas obras de um edifício próximo. Peças que contam histórias de anos habitados entre pessoas, anos narrando silenciosamente as suas existências de alegrias, paixões e solidão. Peças que nesse dia foram substituídas por outras meticulosamente testadas em laboratórios de engenharia, feitas em alumínio, inox, plástico, acrílico, com isolamento acústico e térmico, botões e luzes sibilantes, apitos e sensores de precisão. Comigo veio uma janela antiga para emoldurar outras ideias de tintas e pincéis, sem Photoshop, sem Corel Draw.


Tal como esse final de tarde nos encaminhou para aquelas escadinhas, também cada momento da vida encontra as pessoas certas para ser partilhado. :)

Um beijo enorme à Patrícia e ao João por esta tarde.


casa


Passo a passo a casa vai ficando pronta.

Há dias dizia a um amigo que, tendo em conta a duração dos novos mestrados, já sou mestre em preparação e mudanças de casas, pois nestes dois anos não fiz mais senão empacotar, desempacotar, arrumar e desarrumar.

Mudo de casa, desta vez só comigo. Ainda frágil, quebradiça, é fácil escaparem-me as forças quando recordo o sabor amargo, o golpe deste imprevisto.

Respiro fundo, preparo-me para abrir as caixas na certeza de descobrir uma peça que me atraiçoará a coragem. E encontro objectos, lembranças dolorosamente recentes, testemunhos da minha batalha, que perguntam, olhando em redor, por tudo aquilo que conheceram, por tudo aquilo que lhes deu existência, um sentido. Por vezes gritam tão alto, reclamam, protestam, vociferam, que sinto uma angústia de tal forma ensurdecedora que tendo a fechar as caixas.

Mas dia após dia manifesta-se um impulso ansioso que luta por tudo cessar. Um instinto impaciente que teima em espantar o que me trouxe aqui, o que mudou com a casa grande parte dos meus sonhos. Enérgico, esforça-se por arrumar cuidadosamente cada mágoa e cada tristeza numa gavetinha segura, mas sempre visível.

E assim, a seu tempo, vejo tudo serenamente a assentar, como em resposta a uma ordem superior, uma sequência, um ritmo natural (talvez biológico) que me matura, que me prepara para as etapas seguintes.

Trago para a nova casa uma esperança que tenho vindo a embalar há uns meses, tão delicada, tão suave, que seguro fortemente junto ao peito. E quando tudo estiver arrumado, e só restarem doces memórias, espero sentir-me finalmente em casa.

infância


Fotografia de Cristobal Hara. "Valencina de la Concepción", 1993.


Ao falar em infâncias felizes lembrei-me da fotografia de Cristobal Hara que vi há poucos dias na exposição PhotoEspanha, no Museu Berardo.
E ao ver este fabuloso casalinho da fotografia lembrei-me de mim e do meu primo. Lembrei-me do nosso Verão, na praia, na casa dos avós, nos picnics no pinhal, da ceia de Natal, do circo em Dezembro. E ao rever tantas fotografias voltei a sentir a forma como nos empenhávamos em viver cada brincadeira. Desafios que aos nossos olhos ganhava uma seriedade tal que constituíam verdadeiras inovações, importantes conquistas que iriam mudar o mundo para sempre. E mudaram, pelo menos o meu.
Lembrei-me que gostava tão intensamente do meu primo que mal dormia à noite, ansiosa que a manhã chegasse. E na casa dos meus avós, na manhã seguinte, deixava de existir mundo em meu redor, fixava-me apenas no portão da rua e naquilo que por entre o gradeamento ia surgindo. Permanecia intermináveis instantes à espera de ouvir o carro da minha tia a entrar na rua e tentava imaginar ao que poderíamos brincar nesse dia.
O carro a estacionar, o toque da campainha. Chegava o meu grande companheiro.


