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vila de reis e rainhas - visões do real

Pela Rua Direita, na galeria NovaOgiva, deparámo-nos com a exposição "Intervalos do Real" de Cristina Ataíde. Um retrato peculiar da paisagem da região através da textura, da cor; da passagem do tempo, do ritmo da natureza; da terra, da água; da erosão, da transformação.



de mão em mão


Em dias da fast-porcelain, dos packs de pratos quebradiços, copos frágeis, mas empilháveis, e da trágica falência das fábricas de cerâmica em Portugal, abriu aqui por perto um espaço para venda ao público de artigos em segunda-mão como forma de angariar fundos para terminar as obras da igreja local. Aqui são cedidas belíssimas peças de louça, livros, revistas, bijutaria, roupa, candeeiros para venda a preços simbólicos.

Foi lá que encontrei um fabuloso conjunto de café da SECLA constituído por cinco chávenas, leiteira, açucareiro e bule. Encontrei ainda copos para água e licor Made in Portugal, cujo vidro possui cores e reflexos já difíceis de encontrar.

Em dias da produção em série, da falta de qualidade e dos preços acessíveis torna-se fácil comprar e renovar as louças e utensílios lá de casa. Tudo é efémero.

Mas há peças que resistem a este ritmo e ao passar acelerado do tempo. Peças que povoam as nossas memórias de infância como as caixinhas de toffees da Quality Street onde a minha avó guardava os botões, as agulhas e os alfinetes.

abrigos


saliência; pico; ferrão
espinho; extremidade aguda e picante.
impressão dolorosa e desagradável; comichão; ardor

memória


Tal como nos filmes de Godard, dois adultos corriam pela rua de mãos dadas, desta vez em direcção a um supermercado sufocado: alimentos, detergentes, promoções.
Chilrear. Ambos pararam surpresos com as aves que levantavam voo das árvores daquela quinta centenária.
- São estorninhos, voam assim em bando, formando este efeito maravilhoso.
- Olha aqueles ali com a cauda tão comprida... parecem papagaios! Que pena não ter comigo a máquina fotográfica, daria uma grande fotografia este céu... Bolas, esta necessidade de registar estes momentos chega a ser doentia, porque não me me concentro apenas em contemplá-los?
- Pois...a memória deveria bastar, ela já os regista. Mas já reparaste que que por vezes ela é matreira e "embeleza" um momento que talvez não tenha sido assim tão belo?
- Não concordo! O momento foi tão belo como a memória o recorda, contudo enquanto o vivíamos estávamos demasiado apressados, extasiados, com medo que se ele se escapasse.
- Pois é, com medo que terminasse, fugisse do nosso campo de contemplação.
- Sim, com medo que os pássaros voem demasiado rápido.

somewhere over the rainbow we have nice shoes

Posso não ter sapatinhos vermelhos. Posso não caminhar na estrada de tijolos dourados rumo à Cidade Esmeralda, mas encontrei uns sapatinhos que sonham, coloridos, ao lado dos meus.
Afinal é verdade, os sapatos dizem muito de quem os calça.

a experiência do sublime


Suspendemos a respiração. Encontrámos naquele céu um objecto estético puro, depurado, purificador.
Parámos o carro e deixámo-nos ser arrebatados pelo testemunho da nossa frágil existência, esmagados pela nossa finitude.
A euforia de existir diante de tamanha grandeza, de tamanho poder.

presença


Na ausência, a tua presença não corpórea senta-se ao meu lado, dá-me a mão com essa tua ternura, envolve a casa, caminha comigo na rua e acompanha-me em tudo o que faço.
Depois de ti, ela fica sempre aqui. Enérgica, magnética. Sinto-a em todos os recantos. Sinto-a a meu lado, a respirar, a rir, a olhar-me. Sinto-a abraça-me ao adormecer, a rir ao cozinhar.
Por vezes é tão intensa que tendo a chamar-te, a procurar-te no quarto, a olhar para o lado no carro e falar contigo em voz alta.
Por vezes estás aqui tão forte que choro a felicidade de te ter e a saudade de não te poder ver, por um dia que seja.
Há pouco sentia-te mais uma vez por aqui, entrei na sala e encontrei-te sentado no sofá.

