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coisas simples


Numa tarde de sol (e muito calor), na pequena aldeia onde a minha avó nasceu, descobri deliciosos pormenores capazes de satisfazer a minha inexplicável fixação por texturas e cores.
Ferrugem, tintas a descascar, madeira ressequida, musgo, barro, terra, cal, cascas... observo a luz a cintilar, a sua vibração nas superfícies e as improváveis composições cromáticas dos materiais gastos, secos, expostos há demasiado tempo à chuva, ao vento e ao sol.
Uma tarde simples.


No dia mundial da fotografia presto homenagem à Holga.
A minha deve ser bastarda... e muito muito teimosa :(


o menino-doce


Joan Miró por Arnold Newman (Maiorca, 1979)

Vi-o em várias fotografias sem ter olhado atentamente o seu rosto. Na fotografia de Arnold Newman (re)apaixonei-me por Joan Miró... nunca imaginaria uma presença assim tão serena, um olhar, um sorriso tão doce. Encontrei aqui o menino tímido e curioso que a sua obra adivinhava ser.

Joan Miró, sem título (1953)


Walter Astrada, o destemido argentino, tem vindo a fotografar em cenários de violência extrema, avassaladoramente brutais. São dele as fotografias que mais me têm impressionado pela forma como expõe a miséria e a agressividade, e como cruamente nos depara com a morte.

Mais uma vez Astrada voltou a deixar-me aterrada. Numa série de fotografias tiradas nos confrontos pós-eleitorais do Quénia, sob uma vaga de cruéis assassinatos, surge a aflição de Monday Lawiland, um menino que com apenas 7 anos se vê exposto a conflitos para os quais ninguém tem idade, muito menos ele. Com esta reportagem Astrada venceu a categoria Spot News da World Press Photo 2009.

Fica ainda uma reunião das melhores fotografias do ano passado acompanhadas por uma belíssima música.

infância


Fotografia de Cristobal Hara. "Valencina de la Concepción", 1993.


Ao falar em infâncias felizes lembrei-me da fotografia de Cristobal Hara que vi há poucos dias na exposição PhotoEspanha, no Museu Berardo.
E ao ver este fabuloso casalinho da fotografia lembrei-me de mim e do meu primo. Lembrei-me do nosso Verão, na praia, na casa dos avós, nos picnics no pinhal, da ceia de Natal, do circo em Dezembro. E ao rever tantas fotografias voltei a sentir a forma como nos empenhávamos em viver cada brincadeira. Desafios que aos nossos olhos ganhava uma seriedade tal que constituíam verdadeiras inovações, importantes conquistas que iriam mudar o mundo para sempre. E mudaram, pelo menos o meu.
Lembrei-me que gostava tão intensamente do meu primo que mal dormia à noite, ansiosa que a manhã chegasse. E na casa dos meus avós, na manhã seguinte, deixava de existir mundo em meu redor, fixava-me apenas no portão da rua e naquilo que por entre o gradeamento ia surgindo. Permanecia intermináveis instantes à espera de ouvir o carro da minha tia a entrar na rua e tentava imaginar ao que poderíamos brincar nesse dia.
O carro a estacionar, o toque da campainha. Chegava o meu grande companheiro.


esticar as cordas


Madrugar, sol, Instituto Superior Técnico, Núcleo de Arte Fotográfica (NAF), sol, encontros, reencontros, sol, experimentação, fotografar o rapaz que fala muito com as mãos, sol, sol, muito sol, quanto maior a abertura do diafragma menor o campo focal, ou maior?! uffff...sinto-me tão baralhada, sol, ventoinha, água, água, água, ar-condicionado, grande caminhada, sol, muito sol, Gulbenkian, exposição com água no nome quando o que mais tenho é sede, sede, bar, ar-condicionado, Cinemateca, ar-condicionado e relações amorosas disfuncionais na tela, ahhh...está agora frio, frio, muito frio.

Acordo sem voz.

Uma vez sonhei que estava a ser torturada e que alguém se dirigia para o quarto da minha mãe para a torturar também. Enquanto se aproximavam da sua porta eu tentava gritar para a avisar, mas a voz não me obedecia. Ontem revi essa sensação. E naqueles segundos em que ainda não me tinha apercebido da minha previsível afonia, senti-me infinitamente muda, amputada. Nesse ínfimo momento tive a certeza de ter perdido a voz e que ficaria, desde já, fechada, sozinha do lado de cá.
Examinar estes limites e querer ter consciência deles é sem dúvida um grande desafio, uma provocação entre mim. Observo o espanto que sinto quando há um desequilíbrio, um evidente desencontro com o meu próprio corpo. Sentir como qualquer impressão fora do comum me conduz para uma excessiva atenção sobre uma parte do corpo e para a sua efectiva existência. Só verificando essa impressão sei que ele é real. E lembro-me de João de Em Nome da Terra que experimentando uma mutilação toma consciência do seu corpo: " É este chato do corpo que até agora não existia".
Falar, falar, falar ... e se de facto eu tivesse acordado sem mais poder falar?! Nesse instante, nesse receio, a minha voz foi tudo, tudo o que sempre fui e seria, foi a minha própria definição.
E à medida que saía desse estado, já consciente da minha temporária mudez, fui imaginado o desfibrar das cordas vocais a cada esforço que fazia para tornar a voz firme. Cordas vocais espigadas e exercícios de colocação de voz na cozinha: "Áaaaaa Áaaaa Áaaa, olá olá olá, bom dia bom dia".
Ri-me da minha bizarra aflição. Preciso de Vergílio Ferreira.

Fica um dos resultados do workshop no NAF, um fotograma cheio de texturas.