um picnic feliz*




Uma tarde de sábado tão bem passada entre tartes, patês (não te livras de me dar aquelas receitas!!), salgadinhos, sapatos, mosquitos, grandes amigos e crianças com risos felizes.
A memória que guardo dos acontecimentos são aquelas que geralmente não me largam a cabeça nos instantes a seguir a sair deles. Vim no metro a pensar em ti MM, nos teus pirolitos e no teu amor. E a memória que mais me comoveu (entre tantas daquela tarde), aquela que mais me marcou, foi uma corrida que eles os três fizeram desde a árvore do triciclo até à nossa toalha. Vi-os correr com tanta alegria, aquela que só na infância se consegue alcançar, que fiquei estupefacta. MM ... que felicidade que eles traziam!! E chegaram junto de nós e mandaram-se para o chão a rir de uma maneira tão especial, muito espontânea ....Uau!
E pensei no vosso percurso, nas tuas lutas e nos olhos que há pouquíssimos anos vi tão inchados de tanto chorarem à noite e senti uma felicidade enorme por teres encontrado este amor fabuloso que mereces mais do que ninguém e que sabe tão bem cuidar de ti e deles. Senti uma felicidade enorme por saber que consegues, apesar de todas as batalhas, dar aos picolinos a oportunidade de terem uma infância como esta, arrebatadoramente feliz.
Sabes, neste picnic eles não eram os únicos afortunados com estrelinhas nos olhos, eu também fui por poder ter vivido aqueles momentos, aquelas gargalhadas e as brincadeiras das meninas e do menino engenhocas.
Saí de lá com a esperança que as crianças nos dão.

;)

a vida em obras



Desde o bairro onde moro à minha casa, tudo em meu redor se encontra em obras. Eu própria tenho a vida em obras (de remodelação, espero) .
E se há dias em que todo o seu barulho e a poeira me dão forças para as terminar, para pegar nas ferramentas e avançar, há outros em que só consigo chorar todo o pó que sinto. O pó que tarda em assentar.

Humanidade de pedra


Fui "dispensada". Como uma peça de uma máquina mal oleada, fui posta de lado. "Despedimentos" como estes, sem aviso prévio, de um dia para o outro, sem nos olharem directamente nos olhos, estão na ordem do dia. Preparemo-nos.
Em Portugal um em cada cinco trabalhadores estão nestas condições precárias, falsos recibos verdes. Pessoas que, respondendo a horários de trabalho, hierarquias, desenvolvendo trabalho nas instalações da empresa e possuindo rendimento fixo, constituem tudo excepto simples prestação de serviços, como as entidades patronais preferem chamar. Milhares de jovens licenciados, entre muitos outros, encontram-se sujeitos a inesperadamente ficarem sem trabalho no dia seguinte, um despedimento simplex. Ferramentas descartáveis.
Não creio que este problema surja apenas por más decisões políticas. Decorre de um modo de vida generalizado, de uma falta de espírito gritante. Este tipo de relações entre as pessoas surge de uma crescente disfunção social, uma caprichosa patologia humana que só estima a ambição, a vontade de poder, e que desenvolve uma fria incapacidade de sentir os outros. George Orwell previu uma sociedade assim, uma geração de autómatos a quem é incutida uma forma de agir, de pensar, de viver uma vida predefinida com a qual não conseguirão contra-argumentar pois perderam entretanto todo o sentido crítico. Saramago no "Ensaio Sobre a Cegueira" conta-nos como uma estranha epidemia atinge a humanidade, causando a súbita perda de visão. É sob esta doença que se revelam as mais obscuras características humanas, testemunhas da degradação da sociedade, a falta de moralidade nas relações, uma cegueira de valores.
Pondero agora seriamente outras alternativas de trabalho, pois não são estas as regras e as peças com que quero jogar este jogo. Tentarei agora afastar-me deste ritmo, destes valores, destas desconsiderações, deixando lugar para aqueles que não exigem ser olhados de frente, olhos nos olhos. Junto-me a um vasto conjunto de arquitectos-desiludidos que procuram nas áreas próximas desenvolver um trabalho mais humano, mais criativo e compensador. Serviram-me os últimos anos, a passagem por dois ateliers e muitos testemunhos de amigos e colegas, para perceber que este não será o meu caminho. Não digo a arquitectura em si, mas a forma mais clássica que encaramos a sua prática.
Confronto-me agora com este desencanto, na verdade, com desilusões que não tardavam em manifestar-se, fosse qual fosse o episódio que as acordasse. E tive aqui oportunidade de estabelecer breves encontros e desencontros com aqueles que, sem saberem, foram dando mais sentido ao rumo que escolho agora caminhar.
É mais do que um momento de reflexão e expansão.