betacianina, a cor do ferro e da força

Hoje cá em casa cheirou a terra.
Originária da região mediterrânica, a beterraba destaca-se pela riqueza em ferro, açúcar, proteínas, vitaminas A, B1, B2, B5, C, potássio, sódio, fósforo, cálcio, zinco, magnésio e ácido fólico.
Estes amigos tubérculos estimulam o sistema linfático, fortalecem o sistema imunitário, purificam e tonificam o sangue.
O seu poderoso vermelho deve-se a um pigmento chamado betacianina.

um, dois, três, encontro-te, um, dois, três


Se se permitirem serem tocadas, as bolhas, reagindo umas a outras, alteram o ADN, evoluem, tornam-se outra coisa que só faz sentido de ser num conjunto de individualidades, como numa valsa, mudando de par, sem nunca o movimento perder fluidez.
Uma dança de encontros e de desencontros.
Juntas, pela sua natureza, atraem-se, repelem-se, destroem-se, tentam-se reconstruir. Contudo permanecem unidas. Giram sobre si próprias.
A cada oscilação da água, uma bolha observa outras deixarem de ser, diluindo-se num líquido uniforme, também ele, transformado, enquanto mais bolhas como esta, se lhe juntam, quebrando em nome de um desígnio maior. Desmetaforizando: somos as bolhas, ao mesmo tempo conservando a nossa individualidade – mutável, frágil, abrindo-nos aos outros, como nós, numa eterna valsa de metamorfoses mútuas.

Cristina Ruivo e Bruno Sousa Villar

n.º 38

Por entre a azafama turística dos restaurantes com empregados multilingues, que nos empurram competitivamente ementas de peixe fresco enquanto caminhamos, encontro a porta n.º 38.
Longe das ementas plastificadas, dos empregados suspeitamente simpáticos, astutos, encontro pormenores esquecidos pela massificação turística daquela zona. Lamentarei o dia em que esta porta seja substituída por mais uma pivotante, em vidro, laminado, temperado, de alta segurança, com ferragens em inox escovado, fechos electromagnéticos, publicidade em vinil autocolante e sistema de alarme.

Esta porta mantém-se resistente, timidamente sufocada pelo ruído da rua pela qual detesto passar. Onde me sinto longe de Lisboa.
A sua fechadura sela segredos, cantigas, orações, lágrimas e as suas camadas de tintas conversam entre si acerca daquela e da outra história. Da vez que foi lançada irada, magoando-se com o estrondo; da vez que se abriu suavemente para um intenso beijo apaixonado, das cócegas das crianças que corriam para dentro e para fora, dos gatos, dos pombos, do senhora que consigo esperava o marido ao final da tarde... Relembram cada mão que a tocou, cada momento que testemunhou.

Porta-memórias.


mirtilo ♥ kiwi

Aqui por casa os pratos são coloridos para melhor receber as inesperadas cores que surgem.
As refeições tornam-se, por vezes, um jogo cromático. Hoje verti iogurte de mirtilos numa taça azul tranquilo, olhei para a fruteira (recheada pela minha incursão à nova frutaria do bairro) e tentei escolher a cor mais improvável. Elegi o kiwi, que pena não ter trazido manga.
Do meu delicioso lanche surgiram as seguintes paletas, um dia responsáveis por um padrão.

uma jóia que faz jóias

Adicionar imagem
Não resisto aos brincos desta minha jóia e neste domingo, apesar da minha paupérrima situação financeira, comprei à Maria do Mar uns quantos brincos. Difícil foi decidir, ela tem trabalhos absolutamente fabulosos que podem ser vistos aqui e aqui.


“Ah o êxtase dos namorados

que se olham, beijam, voltam a olhar e já não sabem

que mais hão-de fazer, que mais hão-de inventar.”

Alexandre O’Neill


A Espuma da Língua

Falamos a mesma linguagem.