assim se faz este meu caminho


Tenho bons amigos. Pessoas que numa noite como a de hoje não dão descanso ao meu telefone. Ouvi palavras e vi gestos que me emocionaram bastante =) E estranhamente algumas destas pessoas, aquelas a quem ainda não tinha procurado, vieram ter comigo esta noite sem saberem o que iam encontrar, como se tivessem um fiel radar capaz de detectar interferências na minha emissão. Fabuloso!
Muito afinados, todos me afirmaram que hoje não perdi nada, ganhei antes uma excelente oportunidade para acrescentar mais uns valentes passos a este meu caminho. "Há males que vêm por bem" disse-me prontamente a minha mãe mal abri a porta de casa. "Basta ver para além do olho do furacão", disse-me outra pessoa excepcional. Cheguei mesmo a descobrir que há alguém com uma vocação potencial para a astronomia... já que andamos em época de homenagens, obrigada astrónomo! Era esta a amizade que te dizia não querer perder.
Têm todos razão, há perdas que acontecem suavemente, que trazem mais esperança que angustia, e se há algo que verdadeiramente me assusta agora é a possibilidade de passar por noites como esta sem ouvir as vossas vozes (ou ler sms!! ehehe) .

(Obrigada pelo brinde MisterFel , acabei de o receber!!)

esse fado impetuoso!


Conheço vidas mal vividas, existências sombrias de pessoas que se sentaram a meio do caminho convictas que para viver é necessário um sofrimento tão profundo que lhes corta a respiração.
A falta de poesia das suas vida leva estes sofredores à necessidade da criação de um drama teatral da qual são encenadores, directores de produção, actores e figurinos, técnicos de som e luz, constroem o palco e escolhem o guarda-roupa e adereços. São o seu próprio público. Essas vidas querem acreditar que nada mais pode existir além do seu próprio cenário teatral, daquele seu pequeno pedaço de terra isolado. Não toleram viajar, não consentem o outro. O que lhes é estranho amedronta-as, criticam, julgam. Tornam-se vidas insulares sem uma linha de areia que as ligue às outras.
E correm os dias, as semanas e os anos...tic tac, tic tac.... embrulham-se nesta existência que tem que ser tragicamente severa, rude.
Estas vidas não partilham, não são partilhas. Tornam-se egoístas. Não estendem a mão para sentirem por perto o calor de outra.
A falta de poesia destas vidas obriga-as a escaparem-se para um refúgio distante, longe daquilo que julgam ser o motivo da sua mágoa. Frágeis, correm daquilo que tantas vezes são apenas outras vidas, lutadoras, claras, conscientes. Porque é no confronto com o outro que vemos o nosso próprio eu, os viúvos destas vidas preferem encaracolar-se, fechar os olhos e olhar apenas para dentro, numa exaltação de si. Estas vidas são tão auto-centradas que os seus pequenos males tornam-se vaidosos dramas que se pavoneiam pela sua existência, e crescem, crescem, crescem, vangloriando-se do território que ganham, da alegria e do prazer que afugentam. Estes males tornam-se os únicos seres a habitar aquelas vidas, os mais cruéis de todos os problemas. Elas, ali sentadas, lamentam os seus medos, a sua calamidade e o pânico que vão ganhando a tudo, a todos aqueles que não reconhecem como seguros e que assumem como ofensivos. Sentem uma desesperada incompreensão.
Tal como um alcoólico faz com o álcool, estas vidas amedrontadas procuram amparo naquilo que mais as destrói, alimentam todos os dias a sua extenuante solidão da qual nem se dão conta. Vidas que não sabem para onde olhar, o que ver, pois estão ali pesadas, afundadas num assento duro que defendem ser confortável. Não se apercebem que dali não têm vista, que ali não chega mais o ar.
Conheço vidas assustadoramente desperdiçadas, ermas, vazias. Gostava que essas vidas encontrassem uma inspiração, ninguém o pode fazer por elas. Como diz neste post Maria do Mar, uma menina que consegue ler em cada dia um verso de um singular poema, "a vida inspira-nos". Ela escolheu ser feliz. Eu também acho MM, é tudo uma questão de escolha, não é preciso viver assim.

pintar as núvens


Em poucos meses a minha vida enlaçou-se à de várias mulheres extraordinárias. Curiosamente começou a andar de mãos dadas com Catarinas! Será que os nomes reflectem mesmo a pessoa que os transporta?
E, para não deixar este círculo de coincidências em aberto, como se fossem regidas por um fenómeno cósmico, hoje é um dia importante para as minhas Catarinas.
Elas são grandiosas, sonhadoras perseverantes, mulheres de uma força singular que por vezes teimam em esquecer. Hoje é o dia delas. Não se conhecem, mas partilham de uma ternura que me orgulho em conhecer e lutam por uma vida que sei que irão encontrar. Estamos em percurso meninas!
E hoje de manhã ao pensar nelas, nestas coincidências que fazem também a minha vida, lembrei de uma outra menina sonhadora que morava numa vila onde estava sempre, dias após dia, a chover.
Ela, sem receio, pulava corajosamente pelas poças enfadonhas da chuva com as suas galochas vermelhas.


Na certeza que iria alcançar uma extraordinária mudança, abriu um escadote sobre o céu, subiu, subiu, subiu e, bem lá em cima, pintou as nuvens de várias cores, pintou cenários para cada estação do ano, um sol, uma lua, muitas estrelinhas! Nessa vila não voltou mais a chover.

Esta menina foi criada pela Rita Sobral (que está aqui neste blog), eu dei-lhe forma. Ela vive num pequenino livro chamado "As Conversas do Céu e da Terra", da Pé de Página Editores, que conta ainda com ilustrações de Luís da Gama.
A menina das galochas é uma menina como vocês, como nós. E, apesar das vertigens, havemos nós também de nos encontrar pintalgadas, sarapintadas, com um grande céu sobre nós.
Hoje é o vosso dia, estou a torcer por vocês.
Parabéns Caracolinha!
Priminha, não hesites, não há cá espaço para receios, hoje vais mesmo actuar!

vejo-te dançar


Olhar para trás a meio de um caminho, rever passo a passo o trajecto passado, agora de frente, agora sobre uma nova perspectiva. Tal como um espelho que reproduz as situações que o defrontam, olhar para trás é espreitar o que se desenrola afinal atrás da paisagem, a única que até então conhecia.
Olhar para trás a meio de um caminho e ver todas as minha experiências diluírem-se no tempo, num olhar mais claro, numa visão mais ampla. Uma grande angular que capta com maior nitidez o meu percurso até ali.
E encontro-me assim face a face comigo. A que observa e a que ainda caminha. Deste ponto olho agora a paisagem, é absolutamente diferente. Ali estão os detalhes que não reparei e aqueles em que tropecei. Nesse jogo propositado de vistas descubro-me a cada passo que dei.
Sei agora que percorrer um caminho fixando o horizonte, perseguindo apressadamente o ponto de destino sem nunca olhar para trás, não permite tirar referências que guiem o caminho quando o tornaremos a fazer. Olhar para trás é assim descobrir os elementos subtis que reclamavam um novo ponto de vista para se estabilizarem. Aqueles que insistem em não olhar para trás perder-se-ão entretanto.