Não, melhor, o mesmo silêncio.

As palavras não querem dizer nada,

emudeceram no clamor dos corpos

rebentando, com a urgência das ondas,

um rochedo contra outro.

As palavras não querem dizer nada,

meu amor, e os gestos são mudos,

o silêncio é o compêndio de todos os

incêndios suados:

branco, azul, memórias d´cor

e salteadas,

comida para dentro, para dentro

de mim, comida de ti, de dentro de ti,

para dentro, para dentro de mim

e assim reciprocamente.

As palavras, bem sabes, não querem dizer nada,

já o mutismo de dados gestos daria para povoar

o tempo e o espaço baldios

de todas as bibliotecas do nosso e dos outros mundos,

e o entendimento órfão entre todos os povos e indivíduos.

Não há hora marcada para isto,

um momento ideal para nada disto,

convencionou-se dizer, efectivamente que há,

todavia nem pensar; isto não se teoriza, intelectualiza, planifica,

não se filosofa, não se explica, não se postula,

bioquimica, preconiza, determina, conversa,

negoceia, acorda, isto é,

ISTO É E DEIXEMO-LO SER.

O TEMPO NECESSÁRIO

E O INÚTIL TAMBÉM:

ISTO é nosso

máximo denominador comum.

Bruno Sousa Villar


I'm laughing at clouds


Duas sessões do curso de fotografia analógica, novas pessoas, novos desafios, conversas ininterruptas, cortadas apenas pela sucessão das estações do metro em que cada um sai. Eu saio sempre na última. Já sozinha recordo a matéria dada: a minha confusão com o obstrutor, o diafragma, o fotómetro, tudo, tudo, tudo! Contudo, acabo sempre a pensar nas pessoas, nas pessoas da minha vida, naquelas que estou a conhecer e naquela tão especial que me privilegiou acompanhando-me no curso, e sob ele, com a garantia de um lanche todas as terças-feiras. Incrível, todas as terças-feiras até Dezembro vou poder ver-te. Gosto muito de ti, fazes-me falta todos os dias (excepto agora ..ahaha.. nas nossas terças-feiras!).
Duas sessões do curso, duas noites em que após as conversas do metro, o espanto dos azulejos da nova estação de São Sebastião, caminho só os escassos passos que distanciam a minha casa da estação.
Duas noites surpreendida pelo "lixo" de alguém. Há uma semana uns cabides (cruzetas!) antigos, feitos com aquela madeira que cheira bem e com um molde por onde a roupa, bem assente, não consegue deslizar.
Ontem, chovia muito e o meu caminho era apressado e incómodo até se cruzar com o camião do lixo onde, empoleirado, um homem verde cantou para mim:
"I´m singing in the rain
Just singing in the rain
What a glorious feelin'
I'm happy again"
Não resisti em sorrir ao gesto de compaixão do senhor do boné verde. Trinta passos depois do encontro, por entre a luta com o chapéu de chuva e o vento, encontrei três gavetas a chamarem por um novo projecto.

cá em casa

Quando iniciei as obras tive que tomar um conjunto de decisões difíceis. Para quem não é sensível à variação de um tom numa cor, e para quem apenas distingue o azul escuro do azul claro e do assim-assim, não poderá compreender o tempo e a energia que despendi com a escolha da cor para cada quarto e para o padrão da parede da cozinha (esta, por exaustão, acabou por ser a decisão mais instintiva).
Adoro o resultado, mas sinto que as escolhas foram demasiado prudentes. Receei determinadas cores que agora fazem cá falta.
Entretanto, depois de tantas dúvidas, desistências, tirinhas de cores e resultados, sinto que só agora estaria em perfeitas condições para escolher as cores cá de casa.

ouro sobre azul



Já tinha decidido que este fim-de-semana tentaria esquecer o cheiro a verniz que invadiu a casa e iria pensar em paletas de cores para iniciar um projecto com a Patrícia . Durante o lanche apaixonei-me por este trio cintilante.

(minhmm..estava também muito saboroso!)