Hoje saí do metro com uma música com que antes pouco me identificava, como tantas outras que falam de um amor visto do outro ângulo. Atravessava o parque. Ao começar a descer umas escadas olhei involuntariamente para trás e, num relvado, encontrei com espanto uma figura ondular em gestos suaves ao som da música que eu trazia comigo. Praticava Tai Chi. Fiquei suspensa, pasmada. Assisti em poucos minutos a um dos mais belos bailados que vi até hoje. A figura acompanhava lenta e harmoniosamente cada compasso, como se tivesse coreografado com primor cada sequência de movimentos para dar matéria àquela música.
Tinha apenas olhado para trás, e daquele percurso que julgava findado, surgiu aquela dança, tão delicada como as minhas lembranças de ti. Naquele relvado podia estar eu a dançar a nossa memória.
Hoje, tal como aquela figura danço sozinha, calma e serena. E ao olhar para trás, recordo-nos com aquela mesma serenidade, um doce amor de gestos harmoniosos e firmes que não permitirei esquecer. Recordo uma delicada melodia que só poderia ter sido dançada contigo.
Observo agora daqui. Se não olhasse neste instante para trás perderia toda a nossa história, perderia-te por absoluto.

Agora sei que afinal só se perde um amor quando olhamos para trás e não o vemos dançar.



esticar as cordas


Madrugar, sol, Instituto Superior Técnico, Núcleo de Arte Fotográfica (NAF), sol, encontros, reencontros, sol, experimentação, fotografar o rapaz que fala muito com as mãos, sol, sol, muito sol, quanto maior a abertura do diafragma menor o campo focal, ou maior?! uffff...sinto-me tão baralhada, sol, ventoinha, água, água, água, ar-condicionado, grande caminhada, sol, muito sol, Gulbenkian, exposição com água no nome quando o que mais tenho é sede, sede, bar, ar-condicionado, Cinemateca, ar-condicionado e relações amorosas disfuncionais na tela, ahhh...está agora frio, frio, muito frio.

Acordo sem voz.

Uma vez sonhei que estava a ser torturada e que alguém se dirigia para o quarto da minha mãe para a torturar também. Enquanto se aproximavam da sua porta eu tentava gritar para a avisar, mas a voz não me obedecia. Ontem revi essa sensação. E naqueles segundos em que ainda não me tinha apercebido da minha previsível afonia, senti-me infinitamente muda, amputada. Nesse ínfimo momento tive a certeza de ter perdido a voz e que ficaria, desde já, fechada, sozinha do lado de cá.
Examinar estes limites e querer ter consciência deles é sem dúvida um grande desafio, uma provocação entre mim. Observo o espanto que sinto quando há um desequilíbrio, um evidente desencontro com o meu próprio corpo. Sentir como qualquer impressão fora do comum me conduz para uma excessiva atenção sobre uma parte do corpo e para a sua efectiva existência. Só verificando essa impressão sei que ele é real. E lembro-me de João de Em Nome da Terra que experimentando uma mutilação toma consciência do seu corpo: " É este chato do corpo que até agora não existia".
Falar, falar, falar ... e se de facto eu tivesse acordado sem mais poder falar?! Nesse instante, nesse receio, a minha voz foi tudo, tudo o que sempre fui e seria, foi a minha própria definição.
E à medida que saía desse estado, já consciente da minha temporária mudez, fui imaginado o desfibrar das cordas vocais a cada esforço que fazia para tornar a voz firme. Cordas vocais espigadas e exercícios de colocação de voz na cozinha: "Áaaaaa Áaaaa Áaaa, olá olá olá, bom dia bom dia".
Ri-me da minha bizarra aflição. Preciso de Vergílio Ferreira.

Fica um dos resultados do workshop no NAF, um fotograma cheio de texturas.


andorinhas



Gosto de andorinhas, recordam-me as tardes de brincadeiras com o meu primo na rua ou no quintal dos meus avós, num bairro aqui em Lisboa. Tenho recordado bastante esses tempos pois encontrei na rua do meu atelier uma Primavera semelhante à da minha infância, uma Primavera muito lisboeta, com o aroma doce das amoreiras e o chilrear das andorinhas.

Míticas peças da identidade portuguesa, as andorinhas que Bordalo Pinheiro desenhou em 1891 interpretam perfeitamente essa recordação da minha infância, e para nunca a deixar escapar gostava de colocar umas quantas numa parede da minha nova casa, a casa azul. Mais do que simples objectos decorativos as andorinhas são peças simbólicas, peças que marcam nao só a nossa herança cultural como muitas histórias pessoais. Acho mesmo que o sucesso da sua reedição está na capacidade que estas possuem em personificar algumas das nossas memórias.

A propósito de andorinhas de cerâmicas, o Estúdio Pedrita realizou uma intervenção na fachada da Ermida Nossa Senhora da Conceição, em Belém, agora transformada numa pequena galeria. Propuseram aqui uma homenagem à chegada da Primavera e ao aniversário de Rafael Bordalo Pinheiro, ambos comemorados no dia 21 de Março, cobrindo a fachada com 1600 andorinhas de cerâmica, peças da Fabrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro. Creio que a instalação já terá sido retirada, mas uma vez que não vamos impedir que as verdadeiras andorinhas voem para destinos mais quentes, gostava que estas se tivessem mantido por cá!


4ventos

Vi agora as malas ainda por desfazer no meu quarto e recordei com saudade o meu fim-de-semana.

Costumo enfrentar sensações semelhantes às que sinto agora quando saio da sala de cinema depois de um bom filme. Como que numa resistência para não sair do filme e preservar o que ele me trouxe, estranho os sons, os movimentos, os carros e as pessoas com quem me cruzo na rua e inquieta-me o seu alheamento em relação à história que me acabam de contar. Nada com o que me deparo parece ter um sentido claro, verosímil, pois tudo é questionável.

Esse meu retorno não é mais do que um processo arrebatador de maturação de conceitos, ideias e perspectivas. Um processo semelhante ao de alguém que encara um clarão e que, com a visão enublada, tacteia em seu redor procurando identificar os objectos que conheceu outrora, acabando por se deparar com formas e texturas nunca antes experimentadas

Vou saindo do filme à medida que reflicto sobre os seus momentos, deixando de o ver como um conjunto de percepções ainda confusas e soltas, para ler nele uma ideia coesa, enlaçada numa interpretação, numa conclusão. Vou saindo do filme à medida que faço o ajuste entre os dois ritmos, o dele e o meu.

Não podia ter gostado mais destes dias no retiro 4ventos, e agora que os revejo, recordo um grupo tão intimamente perfeito como um sistema em equilíbrio, onde tudo funciona harmoniosamente, gravitando em torno de uma poderosa energia. Acredito mesmo que nenhuma de nós estava ali por acaso e que cada uma tinha consigo uma palavra a acrescentar à história do lado.

Estou ainda no meu momento pós-filme e esforço-me para fazer demorar a sensação de êxtase que veio comigo de Mafra.

Há situações capazes de proporcionar um mergulho tão profundo, tão íntimo, constituindo um vislumbre de algo realmente sagrado, inviolável.

Há momentos assim... de pulsão, de expansão, de crescimento.

Esteban Device



Descobri os Esteban Device por acaso e desde então ouço-os com alguma frequência.
Fiquei com o coração parado quando encontrei aqui uma doce recordação da minha adolescência, uma pessoa de quem lamento ter perdido o rasto. Encontro-o aqui, num projecto tão delicado como a minha recordação.
Cheguei a vê-los no Cabaret Maxime em Abril, e a propósito do concerto agendado para amanhã, 14 de Maio, na Fábrica do Braço de Prata fiquei a saber que Esteban Device terminaram ...
Foi um fugaz encontro :(

Fica aqui o myspace onde ainda se fazem ouvir: Esteban Device